Testei o Kobo Aura H2O, o e-reader à prova d’água

Testei o Kobo Aura H2O, o e-reader à prova d’água

Um dos primeiros comerciais do Kindle, e-reader da Amazon, mostrava uma mulher à beira da piscina lendo um e-book sem ser atrapalhada pelo Sol. Era uma alfinetada na tela do iPad, que sofre com a incidência de luz solar direta. Quisesse, a Kobo poderia aproveitar a deixa para promover seu último e-reader, o Kobo Aura H2O. Com ele, você pode ler dentro da piscina.

Um dos primeiros comerciais do Kindle, e-reader da Amazon, mostrava uma mulher à beira da piscina lendo um e-book sem ser atrapalhada pelo Sol. Era uma alfinetada na tela do iPad, que sofre com a incidência de luz solar direta. Quisesse, a Kobo poderia aproveitar a deixa para promover seu último e-reader, o Kobo Aura H2O. Com ele, você pode ler dentro da piscina.

O segmento de e-readers passa, desde a sua concepção, por transformações leves e previsíveis. Toda nova versão sempre traz alguma novidade e melhora características inerentes do formato, mas nada que o afaste tanto dos primeiros modelos de quase dez anos atrás. Foram-se os botões em prol de telas sensíveis a toques, por exemplo. O contraste e a velocidade de transição das páginas, sempre aumentam. As mais recentes mudanças foram o lançamento de produtos premium, com telas de alta definição e iluminação — uma carência notável dos primeiros modelos –, em paralelo aos modelos baratos de entrada.

O Kobo Aura H2O dá, de certa forma, mais um passo nesse sentido. Além de tudo o que seus antecessores trouxeram de mais sofisticado, ele é à prova d’água, classificação IP67 (entenda). Faz a diferença? É o que tentei descobrir lendo O Curioso Caso de Benjamin Button, um pedaço de Misto Quente e vários artigos salvos no Pocket.

Hardware enxuto (mesmo molhado)

O Kobo Aura H2O tem ângulos retos e é um pouco maior do que eu esperava. Não que seja ruim; há uma boa justificativa para essa surpresa. O tamanho advém da tela. Meio que padronizou-se as dos e-readers em 6 polegadas; a desse modelo tem 6,8. A diferença, porém, quase passa despercebida — a menos que você tenha um outro aparelho menor para fazer a comparação direta.

Formas geométricas formam a textura do Kobo Aura H2O.

O e-reader é de plástico, mas um de bom gosto, agradável ao tato. Atrás, as bordas têm relevos que o afinam em relação ao miolo. Não é algo suave ou constante como a linha de smartphones da Motorola (E/G/X); são formas geométricas bem destacadas. Apesar da diferença, funciona bem. O peso dá segurança no manuseio (nem tão leve, nem muito pesado) e o desenho industrial, no geral, é bem sóbrio e elegante. Um detalhe que me agradou muito foi a inscrição “Kobo” na parte inferior frontal, tão sutil que quase passa batido. Eu sei o nome do meu aparelho, não preciso ser lembrado dele toda vez que for usá-lo.

Na parte que mais importa, a tela, o Kobo Aura H2O se sai muito bem. Ela usa a versão mais recente da tecnologia da E-Ink, a mesma presente nos concorrentes Kindle Paperwhite e Voyage . A densidade é de 268 PPI, número que se traduz em fontes bem delineadas e legíveis, mesmo as menores. A distribuição da luz, cuja fonte reside na borda inferior, é uniforme e ela chega a níveis altos de intensidade. O painel touchscreen responde bem e a velocidade de transição das páginas é boa. Não tenho parâmetro, mas é rápido o suficiente para não deixar o usuário esperando a ponto de despertar impaciência ou irritação. Veja:

Existe apenas um botão físico, no topo — um ótimo lugar, aliás. A conexão microUSB e o slot para cartão microSD ficam na borda inferior, protegidos por uma portinhola. Motivo? Água.

