Como construir um universo que não desmorone dois dias depois por Philip K. Dick

Como construir um universo que não desmorone dois dias depois por Philip K. Dick

Em primeiro lugar, antes de começar a aborrecê-lo com as coisas que os escritores de ficção científica normalmente dizem em seus discursos, deixe-me trazer-lhe os cumprimentos oficiais da Disneylândia.

Eu me considero um porta-voz da Disneylândia, porque vivo a poucos quilômetros de lá – e como se isso não fosse suficiente, uma vez eu tive a honra de ser entrevistado pela Paris TV na Disneylândia.
Durante várias semanas após a entrevista, fiquei muito doente e confinado à cama. Acho que foi devido ao girar das xícaras de chá. Elizabeth Antebi, que foi a produtora do filme, me queria girando em uma das xícaras gigantes, enquanto discutia a ascensão do fascismo com Norman Spinrad… um velho amigo meu, que escreve uma excelente ficção científica.

 Como construir um universo que não desmorone dois dias depois por Philip K. Dick Philip K. Dick Artigo

Em primeiro lugar, antes de começar a aborrecê-lo com as coisas que os escritores de ficção científica normalmente dizem em seus discursos, deixe-me trazer-lhe os cumprimentos oficiais da Disneylândia.

Eu me considero um porta-voz da Disneylândia, porque vivo a poucos quilômetros de lá – e como se isso não fosse suficiente, uma vez eu tive a honra de ser entrevistado pela Paris TV na Disneylândia.
Durante várias semanas após a entrevista, fiquei muito doente e confinado à cama. Acho que foi devido ao girar das xícaras de chá. Elizabeth Antebi, que foi a produtora do filme, me queria girando em uma das xícaras gigantes, enquanto discutia a ascensão do fascismo com Norman Spinrad… um velho amigo meu, que escreve uma excelente ficção científica.

Discutimos também Watergate, mas nós fizemos isso no convés do navio pirata do Capitão Gancho.

Criancinhas vestindo chapéus do Mickey Mouse, aqueles chapéus pretos com as orelhas, corriam esbarrando em nós, e Elizabeth fazendo perguntas inesperadas. Norman e eu estávamos preocupados com as crianças e falamos algumas coisas extremamente estúpidas naquele dia.

Hoje porém, terei de aceitar ter plena responsabilidade por aquilo que eu te disser, uma vez que nenhum de vocês está usando chapéus do Mickey, tentando subir em mim e pensando que faço parte de um navio pirata.

Escritores de ficção científica, lamento dizer, não sabem de nada.
Não podemos falar sobre a ciência, porque nosso conhecimento é limitado e não oficial e, geralmente a nossa ficção é terrível.

Alguns anos atrás, nenhuma faculdade ou universidade jamais teria considerado convidar um de nós para falar. Fomos misericordiosamente confinados a revistas populares (pulp), que não impressionavam ninguém.

Naqueles dias, os amigos me perguntavam: “Mas você está escrevendo alguma coisa séria?” o que significa “Você está escrevendo algo diferente de ficção científica?”

Nós desejamos ser aceitos. Nós nos exibimos para sermos notados.
Então, de repente, o mundo acadêmico nos enxergou, e fomos convidados para dar palestras e aparecer em convenções – e imediatamente nós fizemos de nós mesmos idiotas.

O problema é simplesmente esse:
O que um escritor de ficção científica sabe? Em que tópico ele é uma autoridade?

Isso me lembra de uma manchete que apareceu em um jornal da Califórnia, pouco antes de vir para cá. Os cientistas dizem que os ratos não podem ser feitos para parecer com seres humanos. Era um programa de pesquisa financiado pelo governo federal, eu suponho. Basta pensar: alguém neste mundo é uma autoridade sobre o tema se os ratos podem ou não calçar sapatos bicolores, chapéus, camisas listradas e calças Dacron, e se passar como seres humanos.

Bem, eu vou lhe dizer o que me interessa, o que eu considero importante. Eu não posso reivindicar ser uma autoridade em nada, mas posso dizer honestamente que certas questões me fascinam, e que eu escrevo sobre elas o tempo todo.

Os dois temas básicos que me fascinam são “O que é realidade?” e “O que é o ser humano?”

