Falta de ensino de arte nas escolas gera preconceito

Falta de ensino de arte nas escolas gera preconceito

“Vagabundos que querem mamar nas tetas do governo”. Com essas palavras – ou algo do gênero – algumas pessoas têm demonstrado nas redes sociais a sua visão sobre os artistas e o desconhecimento de que a arte é um direito da própria população, previsto em lei. Para a arte-educadora, artista plástica e artesã Gislene Fernandes Pedroso, professora de arte no ensino fundamental 1 e de literatura infantil na pós-graduação em Educação do Instituto Campos Giglio (ICG), essas expressões mostram a consequência da falta do ensino de arte nas escolas. Essa deficiência na educação tem um prazo de cinco anos para ser corrigida, a partir de agora. Desde maio de 2016, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens obrigatórias no currículos dos diversos níveis da educação básica.

Daniela Jacinto, no Jornal Cruzeiro

“Vagabundos que querem mamar nas tetas do governo”. Com essas palavras – ou algo do gênero – algumas pessoas têm demonstrado nas redes sociais a sua visão sobre os artistas e o desconhecimento de que a arte é um direito da própria população, previsto em lei. Para a arte-educadora, artista plástica e artesã Gislene Fernandes Pedroso, professora de arte no ensino fundamental 1 e de literatura infantil na pós-graduação em Educação do Instituto Campos Giglio (ICG), essas expressões mostram a consequência da falta do ensino de arte nas escolas. Essa deficiência na educação tem um prazo de cinco anos para ser corrigida, a partir de agora. Desde maio de 2016, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens obrigatórias no currículos dos diversos níveis da educação básica.

A nova lei, de número 13.278/2016, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, e estabelece um prazo para que as escolas promovam a formação de professores para implantar esses componentes curriculares no ensino infantil, fundamental e médio. Até então, a LDB não especificava todos os tipos de arte a serem abordados. Mesmo assim as escolas já inseriram essa disciplina em 1996.

Gislene, que trabalha com formação de professores, afirma que o preconceito com relação a arte também é reproduzido com relação ao professor de arte e ao ensino de arte na escola e ela acredita que seja pelo mesmo motivo: desconhecimento sobre o que é arte e a sua função na sociedade. As consequências da falta de conhecimento sobre o tema, para Gislene, são desastrosas. Conforme ela, ainda nos dias de hoje o professor de arte que trabalha em algumas escolas, onde principalmente a direção não tem esse conhecimento, tem de enfrentar batalhas em seu dia a dia que vão desde esclarecer que fazer arte não é fazer sujeira até mesmo se impor quando querem passar para o professor de arte a organização de eventos como o Dia da Família. “As aulas de arte têm uma programação, um objetivo a seguir e ser cumprido. Existe conceito e método, não são para organizar eventos”, frisa Gislene.

Tem quem pense ainda que o professor de arte não precisa se preparar para dar suas aulas e que tem menos conhecimento que os demais. “Por mais incrível que isso possa parecer, tem quem ache isso, inclusive entre os próprios professores”.

Gislene lembra que teve um tempo nas escolas em que as aulas de arte se resumiam a copiar da lousa formas geométricas. As cores deveriam ser sempre as propostas pelo professor, e se as medidas das figuras não fossem exatamente o que estava pedindo no exercício, lá vinha uma canetada vermelha: estava errado.

Com o passar dos anos, veio a contribuição da pesquisadora Ana Mae Barbosa, que trouxe uma nova perspectiva para as aulas de arte-educação no Brasil. A oportunidade de conhecer arte é um dos privilégios da nova geração de estudantes, que também são incentivados a criar. Muitas escolas já implantaram esse ensino e a tendência, com a lei, é que todas sejam assim.

Visão simplista é por desconhecimento do conceito

Tem momentos da época de criança que acabam ficando na memória, seja por serem bons ou ruins, e entre as lembranças da arte-educadora Gislene Fernandes Pedroso estão os desenhos que fazia na aula de Educação Artística, que a professora costumava amassar e jogar no lixo. Isso ocorria, lembra ela, porque sua mão ficava suada e acabava manchando a folha. Por mais caprichado que estivesse, não havia desconto. “Sou insegura até hoje por causa disso e nunca acho que o que faço está realmente bom”, diz ela.

Graças a Ana Mae Barbosa, autora de diversos livros e artigos fundamentais para o estudo nesta área, e a principal referência em arte-educação no Brasil nos dias de hoje, a Abordagem Triangular tem ajudado os estudantes do ensino fundamental e médio a conhecerem de fato o que é arte. Gislene falou sobre o tema durante a oficina Arte-Educação: Reflexões sobre a Abordagem Triangular, realizada para educadores na sexta-feira passada, dentro do 1º Encontro de Educadores: Educação Solidária, promovido pelo Instituto Campos Giglio (ICG), de Votorantim.

De acordo com Gislene, Ana Mae revolucionou o ensino da arte no Brasil porque não se conformava com a forma como a arte era ministrada na escola. “A Abordagem Triangular é uma inovação do ensino de arte na escola, que era algo engessado, sem contexto. Por isso é que até hoje tem professores com uma visão simplista da arte”.

A a visão triangular, diz Gislene, é uma referência para trabalhar arte na escola, pois está baseada em três eixos: contextualização histórica; fazer artístico e apreciação artística (saber ler uma obra de arte). “Aula de arte não é apenas colocar os alunos para desenharem, pintarem. Se for assim basta abrir o YouYube e produzir algo, basta fazer um artesanato e pronto. O educador Paulo Freire falava muito sobre fugir de cópias e ter autonomia de criação”, diz.

Na prática, acrescenta Gislene, aula de arte consiste em ampliar o repertório cultural dos alunos, que não vão para a aula vazios. “Então cabe ao educador propor estratégias motivacionais para eles”.

E qual seria a função de promover a arte? Gislene afirma que a arte serve para formar cidadãos críticos, reflexivos e transformadores da sociedade.

Gislene exemplifica que uma aula de arte pode trabalhar diversos temas, inclusive aproveitar o assunto do momento, que é a Olimpíada. “O professor pode sugerir a confecção dos mascotes e contextualizar, explicando a origem de seus nomes, Vinícius e Tom”.

A escolha dos nomes homenageia os músicos Vinícius de Moraes e Tom Jobim, dois expoentes da Bossa Nova. Vinícius é o nome do mascote olímpico, já Tom, do paralímpico.

Outra dica é utilizar a contação de histórias. “Eu toco violão, canto, conto histórias, sempre no início de minhas aulas. Falo de algum livro e eles se interessam em ler. Dessa forma amplio o repertório de leitura deles”.

Entre as diversas obras já trabalhadas na escola, Gislene lembra do tanto que rendeu o livro Macaco danado, de Julia Donaldson e Axel Scheffler. “Percorremos com esse livro as áreas de Ciências, História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa. E os alunos produziram peças de teatro, dança e inclusive livro”, cita.

Gislene também gosta de trabalhar contos da tradição oral. “Ajudam a amplia o repertório porque trazem a cultura dos povos. Tudo o que o professor precisa para se aventurar com os alunos nas aulas de arte é ser criativo e ter estratégias de promoção de encantamento”, comenta.

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