Os Melhores Livros

Os Melhores Livros

Como se sabe que um livro é bom? Imagino que os críticos literários tenham na sua prancheta uma espécie de check list ou um gabarito mental que os permita classificar, hierarquizar e determinar em que lugar da escala entre absolutamente medíocre e um clássico inesquecível, um livro se coloca. Eu não sou crítica e não tenho formação literária nenhuma, por muito tempo meus critérios foram (e, em parte, ainda são) nebulosos até pra mim. Alguns livros me arrebatavam, outros eu apreciava e uns eu colocava na caixa mental: nada se perde, com tudo se aprende, mas com aquele sabor meio ocre na boca.

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Como se sabe que um livro é bom? Imagino que os críticos literários tenham na sua prancheta uma espécie de check list ou um gabarito mental que os permita classificar, hierarquizar e determinar em que lugar da escala entre absolutamente medíocre e um clássico inesquecível, um livro se coloca. Eu não sou crítica e não tenho formação literária nenhuma, por muito tempo meus critérios foram (e, em parte, ainda são) nebulosos até pra mim. Alguns livros me arrebatavam, outros eu apreciava e uns eu colocava na caixa mental: nada se perde, com tudo se aprende, mas com aquele sabor meio ocre na boca.

 Ultimamente ando pensando que os melhores livros, pra mim, não são os que têm melhores histórias, as situações mais insólitas, os diálogos mais consistentes, os finais mais inesperados. Os melhores livros são os que têm os melhores personagens. Aqueles de quem sentimos falta quando o livro acaba. Personagens de quem sentimos saudade. De quem não queremos nos despedir e arrastamos a leitura das últimas páginas como se fosse o último chopp da festa. Aqueles de quem queríamos saber mais, para além da história: que lado da cama dorme? Como toma seu café? O que faria se tivesse um dia ou vinte páginas a mais?

 São esses os livros que me encantam, aqueles cujos personagens permanecem. Como Ripley. Quantas vezes me vi pensando nele, sua vulnerabilidade travestida em frieza e cinismo (ou apenas meu desejo de vê-lo nesse prisma? Nunca tenho certeza). Ou a Marquesa de Merteuil e Valmont, sobre quem tenho tantas versões. Brás Cubas, Iaiá Garcia, Capitu, Bentinho, Marcela e sua doença, eles aparecem aos fins de semana, tomam um café, contam coisinhas miúdas que coleciono nas minhas memórias inventadas. As queridas Lizzie, Emma, Anne, as irmãs Dashwood com suas roupas complicadas e romances diversos, todas inspiradoras. Capitão Rodrigo, tão valente e com tanto a contar. Emma Bovary, Penélope, Catherine, Ana Karenina, todas amantes sob a égide do impossível, íntimas de mim. Jordan – de por quem os sinos dobram – e seu bom combate. Os detetives, todos, especialmente Poirot e Marlowe, o muito que gostaria de vasculhá-los, conhecer segredos e anseios. Gatsby, Don Fabrizio, Don Corleone, aqueles que viram o fim e o ultrapassaram, de uma forma ou de outra.

 Os personagens de Dostoievski e de Viriginia Woolf! Como eles os sabem apresentar e manter-nos presos a eles, desejosos de um vislumbre a mais. Os personagens de Dostoievski sempre me parecem a um passo de um lado sombrio e meio desesperado de minha própria humanidade. Eles conhecem a angústia. Como não enternecer-se com Nastácia Filíppovna?

 Eu leio muitos posts onde as pessoas dizem que não relêem livros ou por já conhecerem o desfecho ou por ansiar por novas emoções, ou ___ou______ ou____ (insira aí seu motivo). Eu releio. Releio muito, porque gosto de reencontrar certos personagens. Porque eles me inspiram ou refletem ou assustam. Porque eles me falam de diversidade e tolerância ou me hipnotizam com sua angústia, crueldade, cinismo. Porque sabem amar. Ou porque não sabem. Porque sinto falta deles, eu releio. São como amigos de quem gosto de saber eventuais notícias ou simplesmente dar uma espiada em fotos antigas e sabê-los de novo.

 Dos bons amigos sentimos saudades, sinto-as eu, igualmente, dos bons livros.

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57 comentários em “Os Melhores LivrosAdicione o seu →

  1. Compartilho dos mesmos pensamentos e posso (igualmente) chegar ao ponto de comparar certos livros e personagens com amigos. Certos livros nos acompanham, acompanham por muito tempo e até mesmo se perpetuam em nossa memória. E as personagens? O quanto é interessante até mesmo nos descobrirmos através delas? Acaba acontecendo, sim.