Ao longo dos vinte e sete anos em que tenho publicado romances e histórias que investigo estes dois temas relacionados repetidamente. Eu os considero temas importantes. O que somos? O que é isso que nos rodeia, a que chamamos o não-eu, ou o mundo empírico ou dos fenômenos?

Em 1951, quando vendi minha primeira história, eu não tinha idéia de que essas questões fundamentais iriam ser perseguidas pela ficção científica. Comecei a persegui-los inconscientemente.

Minha primeira história tinha a ver com um cachorro que pensava que o lixeiro que vinha todas as sextas-feiras de manhã estava roubando o valioso alimento que a família tinha estocado cuidadosamente em um recipiente metálico. Todos os dias, os membros da família carregavam sacos de papel cheios de alimentos, colocando-os no recipiente de metal, fechando bem a tampa, e quando o recipiente estava cheio, estas terríveis criaturas assombrosas vinham e roubavam tudo, exceto a lata.

Finalmente, na história, o cão começa a imaginar que algum dia o lixeiro irá comer os habitantes da casa, além de roubar sua comida. Evidentemente, o cão estava errado sobre isso.

Todos nós sabemos que lixeiros não comem pessoas. Mas a extrapolação do cão estava em um sentido lógico – tendo em conta os fatos à sua disposição. A história era sobre um cão de verdade, e eu costumava observá-lo e tentava entrar em sua cabeça e imaginar como ele via o mundo. Eu deduzi que o cão vê o mundo de forma bastante diferente do que eu, ou de qualquer ser humano vê.

E então eu comecei a pensar que talvez cada ser humano viva em um mundo único, um mundo particular, um mundo diferente daqueles habitados por todos os outros seres humanos. E isso me levou a pensar se a realidade difere de pessoa para pessoa, podemos falar da realidade singular, ou não deveríamos estar falando sobre a realidade plural? E se existem realidades plurais, elas seriam um pouco mais verdadeiras (mais real) do que outras? E o mundo de um esquizofrênico? Talvez ele seja tão real quanto o nosso mundo. Sua realidade é tão diferente da nossa que ele não pode explicar a sua para nós, e nós não podemos explicar a nossa para ele.

O problema então é que se os mundos subjetivos são experimentados diferentemente, então ocorre uma ruptura da comunicação… e este é o verdadeiro problema.

Certa vez escrevi uma história (Electric Ant) sobre um homem que foi ferido e levado para um hospital. Quando eles começaram a cirurgia nele, descobriram que ele era um andróide, não um ser humano, mas ele não sabia. Eles tiveram que dar a notícia a ele.

Quase ao mesmo tempo, o Sr. Garson Poole descobriu que a sua realidade consistia de uma fita passando de bobina em bobina em seu peito. Fascinado, ele começou a modificar esta fita e a criar novas realidades com isso. Imediatamente, o seu mundo mudou. Um bando de patos passou voando pela sala. Finalmente ele cortou a fita, e o mundo desapareceu. No entanto, também desapareceu para os outros personagens na história… o que não faz sentido, se você pensar sobre isso. A menos que os outros personagens fossem fruto da sua fantasia na fita perfurada. Eu penso que eles eram.

Meu desejo ao escrever romances e contos era fazer a pergunta “O que é a realidade?”, para algum dia receber uma resposta. Esta era a esperança da maioria dos meus leitores, também.
Anos se passaram.

Eu escrevi mais de trinta livros e mais de uma centena de histórias, e eu ainda não consegui descobrir o que era real.

Um dia, uma universitária do Canadá me pediu para definir a realidade para ela, para um trabalho que estava escrevendo para sua classe de filosofia. Ela queria uma resposta em uma frase.
Eu pensei sobre isso e finalmente eu disse:
“A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece.”
Isso foi em 1972. Desde então eu não tenho sido capaz de definir a realidade mais lucidamente.

Mas o problema é real, não um mero jogo intelectual. Porque hoje nós vivemos em uma sociedade na qual realidades espúrias são fabricadas pela mídia, pelos governos, pelas grandes corporações, por grupos religiosos, grupos políticos – o hardware e eletrônica existem para nos entregar esses pseudo-mundos direto na cabeça do leitor, do telespectador, do ouvinte.

Às vezes, quando vejo minha filha de onze anos assistindo televisão, eu me pergunto o que ela está aprendendo. Um programa de TV produzido para adultos é visto por uma criança pequena.