Portinhola do Kobo Aura H2O.

Pode colocar o Kobo Aura H2O embaixo da torneira da pia? Sim. Levá-lo para o banho a fim de ler alguma coisa enquanto lava o cabelo? Tranquilo. Jogá-lo na piscina? Sim, e eu fiz isso. Não ficaram sequelas. Ele é à prova d’água mesmo.

Kobo Aura H2O mergulhado na piscina.

A única frustração, e motivada por um choque de tecnologias, é que embora ele aguente tomar uns banhos, não dá para efetivamente ler alguma coisa com água na tela. Ao detectar o líquido nela, o sistema emite uma mensagem meio assustadora pedindo ao usuário para enxugá-la antes de continuar com a leitura. Os comandos na tela são travados, afinal, touchscreen e água não combinam, e só lhe resta a opção de fazer o que o comando pede para voltar a ter o texto desejado na tela.

Talvez fosse o caso de incluir uma “chave” física para desabilitar a sensibilidade da tela e alguns botões, de apertar mesmo, para passar páginas. Embora fosse uma saída fácil, é compreensível as implicações que ela traria: mais botões aumentaria o trabalho de vedação contra água, e estimularia o uso prolongado numa situação que tem tolerâncias de profundidade e temporal bem restritas — no caso de equipamentos com classificação IP67, até um metro por 30 minutos.

Isso significa que o grande diferencial do Kobo Aura H2O tem um apelo bastante restrito. As chances dele cair acidentalmente na água são bem menores que as de um smartphone. A menos que você troque a cantoria no chuveiro por uma sessão de Machado de Assis enquanto se ensaboa, é bem provável que essa característica de ser à prova d’água passe batida durante a maior parte da vida útil do e-reader. Por sorte as demais são ótimas, o que tira o peso do recurso — apesar dele estar no nome do gadget.

Software agradável

Tela inicial do Kobo Aura H2O.

Mexer em um Kobo é fácil — mais que nos e-readers da maior rival. A tela inicial apresenta um mosaico com seus e-books, recomendações da loja, amostras e coisas salvas no Pocket. Há uma obsessão por números, como porcentagens de leitura e estimativas de horas restantes para cada livro. Um ou outro, especialmente o tempo previsto para terminar um capítulo, são úteis, mas no geral eles funcionam como massageadores de ego para quem gosta de se gabar por ler muito. Para esses, também, o sistema traz badges a la Foursquare, com “conquistas” de leitura. “AI MEU DEUS Eu li a Odisseia!” toma aqui seu troféu, digo, badge joinha.

Menu global do Kobo.

O menu global é organizado em duas colunas, é fácil de ler e de ser operado. No topo aparece um campo de busca (na livraria e na sua biblioteca). Em seguida, sem enrolação, aparecem as informações mais importantes: nível do brilho, da bateria, status do Wi-Fi e o tempo transcorrido desde a última sincronia. Há, por fim, atalhos para a ajuda e configurações. A tela de configurações também é direta e intuitiva. A Amazon definitivamente pode aprender uma coisa ou outra aqui.

Lendo, os recursos são abundantes. Um toque no topo ou no rodapé da tela abre os comandos — os mesmos globais em cima e, na parte inferior, os referentes à leitura. Dá para mexer na tipografia, espaçamento entrelinhas, margens e estilo do alinhamento. Tocando no botão “Avançado” o sistema oferece até um antes-e-depois das alterações tipográficas.

O comando para seleção poderia ser um pouco melhor, porém. Arrastar o dedo sobre uma frase não a seleciona; em vez disso, ele avança ou retrocede a página — como um tablet. Para selecionar uma frase é preciso segurar o dedo em cima de uma palavra e, aí sim, arrastar os seletores que surgem. O Kobo permite destacar trechos, escrever anotações e fazer pesquisas (no próprio livro, no Google e na Wikipédia). A mera seleção da palavra já abre a definição do dicionário, no topo.

Seleção de palavra no Kobo Aura H2O.