    Belíssimo post, Luciana. (:

    1. Tem uns livros que gosto tanto, tanto, são tão partes de mim que tenho que me conter pra comprar outro e outro e outro exemplar… fico feliz que tenhas gostado.

  2. Ainda hoje tenho na minha cabeça a introdução de um livro escrito por Soeiro Pereira Gomes os esteiros .

    Cuja a entrada é esta : escrevo este livro para os filhos dos homens que nunca foram meninos

  3. Texto fantástico! Sucinto e interiorizado! Refletiu bastante o interior de quem escreveu, meus parabéns! Em uma época de velocidade e textos "blogatizados" insossos, você se sobressai! o

  4. Uma visão inspiradora a sua, Luciana. Que delícia de artigo, que desbunde de sensibilidade e coerência. É gratificante degustar seu raciocínio em parágrafos diretos, "na lata", práticos e deliciosos. Continue assim e nos brinde cada vez mais com sua vivência literária!

    1. Não tenho dúvidas que uma boa história pode conduzir a um bom livro. Acho, até, que é um excelente critério. Mas o meu (atual, pois mudo sempre de ideia) é pelos personagens que mais me cativam…

  5. Também me identifiquei muito com a situação. No meu caso, como gosto de histórias de detetive, tenho muita "saudade" de Sherlock Holmes e Hercule Poirot, por exemplo. Grandes personagens nunca envelhecem, assim como grandes histórias.

  6. Excelente texto. rande contribuição, parabéns, Luciana.

    Me identifico com muita coisa descrita no texto, mas não sigo o mesmo padrão. Nunca reli um livro. Mesmo sabendo o final, consigo reassistir um filme, mas até hoje nunca reli um livro. O único caso é se eu tenha cmeçado uma leitura e largado, aí precisarei reler o começo para entrar novamente na história e no ritmo da obra. Fora isso, nunca reli.

    Ao invés disso, fico fiel ao autor daquela obra. Hoje acompanho fervorosamente cada lançamento do Harlan Coben. Adoro as histórias dele e o humor cínico de seus personagens. Mesmo que pareçam meio sobrehumanos e isso os afaste da realidade um pouco, não me importo; o que quero é o próximo livro para mergulhar no mundo construído pelo autor (principalmente no círculo de Myron Bolitar).

    Outra discussão interessante é a célebre frase "Não julgue um livro pela capa". Como saberemos que uma obra vai nos agradar se não tivermos informações prévias de autor e de background do tema coberto? Acaso? Eu ainda não consegui sair do estigma de julgar o livro pela capa. E muitas vezes não dá certo.

    1. Também sou das fiéis ao autor que me encanta, caro. HCoben, por exemplo, é um dos que devoro. Gerritsen, Machado, Verissimo. Os que amo, quero-os por completo. Mas acontece que, às vezes, cometem a desfeita de morrer e não escrever mais…que fazer? releio, pois.

  7. Oi, Luciana

    O ato de ler envolve dois personagens: o livro e o leitor. Então, reler um livro vai ser sempre ser uma experiência nova. O que está escrito será igual mas o leitor será outro pois o que viveu no intervalo fará com que perceba o que lê de uma forma diferente.

  8. Cara, sobre a questão de reler o livros é mais complicado.. Gostaria de poder reler mas não dá tempo. Tem tantos livros na fila que eu gostaria de ler que fica complicado. Colocar na balança. Mas eu chego lá. 🙂

    1. Entendo. Talvez, por eu ser mais velha, a chance de reler tenha sido maior. Afinal não tínhamos a net para baixar e nem sempre dinheiro ou tempo para comprar novos livros. E eu leio sempre e com uma certa velocidade…daí a possibilidade de reler se estabeleceu e, depois, o gosto por fazê-lo. Hoje, mesmo tendo mais facilidades e muitas novidades á mão, às vezes prefiro voltar a um velho amigo.

  9. Gosto do livro em que os personagens são únicos vide Drizzt Do Urden de RA Salvatore, ou mesmo os personagens de George Martin, ou o pistoleiro de Stephen King, dentre vários outros!!! T_T

  10. Essa relação que estabelecemos com os livros é particularmente saborosa para cada um. A única certeza que tenho é que sem eles não conseguiria viver decentemente.

