George ORWELL e William GIBSON: Dois modelos de poder

George ORWELL e William GIBSON: Dois modelos de poder

George ORWELL e William GIBSON foram autores da ficção científica cujas obras influenciam de forma considerável o cenário social contemporâneo, no que diz respeito às novidades propiciadas pela telemática.

ORWELL inverteu os algarismos do ano no qual estava escrevendo, 1948, e deu nome a sua mais famosa obra, “1984”.

Não o fez com uma significação aparente. Porém, em 1948, nascia Willian GIBSON, autor de uma das mais intrigantes e inquietantes obras da ficção científica contemporânea, “Neuromacer”, lançada em 1984.

 George ORWELL e William GIBSON: Dois modelos de poder William Gibson George Orwell cyberpunk Artigo

George ORWELL e William GIBSON foram autores da ficção científica cujas obras influenciam de forma considerável o cenário social contemporâneo, no que diz respeito às novidades propiciadas pela telemática.

ORWELL inverteu os algarismos do ano no qual estava escrevendo, 1948, e deu nome a sua mais famosa obra, “1984”.

Não o fez com uma significação aparente. Porém, em 1948, nascia Willian GIBSON, autor de uma das mais intrigantes e inquietantes obras da ficção científica contemporânea, “Neuromacer”, lançada em 1984.

O enredo estruturado por GIBSON (hoje roteirista de filmes em Hollywood) tangenciou diversos institutos atualmente estudados por cientistas do mundo todo, principalmente na área da telemática, como a realidade virtual, a compressão de dados, os ambientes de redes corporativas, a colonização espacial, o implante de órgãos mecânicos e o ciberespaço, entre outros.

Esse último era chamado, até então, de “Esfera de dados” nos ambientes acadêmicos e profissionais, mas as idéias e formulações de GIBSON, maior expoente do movimento “ciberpunk”, mudaram tal concepção.

É relativamente comum os pensadores da ficção anteciparem acontecimentos científicos relevantes para a humanidade, como ocorreu com a ida à Lua, com as viagens não tripuladas pelo sistema solar, os mergulhos em grandes profundidades, a capacidade do homem de voar com auxílio de máquinas, a microcirurgia, os transplantes de órgãos, a clonagem, a televisão, o computador, etc. Isso teria, no aspecto coletivo e histórico, alguma justificativa psicanalítica ? Algo como um id remetendo punções evolutivas que um superego social e científico reconhece, algum tempo depois, como válidas ? Ou uma busca de mecanismos que permitam a solução de questões aparentemente insolúveis, como voltar ao passado e resolver problemas com os pais, como em “De volta para o futuro”, mudando o curso da vida ?

ORWELL participou desse processo no que diz respeito à organização social e à estrutura do Estado, e algumas das coisas que ele sugestionou acabaram realmente acontecendo em alguns países do mundo. No momento em que o presente trabalho está sendo confeccionado, está em destaque na mídia mundial a atuação de câmeras de vídeo posicionadas em lugares públicos, flagrando pessoas em atividades suspeitas, auxiliando o Estado no combate ao crime.

Geralmente as matérias jornalísticas que tratam do assunto fazem alusão ao “Grande Irmão” e seu criador.

Este evento, antecipação, não aconteceu com a figura do ciberespaço, que foi criado e constatado sem que tivesse sido imaginado anteriormente pela literatura de ficção.

Quem mais chegou perto dele, em obras passadas, foi o próprio ORWELL (com as teletelas e a forma de comunicação que propiciavam) e GIBSON apresentou a visão contemporânea de maior impacto.

As semelhanças entre os pensadores vão além. Ambos, em suas abordagens sobre o futuro, estenderam suas “visões” ao campo social e político, abordando diretamente estruturas de poder e descrevendo as relações entre os homens, mergulhando numa subjetividade projetada, sem ficarem adstritos às análises tecnológicas.

Acredita-se que, como em outras ocasiões da ficção científica, eles disseram coisas úteis, a serem aproveitadas pela ciência. Porém, verifica-se que antagonizaram expressamente na questão do impacto da tecnologia sobre a sociedade e principalmente quanto à utilização da telemática, sobretudo no que diz respeito ao Estado e ao exercício do poder público. Teria GIBSON, propositadamente, formulado uma antítese à concepção de ORWELL ?

O sucesso de ambas as obras demonstrou o poder de impacto da ficção científica, inclusive junto aos meios científicos e universitários.

