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Miséria da Filosofia – Karl Marx

Assim esta primeira confrontação entre marxismo e anarquismo, à luz das experiências históricas do último século, talvez tenha algo ainda a nos ensinar.

O texto de Marx é um panfleto anti-proudhoniano antes de mais nada, onde a ênfase é ridicularizar e abater o adversário, muito embora ainda hoje não possamos ler serenamente muitas das ‘citações’ de Proudhon que Marx faz no texto, de tanto elas estarem distorcidas, muito embora hoje em dia Proudhon seja um desconhecido para o grande público, de modo que as invectivas de Marx contra ele muitas vezes passam por pura verdade em matéria de conhecimento do proudhonismo, não podemos deixar de ver no texto de Marx, embora subordinada à verve polêmica, uma outra intenção: trata-se aqui, como muitos marxólogos já o apontaram, de uma primeira formulação explícita que Marx faz dos postulados do seu materialismo histórico.

Este é um ponto de importância na releitura de ambos textos nos dias de hoje. Pelo lado de Proudhon, é inegável que tanto nas Contradições quanto em escritos anteriores e posteriores há a afirmação explícita da importância dos fatores econômicos para o entendimento da história das sociedades. Esta importância e esta relação entretanto, tanto para Proudhon quanto para todos os pensadores anarquistas, nunca chega ao nível da determinação dos fatores históricos e sociais pela estrutura econômica das sociedades e da determinação do ritmo da história exclusivamente pelo desenvolvimento das forças produtivas.

Proudhon e muitos outros anarquistas sempre consideraram a história humana como um fato muito complexo e – em última instância – aberto, sobre cujo curso uma variedade de fatores podem influenciar; os fatores econômicos inegavelmente tem seu peso e condicionam uma parcela do desenvolvimento histórico, mas não podem ser tomados como seus motores únicos e exclusivos. Assim como negam a exclusividade ao fator econômico, eles negam-na também a exclusividade de qualquer outro fator (demográfico, psicológico, político, etc.). Para o Marx que ora analisamos entretanto, e reconheçamos que a sua postura sobre este ponto evoluirá, o determinismo econômico da história é absoluto e este ponto informa quase todas as divergências de fundo que ele alimenta contra as posições proudhonianas expostas n’As Contradições. Não nos esqueçamos que, embora Marx tenha posteriormente matizado as suas posições sobre o materialismo histórico, as suas formulações mais ‘duras’ tais como as expostas na Miséria da Filosofia e no Manifesto do Partido Comunista terão uma influência muito grande sobre Lenin e portanto sobre toda a formulação do bolchevismo e das correntes marxistas de maior peso político durante todo o século XX. Assim esta primeira confrontação entre marxismo e anarquismo, à luz das experiências históricas do último século, talvez tenha algo ainda a nos ensinar.

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