    Também sinto falta do Capitão Rodrigo, bem como de Diadorim do Grande Sertão e do Delegado Espinosa, toda vez que termino a leitura do Garcia-Roza…sinto falta dele e uma vontade imensa de me mudar pro Bairro Peixoto na vã esperança de encontrá-lo pelas ruas.

    Belíssimo seu texto, bem como sua relação com os livros/personagens. Espero ter o prazer de ler mais coisas…

  11. As particularidades dos personagens é que torna uma história única. Livros bons são aqueles em que queríamos conversar com aquele personagem para saber mais dele.

  12. ler um livro é viajar sem sair do lugar. Dia desses li A Lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Wall, um livro sensacional. A história é real e é contada a partir dos netsuquês que o autor herda de familiares. É simplesmente uma viajem na Paris de Proust, Monet, Renoir, dos anos 1870, passando por Viena, Odessa, Londres e Japão. Uma história, uma viagem, que nos transporta à vida de personagens reais dentro de um contexto histórico. Isso é o livro. Ele nos faz isso.

    Aliás, está aí uma boa dica de livro: A lebre com olhos de âmbar

    1. Acho importante para aprendermos a "ler", ler também os clássicos. Para mim, são fundamentais por causa do estilo vigoroso. Quem tiver oportunidade, leia Os trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. No site de Machado de Assis, no portal do MEC, tem o livro para baixar, com tradução do Machado de Assis. É um excelente livro. Obra-prima.

      Em Por que ler os clássicos, Italo Calvino, fala sobre as características de uma grande obra literária e nos incita a lermos os grande escritores.

  13. Luciana,

    Não pude deixar passar sua colaboração… Em primeiro por não deixar de lhe desejar toda a sorte e as boas vindas, pois, ainda que mero expectador, esta biblioteca se integra em minha vida de forma que me sinto um pouco dono dela também, que o Exilado me desculpe, mas como fã do trabalho dele, e pelo visto do seu, acabo por me apossar de tais dadivas.

    Em segundo, manifesto-me, pois senti em mim a verdade de suas palavras, de certo que ao longo de minha vida, de poucos anos é verdade, pude absorver um pouco da sabedoria de milênios de outras vidas trazidas a mim pela intensidade de personagens e enredos…

    A saudade deixada por cada livro só é superada pela experiência consumida, ainda que seja por saber que mesmo as piores coisas acabam com a última pagina.

    E digo que mesmo com a facilidade atual no acesso a novos conteúdos devemos ter o cuidado e a maturidade de perceber se de fato absorvemos tudo que se poderia dos livros pelos quais nossas vidas passam. E apreendi que a releitura, ao menos pra mim, não existe, pois a cada nova olhada nas folhas mais amareladas me vejo diferente, nem sempre melhor ou pior, mas diferente, como cada marca nova que as folhas reais de um livro adquirem com o usar.

    Parabéns Luciana.

    1. Olha, que delicada e bonita coincidência, também sinto falta da Morgana…Você já leu as Crônicas de Arthur de Bernard Cornwell? Gosto do derfel…

  14. Luciana, isso foi bonito. Mas pra mim, o que me toma são os narradores e as narrativas. Não sei explicar, talvez seja o poder de construir um mundo inteiro e te fazer habitá-lo. Acho mágico. Bjs.

  15. Verdade! Como é bom ( e triste) aquele sentimento da falta que o término de um livro nos traz, quando nos identificamos de alguma forma com aquele personagem. Já aos que saem da esfera de nossos desejos, ou que simplesmente não nos cativam , a sensação é de puro alívio.

  16. Concordo com vc, Luciana.

    Um livro bom é aquele que tem boas personagens, que te prendem do começo ao fim, mesmo que a história não seja das melhores.

    E aqueles livros que a gente para de ler ou lê mas de vagar para não terminar logo?

  17. Muito bonito ! Para mim além dos personagens, os lugares onde nos transportamos, o aprendizado de coisas que nunca pensamos que ouviriamos falar ou pensaríamos em conhecer ou fazer, é o que traz a magia dos livros para mim! Parabens pelo texto.

  18. Que lindo!!!

    Tem momentos que a gente fica na curiosidade de saber o que vai acontecer, e na tristeza de acabar com aquela história incrível… Muitas vezes releio trechos, e histórias inteiras só para me emocionar outra vez com o personagem, com a lição que a história passa, com a emoção daquele trecho…

  19. Melhor texto desse blog. Incrível. Inspirador. Inteligente. E, guardada as devidas proporções, óbvio! Adoro quando isso acontece: uma pessoa consegue colocar às claras o que está embaixo dos nossos narizes 😉

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