Metade do que é dito e feito na televisão é provavelmente, incompreendido pela criança. Talvez tudo seja mal compreendido.
A questão é, o quão autêntica é a informação de qualquer forma, mesmo se a criança a entendesse corretamente? Qual é a relação entre o que  aparece normalmente na TV com a realidade? E sobre os programas policiais? Os carros perdem controle, batem e pegam fogo. A polícia é sempre boa e sempre vence. Não ignore esse ponto: A polícia sempre ganha.
Que lição é essa? Você não deve lutar contra a autoridade, pois se você fizer isso, você vai perder.

A mensagem aqui é: seja passivo. E coopere. Se o detetive Baretta pede informações, dê a ele essas informações, porque o detetive Baretta é um homem bom e de confiança. Ele ama você, e você deve amá-lo.

Então eu pergunto, na minha escrita, o que é real?

Porque somos incessantemente bombardeados com pseudo-realidades fabricadas por pessoas muito sofisticadas, utilizando mecanismos eletrônicos sofisticados. Eu não desconfio dos seus motivos, eu desconfio de seu poder. Eles têm muito poder. Um poder surpreendente: o de criar universos inteiros, os universos da mente. Disso eu sei. Eu faço a mesma coisa. É o meu trabalho criar universos, como base para um livro após o outro. E eu tenho que construí-los de tal maneira que eles não se desfaçam dois dias depois.
Ou pelo menos é isso que meu editores esperam.

No entanto, vou revelar um segredo a vocês: eu gosto de construir universos que se desfaçam.
Eu gosto de vê-los ruindo, e eu gostaria de ver como os personagens nos livros lidam com este problema.
Eu tenho um amor secreto pelo caos.

Não acredito – e estou falando muito sério quando digo isto – que a ordem e a estabilidade são sempre boas, em uma sociedade ou em um universo. O velho, o fossilizado, deve sempre dar lugar a uma nova vida e do nascimento de coisas novas. Antes das coisas novas poderem nascer, o que é velho deve morrer.
Esta é uma conclusão perigosa, porque nos diz que devemos abrir mão do que nos é familiar.
E isso dói. Mas isso faz parte do roteiro da vida.

A menos que possamos nos adaptar as mudanças psicologicamente, começaremos a morrer por dentro.
O que estou dizendo é que os objetos, os costumes, hábitos e modos de vida devem morrer para que o ser humano autêntico possa viver. E é o ser humano autêntico o que mais importa, o organismo viável, flexível, que pode retroceder, absorver e lidar com o novo.

Claro, eu digo isso porque eu moro perto da Disneylândia, e eles estão sempre adicionando novos passeios e destruindo os antigos. A Disneylândia é um organismo em evolução. Durante anos eles tinham um simulacro do presidente Lincoln, que, como o próprio Lincoln, foi apenas uma forma temporária de matéria e energia para em seguida desaparecer.

O mesmo é verdade para cada um de nós, gostemos ou não.

O pré-socrático Parmênides, filósofo grego ensinou que as únicas coisas que são reais são as coisas que nunca mudam… e o pré-socrático Heráclito, filósofo grego, ensinou que tudo muda. Se você sobrepuser os dois pontos de vista, você tem este resultado: Nada é real.

Há uma outra ideia fascinante junto a essa linha de pensamento: Parmênides poderia nunca ter existido, porque ele envelheceu e morreu, e desapareceu, por isso, de acordo com sua própria filosofia, ele não existiu.

Heráclito estaria certo – não vamos esquecer que, por isso, se Heráclito está certo, Parmênides não existia e, portanto, de acordo com a filosofia de Heráclito, Parmênides estava certo, talvez, desde Parmênides preenchidas as condições, os critérios, por que Heráclito julgava ser real.

Eu digo isso apenas para mostrar que, assim que você começa a perguntar o que é real, em última instância, você logo começará a dizer besteira. Zenão mostrou que o movimento era impossível (na verdade ele só imaginava que ele tinha provado isso, o que faltou foi o que tecnicamente é chamado a “teoria dos limites”). David Hume, o mais cético de todos eles, uma vez comentou que, após uma reunião de cépticos se reuniram para proclamar a veracidade do ceticismo como uma filosofia, todos os membros da reunião, no entanto saíram pela porta e não pela janela. Eu vejo o ponto de Hume.

