Um livro que é uma viagem

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 Eu gosto de cartas. De enviá-las. Sentar um tempo, deixar o pensamento vadiar, escolher notícias em que o tempo deixa de ter importância e rabiscar no papel o carinho. Eu gosto de cartas. De recebê-las. Ficar um momento com o envelope fechado, antecipando a alegria de receber notícias, adivinhando o dia, o jeito, o local, em que foi escrita. Eu gosto de cartas, de lê-las. De imaginar o sentimento que moveu a escrita.

 Gosto de cartas porque ficam no limiar da intimidade. Na carta nos desnudamos, queremos a exposição, fazemos rogos de aceitação incondicional, nas cartas somos nus do olhar de escrutínio social, fazemo-nos entregues e pedintes. E, no entanto. Pois é, porque se escreve sempre a alguém, real e/ou imaginário e cada palavra é uma demanda de amor. Cada palavra recobre o que desnudamos, busca uma beleza distinta, que não é apenas em nós, mas de sermos vistos pelo outro. As cartas são mais que uma forma de comunicação. Ou menos. São tentativas de encontro além da linguagem e da carne. Ou aquém. Matéria, mas também dito. Fala, mas também concreto.

 De muito e de tanto que eu gosto de cartas, não é estranho que goste imenso dos livros que são escritos neste formato, seja como coletânea de correspondência real (Cartas Perto do Coração) ou recurso literário (Ligações Perigosas). Um que anda a me encantar é: Cartas a Nelson Algren: Um Amor Transatlântico. É o registro das cartas apaixonadas que Simone de Beauvoir escreveu ao escritor Nelson Algren enquanto mantinham um romance. Gosto tanto deste livro. Porque amar é sempre um vôo sobre o oceano em um teco-teco. Romântico, corajoso e muito, muito perigoso. Simone fez tudo: amou com intensidade e viajou no teco-teco. E escreveu cartas. Ridículas, como deviam ser. São cartas apaixonadas, bobas, intensas.

 De tempos em tempos leio alguma carta de Simone. Pra lembrar como se precisa tanto do outro. Pra lembrar que é preciso saber pedir, mesmo que não se vá ser atendida. Pra reconhecer que a distância entre os dizeres assemelha-se à distância entre Paris e Chicago quando os vôos transatlânticos eram uma audácia. É uma audácia viver o sentir.

 As cartas de Simone são encantadoramente despudoradas. Tão lindo se dizer “sua rã”, com a entrega e sinceridade de quem diria “seu grande amor”. É tolo quando ela revela que queria cozinhar, lavar e passar? Importa-me muito pouco, para mim são apenas outros nomes pra dizer: cuidar. Também se quer massagem no pé, café na cama e que ele recorde o nome dos dezessete tios. Nada de mais. Amar é dar o que não se tem. Ela deu. Gabo-lhe a fleuma. Ele não quis o que recebia. Só posso lamentá-lo.

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35 thoughts on “Um livro que é uma viagem”

  1. Cartas são realmente uma maneira de deixar um livro interessante… o último que li nesse conceito foi "Precisamos Falar sobre o Kevin" e realmente é muito bom.

  2. mais umm livro interessante da Simone de Beavoir. Mas com tudo isso, ela nunca largou o Sartre. Viveu com ele, morando em aptos separados, e depois cuidou dele até a morte, como descrito em A Cerimônia do Adeus.

        1. Obrigado Luciana, é que seu texto me encantou….. pensei que o livro poderia estar disponivel. Pena que não está. De qualquer forma, muito obrigado pelas suas interessantes observações.

  3. Não li muitos romances epistolares, mas existem dois que estão na minha lista de leitura: "Flores Azuis", de Carola Saavedra e "Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe. Quanto a Simone de Beauvoir, li "A força da idade", a biografia, quando tinha uns 15 anos e gostei, e me prometi comprar e ler de novo, mas, por alguma razão, nunca fiz.

  4. Luciana, parabéns pela resenha.

    Sou suspeita por amar Simone de Beauvoir, mas a sua escrita é simplesmente impecável. É delicada, é profunda e, simplesmente, uma obra à parte. Parabéns!

  5. Estou gostando muito das colaborações, mas acho que poderiam ser mais orquestradas com o exilado para justamente disponibilizar o livro em questão no artigo…

    Aposto que seriam os mais baixados…

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