Poemas e ensaios – Edgar Allan Poe

Poemas e ensaios – Edgar Allan Poe

Poemas e ensaios, de Edgar Allan Poe, é um livro maior do que seu número de páginas indica. Além de reunir os principais poemas e ensaios de um dos principais nomes da modernidade, inclui um posfácio de Charles Baudelaire e conta com as consagradas traduções de Oscar Mendes e Milton Amado.

Poemas e ensaios, de Edgar Allan Poe, é um livro maior do que seu número de páginas indica. Além de reunir os principais poemas e ensaios de um dos principais nomes da modernidade, inclui um posfácio de Charles Baudelaire e conta com as consagradas traduções de Oscar Mendes e Milton Amado.

A modernidade começa no Renascimento. Mas tem um recomeço no início do século XX, com o modernismo (ou melhor, com os modernismos). O modernismo, por usa vez, começa, de fato, na segunda metade do século XIX. E não tem apenas um começo, mas vários. O impressionismo. O romance realista. Na poesia, Rimbaud. Ou, talvez, Baudelaire. Ou, quem sabe, Mallarmé. Ou, ainda, Poe.

Na verdade, Mallarmé (com suas inovações formais) é mais moderno que Baudelaire, que (com sua urbanidade) é mais moderno que Rimbaud. Mas num certo sentido muito preciso, o modernismo, ou a modernidade contemporânea, em poesia, começa com Poe (mas não só: ele é o inventor do conto policial, um dos gêneros modernos por excelência).

Uma das marcas principais da modernidade poética é que, com o fim das formas fixas, a poeticidade de um texto deixa de ser definida a priori. Ninguém duvidaria de que um soneto é um poema. Mas o que dizer das digressões em longas frases não-metrificadas de um Withman? A arte moderna não pode mais ser simplesmente frequentada. Ela pede uma bula.

O fenômeno é, portanto, universal. Na prosa, Joyce fornece ao Ulysses uma tabela em que sintetiza os capítulos, aponta seus estilos e faz uma relação com passagens da Odisseia. Eliot acrescenta notas a The waste land. Pound faz metalinguagem de vários modos nos Cantos, com passagens que parafraseiam ou traduzem outras passagens. E Poe escreve, de modo inaugural e magistral, A filosofia da composição, a fim de detalhar a forma como construiu seu poema mais justamente famoso, O corvo (ambos naturalmente neste volume).

Pois a modernidade de Poe não se limita ao uso da metalinguagem. Ela implica – e se intensifica – na própria matéria do poema. Assim, o poema mais “romântico” da história é, na verdade, o menos romântico da literatura. Pois fruto, não da alma sensível do poeta, mas do controle das variáveis do poema. Sua construção começa pela escolha da letra ô, por ser a mais grave, não pela gravidade da dor do personagem. E foi num jogo construtivo de círculos concêntricos a partir do ô que Poe chegaria às demais variáveis do poema, formais, semânticas e narrativas. O corvo, por exemplo, foi primeiro pensado como um papagaio, pois Poe precisava de um ser falante, a fim de concretizar para o personagem a gravidade sonora do ô (que levou à gravidade ominosa da palavra-estribilho nevermore ), sem poder, porém, introduzir outra pessoa, para sustentar a programada solidão extrema da cena.

Na síntese de Baudelaire no “Posfácio”, “Poe se apresenta sob três aspectos: crítico, poeta e romancista” (os dois primeiros plenamente representados no volume, que conta também, entre outros, com os ensaios “O princípio poético” e “Análise racional do verso”). Ao ser poeta e crítico, na verdade, um poeta-crítico, faz uma poesia crítica, i. é, analiticamente concebida. Se isto não extingue a “inspiração” poética, que jamais existiu, elimina os mitos sobre o trabalho criativo (que existiu sempre) e o sistematiza. Crítica (que tem a mesma raiz de crise), análise, construção, transparência. Numa palavra, modernidade.

 

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