O Diabo é um Homem Bom – Ana Miranda

O Diabo é um Homem Bom – Ana Miranda

O terreno de jogo estendia-se às searas indomáveis de centeio e trigo, atravessadas por labirintos e túneis vegetais, onde jogávamos às escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um saquinho de lã, azul-pálido, azul-bebé, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro nado-morto da minha longa vida de mortos.
O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia. Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.

O Diabo é um Homem Bom – Ana MirandaO terreno de jogo estendia-se às searas indomáveis de centeio e trigo, atravessadas por labirintos e túneis vegetais, onde jogávamos às escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um saquinho de lã, azul-pálido, azul-bebé, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro nado-morto da minha longa vida de mortos.
O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia. Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.