Blog

Os 13 melhores livros de 2016

Felipe Pena, no Extra

Todo escritor que elabora uma lista precisa fazer ressalvas. A mais óbvia é que todas as listas são injustas. Não importa o critério utilizado, o simples fato de enumerar títulos atribuindo-lhe valor é em si um oximoro. Além disso, como há limite nos espaço do jornal, é impossível não deixar de fora livros importantes.

A maior das ressalvas, no entanto, é fazer ressalvas para se proteger.

Dito isto, vamos à lista, que seguiu três critérios básicos: todos os livros foram publicados em 2016, refletem as idiossincrasias do curador e mereceram minha resenha no jornal ou meu comentário na TV durante o ano.

As obras não estão classificadas em ordem hierárquica.

1 – O marechal de costas (José Luiz Passos) – O livro apresenta duas histórias paralelas. A primeira é a “biografia” do marechal Floriano Peixoto, nosso segundo presidente da república, que retrata o nascimento da suposta democracia brasileira. A segunda história acompanha as manifestações de 2013 até o golpe de 2016, sob o olhar de uma cozinheira que é descendente do marechal. No cruzamento das narrativas, encontramos uma síntese da miséria da classe média brasileira.

2 – O Tribunal da Quinta-feira (Michel Laub) – O livro é um espelho do mundo contemporâneo. Michel Laub manipula a linguagem com destreza e fundamento para narrar uma trama sobre nós mesmos. Sobre como temos a obrigação de nos indignar diante um escândalo que logo dará lugar a outro. Sobre como protestamos contra a corrupção e sonegamos impostos. Sobre como defendemos a ecologia e jogamos o papel de bala no chão. Sobre como somos detestáveis, mesquinhos e hipócritas.

3 – Adolf Hitler, os anos de ascensão (Volker Ullrich) – A primeira parte da biografia escrita pelo historiador alemão mostra detalhes íntimos do ditador. Publicado pela editora Amarilys, o livro narra a história do maior tirano do século XX desde o nascimento até a invasão da Polônia, em 1939. Mas o foco principal é o homem por trás da persona pública, revelando suas mágoas, preconceitos e, principalmente, sua capacidade de manipulação. O ineditismo da obra está justamente na abordagem psíquica, bem diferente das demais biografias sobre Hitler.

4 – A radiografia do golpe (Jessé Souza) – Professor titular da UFF, Jessé apresenta um estudo jurídico e sociológico sobre os fatos que possibilitaram o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Roussef. Com exemplos claros, fugindo da linguagem acadêmica, Jessé defende a tese de que a capacidade crítica dos brasileiros foi colonizada pela manipulação exercida por jornais e emissoras de TV.

5 – Grito (Godofredo de Oliveira Neto) – Dois personagens bem construídos carregam a força dramática da narrativa de Godofredo. Eugênia, uma atriz octogenária aposentada, e Fausto, um menino pobre e negro, cujo grito da irmã gêmea que morreu no parto é onipresente em sua vida. O romance é um palco, a história é dividida em atos e as cenas perturbam a percepção do leitor, ao mesmo tempo em que problematizam questões fundamentais sobre a linguagem.

6 – Rio – Paris – Rio (Luciana Hidalgo) – O romance se passa em 1968, entre as barricadas de Paris e a repressão militar nas ruas do Rio de Janeiro. O título sugere uma ponte aérea semântica entre as cidades e os personagens. Trata-se de uma história de amor, como são quase todas as boas histórias, mas o pano de fundo são as inquietações de uma geração atordoada com os acontecimentos políticos da época. Autora premiada com dois Jabutis, Luciana Hidalgo é uma narradora talentosa, capaz de nos envolver na história e no cenário com a mesma maestria. O leitor termina o livro com a sensação de que a cidade-luz é a sua própria cidade e com a certeza de que as angústias do casal poderiam ser as suas.

7 – A Bíblia do Che (Miguel Santos Neto) – O autor promove o retorno do personagem principal do romance “A primeira mulher”, o professor Carlos Eduardo, para uma missão especial: encontrar uma bíblia com anotações que o guerrilheiro Ernesto Che Guevara teria feito durante sua passagem por Porto Alegre. Miguel apresenta uma narrativa limpa, sem invencionices ou pretensões metalinguísticas. O livro nos prende do começo ao fim com uma trama de mistério e suspense, além de provocar uma boa reflexão sobre o significado da solidão.

8 – Clarice Lispector (todos os contos) – A editora Rocco publicou a coletânea da década. Pela primeira vez, em um único volume, estão reunidos, na íntegra, todos os contos da autora. A edição, em capa dura, também é um primor.

9 – À sombra do poder (Rodrigo de Almeida) – Ex-secretário de imprensa de Dilma Rousseff, o autor narra com detalhes os bastidores da crise que derrubou a presidente. Rodrigo tem o olhar privilegiado de quem está dentro da história. Ou seja, não precisa recorrer a fontes, já que é ele mesmo testemunha do que aconteceu no Palácio do Planalto entre setembro de 2015 e maio de 2016, quando Dilma foi afastada pelo golpe.

10 – Antropofagia, palimpsesto selvagem (Beatriz Azevedo) – O professor Eduardo Viveiros de Castro classifica a obra como a primeira leitura realmente microscópica do Manifesto Antropofágico. O livro de Beatriz já é referência fundamental para qualquer análise sobre Oswald de Andrade e seus pares. É o chamado “close reading”, um estudo destinado a ser clássico.

11 – Sigmund Freud, na sua época e em seu tempo (Elizabeth Roudinesco) – Em um ano em que me dediquei muito a leituras psicanalíticas, acabo destacando não uma obra teórica, mas sim uma nova biografia do pai da psicanálise. O motivo está nas opções escolhidas por Roudinesco para contar a história de Freud, muito mais focada nas relações interpessoais, nos preconceitos de sua época e nas equivocadas interpretações de nosso tempo. A autora rebate acusações e calúnias contra Freud a partir de uma investigação sólida baseada em milhares de documentos e em uma vasta erudição.

12 – Dartana (André Vianco) – O mais importante autor de fantasia do Brasil apresenta um livro de 784 páginas sobre um novo deus que nasce para libertar seu povo da ignorância. O universo criado por Vianco é fascinante, a narrativa flui como cinema e o final é surpreendente. Poucos autores podem se dar ao luxo de escrever 784 páginas e manter a fidelidade dos leitores. Além disso, a temática é atual. Nada mais fantasioso do que a realidade brasileira.

13 – O romance inacabado de Sofia Stern (Ronaldo Wrobel) – Um romance histórico que mantém a temática do autor, focado em sua ascendência judaica. Ronaldo nos leva de volta à Alemanha nazista para contar a história da avó, Sofia, que recebe uma herança e precisa reviver o passado, parcialmente descrito em um diário encontrado pelo neto. O suspense de folhetim, com capítulos curtos e ganchos fortes, mantém o leitor preso à narrativa.

 

* Felipe Pena é jornalista, psicanalista e professor da UFF. Doutor em literatura pela PUC-Rio, é autor de 15 livros, entre eles o romance “O Verso do cartã de embarque”.

(Visited 252 times, 1 visits today)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Powered by: Wordpress