Era tudo conversa.
Os solenes filósofos não levavam a sério o que eles diziam.

Mas eu considero que a questão da definição do que é real – isto é um assunto sério, mesmo vital. E tem também a definição do homem autêntico. Por causa do bombardeio de pseudo-realidade são produzidos seres humanos inautênticos muito rapidamente, seres humanos espúrios – tão falsos quanto os dados por todos os lados. Meus dois tópicos são realmente um tópico, eles se unem neste momento. Realidades de mentira irão criar seres humanos de mentira. Ou os seres humanos falsos irão gerar realidades falsas e, em seguida, vendê-los a outros seres humanos, transformando-os, eventualmente, em falsificações de si mesmos. Assim, acabamos com os seres humanos a inventar falsas realidades para outros seres humanos falsos. É apenas uma versão muito grande de Disneylândia.

Na minha escrita, fiquei tão interessado em falsificações que finalmente surgiu o conceito de falsificações falsas. Por exemplo, na Disneylândia existem aves falsas que funcionam por motores elétricos que emitem gritos e sons quando você passa por eles. Suponha que uma noite que nós entremos no parque com pássaros reais e substituísse os artificiais por eles. Imagine o horror dos funcionários quando descobrirem a farsa: aves de verdade! E talvez um dia até mesmo hipopótamos e leões de verdade. Consternação. O parque sendo ardilosamente transmutado do irreal para o real por forças sinistras. Por exemplo, suponha que o Matterhom se transforme em uma montanha coberta de neve verdadeira? E se todo o lugar, por um milagre do poder de Deus e sabedoria, foi alterado, num momento, num piscar de olhos, em algo incorruptível?
Eles teriam que fechar as portas.

No Timeu de Platão, Deus não criou o universo, como o Deus cristão o fez. Ele simplesmente o encontrou assim. Um caos total. Deus começa a trabalhar para transformar o caos em ordem. Essa idéia me agrada, e eu a tenho adaptado para caber nas minhas necessidades intelectuais: E se o nosso universo começou como algo não real, uma espécie de ilusão, como ensina a religião hindu, e Deus, cheio de amor e bondade para nós, transmutou-o lentamente, lenta e secretamente, em algo real?

Nós não estaríamos cientes dessa transformação, uma vez que não estavam cientes de que nosso mundo era uma ilusão, em primeiro lugar. Tecnicamente é uma idéia gnóstica. O gnosticismo é uma religião que abraçou os judeus, cristãos e pagãos durante vários séculos. Eu tenho sido acusado de explorar idéias gnósticas.
Eu acho que é verdade. Tempos atrás eu teria sido queimado.

Mas algumas destas idéias me intrigam. Uma vez, quando eu estava pesquisando sobre o gnosticismo na Enciclopédia Britânica, me deparei com a menção de um códice gnóstico chamado o Deus Irreal e os aspectos de seu Universo Inexistente, uma idéia que me levou ao riso desamparado. Que tipo de pessoa iria escrever sobre algo que ela sabe que não existe, e como é possível que algo que não existe tenha aspectos? Mas então eu percebi que eu estava escrevendo sobre esses assuntos por mais de vinte e cinco anos. Acho que há muita margem de manobra no que você pode dizer quando se escreve sobre um tema que não existe.

Um amigo meu uma vez que publicou um livro chamado ‘Snakes of Hawai’ (Cobras do Havaí).
Várias pessoas escreveram-lhe requisitando o livro. Bem, não há cobras no Havaí.
As páginas estavam em branco.

Claro que na ficção científica não há nenhuma pretensão de que os mundos descritos sejam reais. É por isso que chamamos de ficção. O leitor é avisado com antecedência para não acreditar no que ele está prestes a ler. É igualmente verdadeiro que os visitantes da Disneylândia entendem que o Sr. Toad realmente não existe e que os piratas são animados por motores e servo-mecanismos, relés e circuitos eletrônicos.
Portanto, ninguém fica decepcionado.

E ainda assim, a coisa estranha é que, de alguma forma, muito do que aparece sob o título “ficção científica” é verdadeiro. Pode não ser literalmente verdade, eu suponho. Nós realmente não fomos invadido por criaturas de outro sistema estelar, como em ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’. Os produtores do filme nunca pretenderam que nós acreditássemos nisso. Ou não?