Para a realização do estudo, será, então, adotado o seguinte caminho:
1. Uma abordagem sobre a influência da ficção científica no desenvolvimento do homem; 2. Uma análise do movimento que de forma mais atual e real tratou das questões da telemática, o gênero “ciberpunk”; 3. Um comparativo entre GIBSON e ORWELL, principalmente em suas respectivas visões sobre Estado e poder.

1. A ficção científica antecipando o desenvolvimento humano.

Não são poucas as situações nas quais a solução para um problema está contida em uma alternativa teoricamente absurda. Grandes invenções decorreram de erros ou falhas que geraram conclusões totalmente imprevisíveis. Ou decorreram da palpites absurdos, provenientes de alguém que está livre das amarras da racionalidade científica, ou ainda de alguém que possua desprendimento suficiente para formular uma hipótese considerada improvável. Por não estarem obrigados a comprovar a cientificidade e a racionalidade de suas concepções, os escritores de ficção científica têm conseguido apresentar valorosas contribuições à ciência.
Francis HAMIT, que escreveu sobre a realidade virtual e a exploração do espaço cibernético, apresenta em sua obra uma passagem na qual isso fica bem claro, com relação ao potencial dos computadores:

“Na verdade, é um milagre que nós, com nossos processos de pensamento desorganizados e quase sempre caóticos, tenhamos inventado os computadores. É provável que tenha sido porque, no início, tudo o que fazíamos com eles era matemática, a mais exata e inflexível das ciências. Foi necessária muita confiança e imaginação por parte dos primeiros pioneiros para prever outros usos. Essas visões foram possibilitadas, sem dúvida, por escritores de ficção científica que nunca deixaram as limitações de fatos conhecidos atrapalharem uma boa idéia de estória.” (destacado do original).

Obras de ficção científica têm se constituído em fonte inspiradora de notáveis pensadores contemporâneos, fato já reconhecido em elevados ambientes acadêmicos.

Tal se dá com Marvin MINSKI, professor e pesquisador do MIT, um dos maiores nomes mundiais de Inteligência Artificial, conforme relata HAMIT:  “A ficção científica muitas vezes antecipa o fato científico.

Por essa razão, muitos cientistas consideram este gênero literário uma forma de filosofia dos tempos modernos. (É a disciplina intelectual algumas vezes chamada de ‘arte da especulação’.) Alguns cientistas escrevem ficção científica e outros, como Marvin Minski, do MIT, reconhecem o mérito dela na inspiração de suas próprias carreiras. A ficção científica teve um impacto direto sobre o desenvolvimento da realidade virtual, maior até que o impulso dado ao programa espacial”.

O mesmo se diga quanto à telepresença, uma técnica de realidade virtual que já foi aplicada em atividades forenses no Brasil, mediante interrogatórios remotos. Na avaliação do mesmo autor, a literatura de ficção teve um papel importante em seu desenvolvimento, como se vê: “A telepresença será vital não apenas para a exploração planetária remota, mas, mais perto de casa, na Estação Espacial. Willian E. Bradley, do Institute for Defense Analysis, propôs essa aplicação num relatório de janeiro de 1964. Não era, obviamente, uma idéia original. Ela foi proposta pela primeira vez por Robert A. Henlein, num romance de ficção científica, em 1943 (Waldo). No entanto, em 1964, a tecnologia de telepresença estava começando a funcionar”.

É inegável, portanto, a importância do papel antecipador dos textos desse gênero literário. No tocante à telemática, o nome já citado de GIBSON se constitui em uma das mais poderosas referências de antecipação, estando ele ligado à “ética hacker” e ao movimento “cyberpunk”, como descreve HAMIT: “Quando Willian Gibson Escreveu poeticamente sobre o espaço cibernético em Neuromancer e sobre suas conseqüências, ele penetrou na imaginação hacker coletiva. (O território já tinha sido bem preparado por outros autores, como Vernor Vinge e Rudy Rucker, e isso se transformou num sub-gênero conhecido como ‘cyberpunk’,…)”.

O que é e como se caracteriza o sub-gênero “cyberpunk” ?

2. A literatura “cyberpunk”

Como não poderia ser de outra forma, a expressão “Cyberpunk” foi cunhada dentro da ficção científica, por Gardner DOZOIS, com o intuito de identificar a fusão entre a fição científica e a contra-cultura niilista punk dos anos 80. Neuromancer é a obra de maior destaque do movimento, o que não quer dizer que seja a melhor, embora tenha arrebatado os prêmios Nebula, Hugo e Philip K. Dick.

