Stevenson sob as palmeiras – Alberto Manguel

Stevenson sob as palmeiras – Alberto Manguel

Com a mulher, dois enteados e a mãe, Stevenson habita uma casa em que móveis e objetos reproduzem o bem-estar britânico. Os livros se distribuem pelas estantes; dão à paisagem doméstica a intimidade própria de uma casa onde há leitores. Aquela é também a casa de um escritor. Em seu escritório, sentado à escrivaninha, Stevenson molha a pena no tinteiro de prata e pode preencher folhas e folhas sem rasuras: o mundo inteiro está em silêncio; o escritor ouve apenas o que deseja sua imaginação. Do lado de fora da casa e da mente que escreve, há o sol, o flamboiaiã e a nudez das mulheres – sua “pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica”. Em Samoa, a vida toda parece acontecer ao ar livre. Nem as histórias ficam guardadas nos livros: circulam de boca em boca, de uma geração à outra. E os samoanos não conhecem a ficção: consideram que toda história conta um fato. Para Stevenson, “tudo o que outrora fora oculto, sussurrado, abotoado no mundo protegido de sua infância”, ali, em Samoa, é “escancarado – descarado, às claras”. Um dia, apenas com o olhar, ele deseja apaixonadamente o que está do lado de fora: uma adolescente que, enfeitada com gardênias, dança ao som dos tambores. Recatado, transforma o desejo em literatura; a palavra escrita o protege de querer transformar o desejo em ato. Mas haverá um crime – e os samoanos vão atribuí-lo “ao contador de histórias”. A Tusitala, como o escritor é conhecido. A partir desse momento, tomam forma as tensões entre o recato e a desinibição, entre o pecado e a simplicidade, entre fato e ficção, entre um modo europeu de se instalar na ilha e o modo nativo de estar ali desde sempre. Stevenson, o escritor, torna-se um grande personagem. Alberto Manguel o acompanha com discrição, como se quisesse que a história corresse por si mesma; a poesia pode passar despercebida em sua prosa. Talvez o seu desejo maior tenha sido nos fazer sair desta ficção e nos levar para a literatura clara e íntegra de R. L. Stevenson.

Com a mulher, dois enteados e a mãe, Stevenson habita uma casa em que móveis e objetos reproduzem o bem-estar britânico. Os livros se distribuem pelas estantes; dão à paisagem doméstica a intimidade própria de uma casa onde há leitores. Aquela é também a casa de um escritor. Em seu escritório, sentado à escrivaninha, Stevenson molha a pena no tinteiro de prata e pode preencher folhas e folhas sem rasuras: o mundo inteiro está em silêncio; o escritor ouve apenas o que deseja sua imaginação. Do lado de fora da casa e da mente que escreve, há o sol, o flamboiaiã e a nudez das mulheres – sua “pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica”. Em Samoa, a vida toda parece acontecer ao ar livre. Nem as histórias ficam guardadas nos livros: circulam de boca em boca, de uma geração à outra. E os samoanos não conhecem a ficção: consideram que toda história conta um fato. Para Stevenson, “tudo o que outrora fora oculto, sussurrado, abotoado no mundo protegido de sua infância”, ali, em Samoa, é “escancarado – descarado, às claras”. Um dia, apenas com o olhar, ele deseja apaixonadamente o que está do lado de fora: uma adolescente que, enfeitada com gardênias, dança ao som dos tambores. Recatado, transforma o desejo em literatura; a palavra escrita o protege de querer transformar o desejo em ato. Mas haverá um crime – e os samoanos vão atribuí-lo “ao contador de histórias”. A Tusitala, como o escritor é conhecido. A partir desse momento, tomam forma as tensões entre o recato e a desinibição, entre o pecado e a simplicidade, entre fato e ficção, entre um modo europeu de se instalar na ilha e o modo nativo de estar ali desde sempre. Stevenson, o escritor, torna-se um grande personagem. Alberto Manguel o acompanha com discrição, como se quisesse que a história corresse por si mesma; a poesia pode passar despercebida em sua prosa. Talvez o seu desejo maior tenha sido nos fazer sair desta ficção e nos levar para a literatura clara e íntegra de R. L. Stevenson.

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