Seleção de trecho no Kobo Aura H2O.

Comprar pelo próprio e-reader também é tranquilo, mesmo que você ainda não tenha cedido os dados do cartão à Livraria Cultura. Fiz o procedimento e não tive problemas. A Kobo oferece apps para diversas plataformas também (Android, BlackBerry 10, iOS, OS X e Windows), e com aquele truque de continuar a leitura do ponto onde parou. Baixei o app moderno para Windows 8 e ele é um tanto frustrante — não permite selecionar palavras/trechos com o mouse, e sumiu com um livro da minha biblioteca. O do Android se saiu melhor, não apresentando os mesmos problemas, mas a oferta de fontes tipográficas é baixa — apenas duas. Senti falta de um app na web; sempre uso o Cloud Reader da Amazon para pescar citações e observações que deixo nos livros lidos lá.

Guerra de formatos (e o PDF no meio)

Integração suave com o Pocket, direto na tela inicial.

Em funcionalidades, ficam faltando apenas coisas mais específicas, como os modos Raio-X do Kindle. Coisas que, pessoalmente, nunca usei em situações reais. Como alguém disse em outro review, a troca dessas pela integração suave com o Pocket compensa: insira suas credenciais e o Kobo Aura H2O sincronizará automaticamente os artigos salvos no serviço para leitura offline. Alguns posts ficam estranhos com a paginação, mas funciona conforme o esperado — e é, de fato, uma mão na roda.

Falando em Kindle, talvez a diferença mais fundamental entre as duas famílias seja os tipos de arquivo suportados. Enquanto a Amazon se fecha num formato proprietário, a Kobo abraça o ePub. Isso significa que e-books comprados em qualquer lugar à exceção da Amazon funcionarão no Kobo. Para quem não quer se prender a uma fornecedora, por melhor que ela seja (e a Amazon é boa), é um fator decisivo.

Outro ponto que costumam perguntar muito é o suporte a arquivos PDF. O Kobo Aura H2O os lê, basta jogar os arquivos na raiz da memória interna conectando-o em um computador via cabo USB. Só que ele não faz milagres, nem nada próximo dos recursos disponíveis para e-books em ePub, como alterar a tipografia. As únicas opções são de zoom e orientação — é possível deixar o arquivo na horizontal, aumentando a área nesse sentido para facilitar a leitura de textos miúdos. Dependendo da formatação, e quase sempre ela não colabora, a leitura é desconfortável. Notei, ainda, maior lentidão ao lidar com arquivos em PDF.

Em outras palavras, se o seu objetivo primeiro é ler PDF, você estará melhor servido com um tablet.

Vale a pena?

Kobo Aura H2O: bom, porém caro.

É difícil encontrar problemas no Kobo Aura H2O. É um dispositivo de construção sólida, funcional e, de quebra, capaz de ficar bastante tempo longe da tomada (a Kobo garante até dois meses, com Wi-Fi desligado e sessões diárias de meia hora).

Nos EUA seu preço sugerido é de US$ 180, equivalente a ~R$ 540. O nosso não está tão distante e com impostos e logística, chega a ser justificável, mas isso não ajuda a mudar a percepção que se tem dele. Afinal, R$ 799 para ler livros, por melhor que seja o dispositivo, é um valor que inibe compras por impulso ou mesmo as mais racionais. Trata-se, pois, de uma categoria de produto em que os diferenciais dos premium em relação aos básicos não são tão vitais, ou mesmo significativos na atividade-fim.

Considerando que com R$ 299 dá para comprar um Kobo Touch — sem luz, sem resolução HD, muito menos proteção contra água, mas com palavras que formam textos que formam livros, e todo o ecossistema idêntico –, o mercado para o Kobo Aura H2O é restrito: gente que gosta de ler e a quem uns Reais a mais em qualidade não faz falta no fim do mês. Se você é um desses privilegiados, é uma compra recomendada e praticamente livre de ressalvas.

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