A essência do pensamento que norteou o movimento veio de um certo cansaço diante do cenário então estabelecido, uma “mesmice”, um “lugar comum” identificado por Bruce STERLING, que HAMIT assim relatou: “O escritor cyberpunk Bruce Sterling, no fim dos anos 70, escreveu um artigo que sustentava que a ficção científica tinha caído na rotina. Sterling reclamava que a ficção científica contemporânea não havia acompanhado as mudanças tecnológicas, mas era, na verdade, uma nova apresentação de impérios e sistemas sociais galácticos que refletiam uma sensibilidade americana. Um enfoque em valores da Nova Era que enfatizavam melhor estilo e caracterização em detrimento do conteúdo da ficção científica levaram, na opinião de Sterling, a uma nova perspectiva humanista que não conseguiu lidar com as mudanças da tecnologia de informação e da biotecnologia”.

A partir daí, o movimento se popularizou, angariando, inicialmente, a simpatia dos “hackers” e, posteriormente, de outros ambientes, alcançando rapidamente respeitabilidade literária, como detectou o mesmo autor: “A cultura cyberpunk se tornou popular, não apenas entre os hackers locais e fãs de ficção científica, mas também entre um grande público de produções como Bladerunner e a dramatização feita pela PBS American Playhouse do conto Overdrawn at the Memory Bank, de John Varley. Autores como Bruce Sterling e Rudy Rucker se tornaram populares, por um curto período de tempo, continuam tendo destaque, e vários jornais literários sérios como o The Mississipi Review dedicaram edições inteiras ao novo gênero. Philip K. Dick morreu em 1982, pouco antes do lançamento de Bladeruner, que foi baseado num dos primeiros contos dele”.

O gênero e seu entusiasmo são apontados como um dos mais fortes fatores de impulsão da realidade virtual. Vários de seus romances foram expressamente referidos em documentos de caráter estritamente científico, o que impressionou os escritores, inclusive o próprio GIBSON.

VON BRADENBRUG observa que “o cyberpunk não vê a tecnologia como um meio de opressão ou alienação, mas sim como um meio de descentralização e democratização política”.

Afirma, também, que “todas as posições da contracultura dos anos 60 tiveram que ser invertidas. No início, temia-se um cenário Orwelliano, com os computadores sendo usados como instrumentos de opressão. O contrário aconteceu, com os computadores se tornando instrumentos que promovem democracia”.

É correta essa última afirmativa ?

Inobstante, a alusão ao cenário apresentado por ORWELL está ligada à essência do movimento, o qual constitui a antítese a esse panorama.

Vejamos então:

3. Orwell X Gibson

Muitas são as observações que podem ser feitas sobre o cotejo dessas duas obras. Importa, por ora, identificar duas coisas. Inicialmente, seus pontos de contato. Posteriormente, suas respectivas visões sobre Estado e poder.

ORWELL e GIBSON, nas obras “1984” e “Neuromancer”, respectivamente, visualizaram uma perspectiva de futuro para a humanidade, sob a influência direta dos avanços tecnológicos. Falaram, indiretamente, sobre o comportamento social do homem, sobre formas de governar e administrar, sobre padrões culturais, sobre o trabalho, sobre formas de comunicação e sobre política, além de outras coisas, mas, “enquanto Gibson desenhou uma nova realidade, escrevendo sobre coisas 60 ou 70 anos no futuro, falando de tendências que detectamos hoje, Goerge Orwell, em 1984, criou um mundo imaginário como uma metáfora da opressão pública e uma advertência à humanidade”, como constatou Silvio ALEXANDRE.

“1984” mostra uma personagem central que vive em um ambiente socialmente mediano, com suas necessidades básicas satisfeitas. Tem um emprego bom, sem trabalho braçal, pode comprar algumas coisas e tem acesso a algumas informações. Leva, porém, uma vida entediante e medíocre, demonstrando uma certa indiferença inicial para com os acontecimentos exteriores à sua personalidade, até o momento no qual passa a dar atenção aos seus questionamentos.

“Neuromancer”, embora ambientado num futuro mais distante, tem um panorama individual semelhante, no tocante à personagem central, que também está medianamente posicionada no contexto social e econômico e, da mesma forma, está atingida pela indiferença. As passagens ambientadas em estações orbitais, as imagens do ciberespaço, as descrições da realidade virtual e um rítimo mais acelerado conferem um charme particular ao livro de GIBSON.

Mas, tanto Winston quanto Case, após serem atingidos em cheio pela realidade, acabam rompendo com o indiferença e vivendo interessantes aventuras.

