O Mundo no Ano Três Mil – Pedro José Supico de Morais

O Mundo no Ano Três Mil – Pedro José Supico de Morais

Maurício e Marta, um jovem casal parisiense do séc. XIX deixam-se seduzir pelo desejo de viver no futuro e aceitam ser adormecidos por um cientista chamado Sir John Progresso, com o objetivo de serem reanimados, centenas de anos mais tarde; o que efectivamente acontece no ano 3000 com a ajuda do Sr. Manuel Fogaça, um comerciante de antiguidades que explorava as ruínas do mundo antigo à procura de velharias.

Maurício e Marta, um jovem casal parisiense do séc. XIX deixam-se seduzir pelo desejo de viver no futuro e aceitam ser adormecidos por um cientista chamado Sir John Progresso, com o objetivo de serem reanimados, centenas de anos mais tarde; o que efectivamente acontece no ano 3000 com a ajuda do Sr. Manuel Fogaça, um comerciante de antiguidades que explorava as ruínas do mundo antigo à procura de velharias.

Ouvirá o mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu, e pasmará assombrado com aquilo que nunca imaginou.

Publicada pela primeira vez em Portugal em 1895, esta é a primeira obra caracterizada como sendo de ficção científica, escrita em língua portuguesa – um tema literário inédito na época, não só em Portugal mas também no resto do mundo.

Ela não é, contudo uma obra original. Trata-se de uma adaptação literária da obra “Le Monde tel qu’il Sera” do escritor francês Émile Souvestre, escrita em 1846 que foi escrita com a intenção de ser uma obra de carácter moral (isto é, uma apologia de advertência a condutas morais) mas cujos elementos de fantasia e projeções de tecnologias futuras deram-lhe mais notoriedade como sendo uma referência literária sobre um tipo de ficção com premissas sobre as potencialidade de realização e invenção do Homem no campo tecnológico e científico, tornando-a, portando, numa das primeiras obras do mundo a ser reconhecida como uma obra de ficção cientifica. De facto, a obra de Émile Souvestre é uma das principais influências do seu conterrâneo, Júlio Verne, escritor que viria a popularizar e a consagrar a ficção científica como um tema literário legitimo.

Ilustrações de Vidal Júnio

Falamos de “Adaptação” da obra de Émile Souvestre e não de “Tradução” porque de facto esta obra difere em muitos aspectos da obra original, tendo mais elementos de humor e tendo situações e personagens alteradas, omitidas ou acrescentadas para se coadunar à realidade social portuguesa do século XIX.

As primeiras edições da versão portuguesa foram publicadas sem autor declarado (e sem referencia à obra que imitava), sendo as posteriores atribuídas a um tal de Pedro José Supico de Morais. Hoje sabe-se que esse é apenas um pseudónimo do Sebastião José Ribeiro de Sá, um fidalgo, comendador e representante oficial do Estado Português no país e no estrangeiro, que escrevia ocasionalmente artigos para jornais.

Ribeiro de Sá era um entusiasta do desenvolvimento tecnológico, que defendia aliás para o seu país, escrevendo vários artigos sobre o assunto – motivo pelo qual se deve ter interessado na obra de Émile Souvestre. Será, no entanto, preciso fazer-se notar que a obra, no seu todo, apresenta uma imagem relativamente negativa em relação à tecnologia, pois é apresentada em paridade com uma visão grotesca (e cómica) de uma sociedade futura completamente disfuncional. É preciso lembrar que foi na segunda metade do século XIX que, em Portugal, se deu o período o que se convencionou chamar de “Regeneração” – época que deu inicio à revolução industrial portuguesa, que trouxe para Portugal, entre outras coisas, a indústria fabril mecanizada, as vias férreas, o telégrafo e o telefone e, tal como hoje, as novas tecnologias levantavam receios e medos, não porque elas fossem intrinsecamente maléficas, mas pelo que a ambição humana as poderia tornar. Provavelmente, Ribeiro de Sá, apesar de ser um progressista, também teria noção do lado negro ou das consequências nefastas do progresso, daí ter pegado na obra de Émile Souvestre numa tentativa de alertar para essa possibilidade.

Sobre esse aspeto é também preciso fazer notar que a obra de Émile Souvestre é também a primeira obra literária a falar sobre uma sociedade distópica – termo que foi cunhado no século XX, para descrever um tipo de sociedade nefasta. No “Mundo no Ano 3000″ não existem nações; a sociedade é global e regida pela “Republica dos Interesses-Unidos”, cuja capital é a “Cidade Sem Igual” que se situa na “Ilha do Negro Animal”, anteriormente chamada de Taiti. Apesar do mundo beneficiar de um extraordinário desenvolvimento tecnológico – As casas são totalmente automatizas, por exemplo, desde a cozinha até aos quartos; as pessoas movem-se pelo ar com “sapatos a vapor”, ou pelos túneis subterrâneos em transportes tão rápidos que “fazer uma viagem” consiste somente em “partir e chegar” – o mundo é controlado e formatado segundo a vontade autoritária da “Republica dos Interesses-Unidos”. As crianças, por exemplo, não têm pais e são alimentadas por máquinas a vapor até à idade da desmama; altura em que lhes é definido um propósito social e delineado por um plano de estudo na “Universidade das Vocações Unidas” onde só aprendem o prático e o essencial para a realização da sua profissão futura atribuída.

Outro caso: O jornal mais lido da Republica, chamado “A Grande Peta”, é distribuído – tal com o correio – em canalizações por vácuo desde o centro de produção até às mãos dos leitores que podem seleccionar as partes que lhes interessava ler (uma espécie de Internet mecânica operada a vapor), mas o conteúdo apresentado é somente aquele que obedece aos princípios ditados pela “Republica dos Interesses-Unidos” do dinheiro fácil, dos lucros chorudos, da exploração e da especulação financeira.

A obra é assim uma precursora de temáticas que se viram a desenvolver por todo o século XX e que ainda hoje constituem temas de debate.

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