Os Intelectuais e o poder: Dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea – Norberto Bobbio

Os Intelectuais e o poder: Dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea – Norberto Bobbio

Um novo livro de Norberto Bobbio sempre cativa os que apreciam a reflexão política e filosófica sofisticada, as polêmicas apaixonadas e os embates críticos. Mais ainda se traz à tona um tema que, além de frequentar com insistência a produção de Bobbio e de ser mesmo um de seus prediletos, ocupa lugar de destaque na realidade política e cultural do país.
A questão das relações entre os intelectuais e a política – e, mais ainda, entre os intelectuais e o poder – jamais deixei de estar no centro das atenções. Com o que ficar: com a verdade do conhecimento ou com os fatos do poder, com as convicções ou com as responsabilidades, com as dúvidas “pessismistas” da razão crítica ou com as certezas inquebrantáveis e quase sempre “otimistas” da vontade política? Como combinar e equilibrar esses dois tipos de apelos? O que esperar do intelectual que chega ao poder ou dele se aproxima? Uma ruptura com as exigências da política e do governo? Ou o abandono da condição mesma de intelectual?
Nos artigos aqui reunidos, escritos ao longo de mais de quarenta anos de ativa participação no debate político italiano e na análise das vicissitudes da história contemporânea, Bobbio deseja reafirmar uma convicção: entre intelectuais e políticos existe um hiato difícil de superar. Por isso, acredita que não há por que nutrir ilusões a respeito da função imediatamente política dos intelectuais, tanto no que diz respeito às suas denúncias quanto aos seus projetos de sociedade. A “política da cultura” e a “política dos políticos” devem ser mantidas bem separadas, imersas em suas lógicas próprias.
Bobbio acompanha as polêmicas que dividiram os intelectuais em relação a essa delicada questão. Que os opuseram uns aos outros, fazendo que se atirassem em um interminável debate a respeito de si mesmos, de seus “silêncios” ou “traições”, de sua “decadência” ou “morte”, de suas “culpas” ou responsabilidades, de sua crise, de suas atribuições. Recupera e dá novo tratamento aos pontos de vista clássicos com que se buscou equacionar o problema (Julien Benda, Karl Mannheim, Ortega y Gasset, Benedetto Croce, entre outros). Mas não deseja fazer uma sociologia ou uma história dos intelectuais. Sua inteção é propositiva: pretende debruçar-se sobre a ética dos intelectuais, sobre o que deveriam ser ou fazer. Acima de tudo, dedica-se a refutar dois persistentes lugares-comuns: que os intelectuais são uma categoria homogêna, distinta das demais, e que é possível a eles atribuir a mesma função diante do poder, como se fossem, conforme as diversas situações históricas, todos rebeldes ou todos servis. Bobbio persegue as nuanças, os contrastes, a sinuosidade dos posicionamentos.
Os intelectuais e o poder contém, em estado de pureza, todos os traços de pensamento e estilo que fizeram de Bobbio um instigante intérprete de seu tempo. Fornece excelente material para um melhor conhecimento de suas posições. E, sobretudo, possibilita o aprofundamento da discussão de um tema que, no Brasil dos dias correntes, merece ganhar a luz plena do dia. No mínimo, para que passemos em revista a tensa, complexa e dinâmica relação de nossos intelectuais com o poder, debruçando-nos sobre os dilemas, as correções de rota, as transmutações a que se viram levados quando postos em contato com a situação tão bem descrita por Max Weber: “quem se dedica à política, ou seja, ao poder e à força como meios, faz um contrato com as potências diabólicas, e pela sua ação sabe-se não ser certo que o bem só possa vir do bem e o mal possa vir do mal, ocorrendo com frequência exatamente o contrário. Quem deixar de perceber isso é, na realidade, um ingênuo em política.

os_intelectuais_e_o_poder_norberto_bobbioUm novo livro de Norberto Bobbio sempre cativa os que apreciam a reflexão política e filosófica sofisticada, as polêmicas apaixonadas e os embates críticos. Mais ainda se traz à tona um tema que, além de frequentar  com insistência a produção de Bobbio e de ser mesmo um de seus prediletos, ocupa lugar de destaque na realidade política e cultural do país.
A questão das relações entre os intelectuais e a política – e, mais ainda, entre os intelectuais e o poder – jamais deixei de estar no centro das atenções. Com o que ficar: com a verdade do conhecimento ou com os fatos do poder, com as convicções ou com as responsabilidades, com as dúvidas “pessismistas” da razão crítica ou com as certezas inquebrantáveis e quase sempre “otimistas” da vontade política? Como combinar e equilibrar esses dois tipos de apelos? O que esperar do intelectual que chega ao poder ou dele se aproxima? Uma ruptura com as exigências da política e do governo? Ou o abandono da condição mesma de intelectual?
Nos artigos aqui reunidos, escritos ao longo de mais de quarenta anos de ativa participação no debate político italiano e na análise das vicissitudes da história contemporânea, Bobbio deseja reafirmar uma convicção: entre intelectuais e políticos existe um hiato difícil de superar. Por isso, acredita que não há por que nutrir ilusões a respeito da função imediatamente política dos intelectuais, tanto no que diz respeito às suas denúncias quanto aos seus projetos de sociedade. A “política da cultura” e a “política dos políticos” devem ser mantidas bem separadas, imersas em suas lógicas próprias.
Bobbio acompanha as polêmicas que dividiram os intelectuais em relação a essa delicada questão. Que os opuseram uns aos outros, fazendo que se atirassem em um interminável debate a respeito de si mesmos, de seus “silêncios” ou “traições”, de sua “decadência” ou “morte”, de suas “culpas” ou responsabilidades, de sua crise, de suas atribuições. Recupera e dá novo tratamento aos pontos de vista clássicos com que se buscou equacionar o problema (Julien Benda, Karl Mannheim, Ortega y Gasset, Benedetto Croce, entre outros). Mas não deseja fazer uma sociologia ou uma história dos intelectuais. Sua inteção é propositiva: pretende debruçar-se sobre a ética dos intelectuais, sobre o que deveriam ser ou fazer. Acima de tudo, dedica-se a refutar dois persistentes lugares-comuns: que os intelectuais são uma categoria homogêna, distinta das demais, e que é possível a eles atribuir a mesma função diante do poder, como se fossem, conforme as diversas situações históricas, todos rebeldes ou todos servis. Bobbio persegue as nuanças, os contrastes, a sinuosidade dos posicionamentos.
Os intelectuais e o poder contém, em estado de pureza, todos os traços de pensamento e estilo que fizeram de Bobbio um instigante intérprete de seu tempo. Fornece excelente material para um melhor conhecimento de suas posições. E, sobretudo,  possibilita o aprofundamento da discussão de um tema que, no Brasil dos dias correntes, merece ganhar a luz plena do dia. No mínimo, para que passemos em revista a tensa, complexa e dinâmica relação de nossos intelectuais com o poder, debruçando-nos sobre os dilemas, as correções de rota, as transmutações a que se viram levados quando postos em contato com a situação tão bem descrita por Max Weber: “quem se dedica à política, ou seja, ao poder e à força como meios, faz um contrato com as potências diabólicas, e pela sua ação sabe-se não ser certo que o bem só possa vir do bem e o mal possa vir do mal, ocorrendo com frequência exatamente o contrário. Quem deixar de perceber isso é, na realidade, um ingênuo em política.