Um Mapa Da Ideologia – Slavoj Žižek (Org.)

Um Mapa Da Ideologia – Slavoj Žižek (Org.)

Textos clássicos e contemporâneos sobre o conceito de ideologia, complementares ou divergentes, em alguns casos francamente polêmicos entre si, foram reunidos por Zlavoj Zizek para este volume inaugural de uma série que pretende “mapear” as questões decisivas da teoria social do nosso tempo. Muitos poderão indagar por que justamente este tema foi o primeiro escolhido. “Ideologia” não é um conceito fora de moda? Não vivemos em um mundo “pós-ideológico”? Não é mais importante discutir a realidade em si mesma, tal como é?

Deixemos que o próprio Zizek responda, mesmo que de forma indireta: “Um dos estratagemas fundamentais da ideologia é a referência a alguma evidência: ‘Olhe, você pode ver por si mesmo como são as coisas!’ ou ‘Deixe os fatos falarem por si!’ talvez constituam a arquiafirmação da ideologia, considerando-se justamente que os fatos nunca ‘falam por si’, mas são sempre levados a falar por uma rede de mecanismos discursivos (…). A análise do discurso talvez mostre seu ponto mais forte ao responder precisamente a essa questão: quando um inglês racista diz que ‘há paquistaneses demais nas nossas ruas!’, como, de que lugar, ele ‘vê’ isso; ou seja, como se estrutura seu espaço simbólico para que ele possa perceber como um excesso perturbador o fato de um paquistanês andar em uma rua de Londres? Em outras palavras, devemos ter em mente aqui o lema de Lacan de que ‘no real não falta nada: toda percepção de uma falta ou de um excesso (‘não há bastante disso’, ‘há demais daquilo’) implica um universo simbólico’.”

Esse universo simbólico é inerente ao homem, constitutivo do homem, específico do homem. Regula, em última instância, a relação entre o imaginável e o inimaginável, o possível e o impossível. Nos permite agir, ou não agir, porque fornece as interpretações, conscientes ou não, de que necessitamos para tal ou qual decisão. Quando essa matriz ideológica fundamental se torna invisível, a ideologia não acabou. Ao contrário, experimentou seu mais completo triunfo.

Depois de reconstruir o desenvolvimento do conceito de ideologia na moderna ciência social e ressaltar suas múltiplas faces, Zizek passa a palavra a artigos já clássicos – os de Lacan e Althusser –, a um surpreendente conjunto de textos de Adorno, inéditos até 1993, e a uma cuidadosa seleção de autores, contemporâneos. Terry Eagleton, Peter Dews e Seyla Benhabib avaliam as contribuições decisivas da Escola de Frankfurt e de Lukács. Michel Pêcheux nos revela uma tradição diferente, a dos pós-estruturalistas franceses. Segue-se o famoso debate sobre a “tese da ideologia dominante”, no qual Nicholas Abercrombie, Stephen Hill, Bryan Turner e Göran Therborn trabalham na interseção de temas gramscianos e althusserianos. Pierre Bourdieu mostra seu distanciamento dessa tradição numa entrevista com Eagleton, enquanto Richard Rorty, refletindo sobre o feminismo, imagina outras possibilidades de transformação social. Michèle Barret relê Gramsci, Laclau e Mouffe, e Fredric Jameson oferece uma exposição magistral sobre a ideologia no capitalismo tardio. O volume termina com mais um ensaio notável do próprio Zizek, que ressalta e compara as sutilezas das análises clássicas da forma-mercadoria, por Marx, e do sonho, por Freud e Lacan.

Um Mapa Da Ideologia - Slavoj Žižek (Org.)Textos clássicos e contemporâneos sobre o conceito de ideologia, complementares ou divergentes, em alguns casos francamente polêmicos entre si, foram reunidos por Zlavoj Zizek para este volume inaugural de uma série que pretende “mapear” as questões decisivas da teoria social do nosso tempo. Muitos poderão indagar por que justamente este tema foi o primeiro escolhido. “Ideologia” não é um conceito fora de moda? Não vivemos em um mundo “pós-ideológico”? Não é mais importante discutir a realidade em si mesma, tal como é?
Deixemos que o próprio Zizek responda, mesmo que de forma indireta: “Um dos estratagemas fundamentais da ideologia é a referência a alguma evidência: ‘Olhe, você pode ver por si mesmo como são as coisas!’ ou ‘Deixe os fatos falarem por si!’ talvez constituam a arquiafirmação da ideologia, considerando-se justamente que os fatos nunca ‘falam por si’, mas são sempre levados a falar por uma rede de mecanismos discursivos (…). A análise do discurso talvez mostre seu ponto mais forte ao responder precisamente a essa questão: quando um inglês racista diz que ‘há paquistaneses demais nas nossas ruas!’, como, de que lugar, ele ‘vê’ isso; ou seja, como se estrutura seu espaço simbólico para que ele possa perceber como um excesso perturbador o fato de um paquistanês andar em uma rua de Londres? Em outras palavras, devemos ter em mente aqui o lema de Lacan de que ‘no real não falta nada: toda percepção de uma falta ou de um excesso (‘não há bastante disso’, ‘há demais daquilo’) implica um universo simbólico’.”
Esse universo simbólico é inerente ao homem, constitutivo do homem, específico do homem. Regula, em última instância, a relação entre o imaginável e o inimaginável, o possível e o impossível. Nos permite agir, ou não agir, porque fornece as interpretações, conscientes ou não, de que necessitamos para tal ou qual decisão. Quando essa matriz ideológica fundamental se torna invisível, a ideologia não acabou. Ao contrário, experimentou seu mais completo triunfo.
Depois de reconstruir o desenvolvimento do conceito de ideologia na moderna ciência social e ressaltar suas múltiplas faces, Zizek passa a palavra a artigos já clássicos – os de Lacan e Althusser –, a um surpreendente conjunto de textos de Adorno, inéditos até 1993, e a uma cuidadosa seleção de autores, contemporâneos. Terry Eagleton, Peter Dews e Seyla Benhabib avaliam as contribuições decisivas da Escola de Frankfurt e de Lukács. Michel Pêcheux nos revela uma tradição diferente, a dos pós-estruturalistas franceses. Segue-se o famoso debate sobre a “tese da ideologia dominante”, no qual Nicholas Abercrombie, Stephen Hill, Bryan Turner e Göran Therborn trabalham na interseção de temas gramscianos e althusserianos. Pierre Bourdieu mostra seu distanciamento dessa tradição numa entrevista com Eagleton, enquanto Richard Rorty, refletindo sobre o feminismo, imagina outras possibilidades de transformação social. Michèle Barret relê Gramsci, Laclau e Mouffe, e Fredric Jameson oferece uma exposição magistral sobre a ideologia no capitalismo tardio. O volume termina com mais um ensaio notável do próprio Zizek, que ressalta e compara as sutilezas das análises clássicas da forma-mercadoria, por Marx, e do sonho, por Freud e Lacan.