Na obra de ORWELL o Estado é absoluto. Controla os meios de produção, a mídia (onde o herói trabalha), o comportamento privado das pessoas e até mesmo a história. Um partido é o instrumento utilizado para direcionar a movimentação política, e uma figura mitologicamente real, o “Big Brother” , é utilizada para influenciar a subjetividade das pessoas.

ALEXANDRE fez um belo diagnóstico sobre a visão do Estado de ORWELL:

“Ainda que os acontecimentos descritos po Orwell em seu livro não tenham ocorrido nas datas e da maneira previstas, ele materializa as preocupações do mundo com os horrores produzidos sob o totalitarismo, fosse ele o de Hitler ou de Stalin. O romance não pretendeu ser profético, situando-se antes como um estudo da perda da liberdade em suas últimas conseqüências. Mas, o mundo de loucura e opressão mostrado no livro é impressionante na medida em que é perfeitamente possível. O controle da mente humana e da verdade histórica pelo Estado são realidades do século XX”.

Já GIBSON apresenta um Estado (ou vários) bastante fragmentado, com pouco destaque no cenário principal. As coisas não acontecem em função da postura do Estado, como instituição centralizadora, mas em razão do exercício do poder por várias instituições, oficiais ou não, deixando pairar um questionamento: alguém controla tudo isso ? Se em 1984 a imagem do futuro da opressão é “uma bota esmagando um
rosto humano… para sempre”, em Neuromancer ela é de “vários sapatos”, cada um ao seu tempo, sem que se saiba de onde vêm. O rosto, porém, é o mesmo.

A administração dos acontecimento públicos em 1984 segue a trilha totalitarista modelada já no Estado, e “quem controla o passado, controla o futuro, quem controla o presente, controla o passado”. Já em Neuromancer, diante da descoberta de que os veículos de comunicação depositam uma infindável quantidade de informações sobre as pessoas, “as gigantescas corporações multinacionais têm tanto ou mais poder do que os governos, manifestado justamente através do controle do fluxo de informações, produtos e serviços”, como apontou ALEXANDRE. É possível dizer que a principal diferença das obras seja justamente a centralização, de um lado, e a fragmentação, de outro. Um poder excessivamente centralizado e controlador oprime ostensivamente os cidadãos/súditos de 1984. Já em Neuromancer, um poder excessivamente fragmentado, oportunista e furtivo, absolutamente terceirizado, dá aos indivíduos a sensação de que “onde fores eu estarei”, pois tem-se a impressão de que as estruturas de controle, os grupos que gostam de controlar a vida alheia e direcionar os acontecimentos, têm representantes em todos os lugares, da
máfia japonesa ao sindicato dos lixeiros.

Levando em consideração que, segundo CASTORIADIS, “a psicanálise visa a ajudar o indivíduo a tornar-se autônomo, capaz de atividade refletida e deliberação”, e que “queremos a autonomia também e sobretudo para estarmos capacitados e livres para fazer coisas”, a análise de ambas as obras mostra que elas acabam chamando atenção para a desumanização do indivíduo e sua provável sucumbência ante os complexos
mecanismos de exercício de poder e respectivo controle, seja sob um Estado forte, seja sob um ambiente politicamente fracionado em excesso.

Antes de encerrar, vale lembrar a avaliação de CASTORIADIS, quando afirmou que “O’brien atinge seu objetivo quando Winston Smith não somente confessa tudo o que lhe pedem, mas também admite nele mesmo que realmente ama o Big Brother”.

Hugo Cesar Hoeschl


Título Original: Orwell x Gibson – Dois modelos de poder
Referências bibliográficas

ALEXANDRE, Silvio. O Autor e sua obra. Anexo a Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2 ed., 1991. CASTORIADIS, Cornélius. As encruzilhadas do labirinto,III: o mundo fragmentado. São Paulo: Paz e Terra, 1992.HAMIT, Francis. Realidade virtual e a exploração do espaço cibernético. Rio de Janeiro: Berkeley, 1993.LEITE, Eduardo de Oliveira. A monografia jurídica. Porto Alegre: Fabris, 1985.

O autor Hugo Cesar Hoeschl, é Mestre em filosofia e teoria geral do direito, especialista em informática jurídica e doutorando em inteligência artificial.

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1 comentário em “George ORWELL e William GIBSON: Dois modelos de poderAdicione o seu →

  1. Leia Ego e o Id Conferência XIX das Obras Completas e Além do Princípio do Prazer sobre Superego, para não ter que referenciar conceitos de psicanálise de maneira incorreta. Coloca pulsão + um adjetivo que não existe na teoria + superego com função que até Freud desconhece. Se a intenção é pagar de culto, leia o original e cite nas referências, fica menos feio.

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