A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras.
Se você pode controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que devem usar as palavras. George Orwell deixou isso claro em seu romance “1984”. Mas uma outra maneira de controlar a mente das pessoas é o de controlar as suas percepções. Se você puder levá-los a ver o mundo como você, eles vão pensar como você. Compreensão decorre da percepção. Como você pode fazê-los ver a realidade que você vê? Afinal, é só uma realidade de muitas.

As imagens são um componente básico: fotos. É por isso que o poder da TV para influenciar as mentes dos jovens é tão incrivelmente grande. As palavras e as imagens são sincronizadas. A possibilidade de controle total do espectador existe, especialmente o jovem espectador. ver TV é uma espécie de sono de aprendizagem.

Um eletroencefalograma do cérebro de uma pessoa que assiste a um programa de TV demonstra que, após meia hora, o cérebro entra no estado crepuscular hipnoidal, que emite ondas alfa. Isso ocorre porque há pouco movimento do olho. Além disso, grande parte das informações é gráfica e, portanto, passa para o hemisfério direito do cérebro, ao invés de ser processado pelo lado esquerdo, onde a personalidade consciente está situada.

As experiências recentes indicam que muito do que vemos na tela da TV é recebido em uma base subliminar.
Só imaginamos que nós vemos conscientemente o que está lá. A maior parte das mensagens iludem a nossa atenção, literalmente; após algumas horas assistindo TV, não sabemos o que vimos.

Nossas memórias são falsas, assim como nossas lembranças de sonhos. Os espaços são preenchidos a posteriori e falsificados. Temos participado inadvertidamente na criação de uma realidade falsa, e então nós temos gentilmente alimentados a nós mesmos. Somos coniventes em nossa própria destruição.

E – e faço esta afirmação como um escritor profissional de ficção – produtores, roteiristas e diretores que criam estes mundos audiovisuais não sabem o quanto do seu conteúdo é verdadeiro. Em outras palavras, eles são vítimas, junto conosco, de seu próprio produto. Falando por mim, eu não sei o quanto a minha escrita é verdade, ou que partes (se houver) são verdadeiras. Esta é uma situação potencialmente letal.

A ficção imita a verdade, e a verdade imita a ficção.

Temos uma sobreposição perigosa. E provavelmente isso não é deliberado. Na verdade, isso é parte do problema. Você não pode legislar sobre um autor em sua correta rotulagem dos produtos, como uma lata de doce, cujos ingredientes são listados no rótulo… você não pode obrigá-lo a declarar que parte é verdade e o que não é – se ele próprio não sabe.

É uma experiência assustadora escrever algo acreditando que é pura ficção, e saber mais tarde – talvez anos depois – que é verdade. Gostaria de lhe dar um exemplo. É algo que eu não entendo. Talvez você pode vir com uma teoria. – eu não posso.

Em 1970 eu escrevi um romance chamado ‘Flow My Tears, the policeman said’. Um dos personagens é uma menina de dezenove anos de idade chamado Kathy. O nome do marido dela é Jack. Kathy parece trabalhar no mundo do crime; Mais tarde, ao continuarmos a leitura, descobrimos que na verdade ela está trabalhando para a polícia. Ela tem um relacionamento com um inspetor de polícia. O personagem é pura ficção.

Ou pelo menos eu achava que era.

De qualquer forma, no Natal de 1970, eu conheci uma menina chamada Kathy – isso foi depois que terminei a o livro, entenda. Ela tinha dezenove anos. Seu namorado se chamava Jack. Logo soube que Kathy era traficante de drogas. Passei  meses tentando levá-la a desistir de traficar drogas. Então, uma noite quando estávamos entrando juntos em um restaurante, Kathy parou e disse: “Eu não posso entrar”. Sentado no restaurante, estava um inspetor de polícia a quem eu conhecia. “Eu tenho que dizer a verdade”, disse Kathy. “Eu tenho um relacionamento com ele.”

Certamente, estas são coincidências estranhas.

Talvez eu tenha premonições.

Mas o mistério se torna ainda mais intrigante, e o que vem em seguida me deixou perplexo.

Em 1974, meu livro ‘Flow my tears, the policeman said’ foi publicado pela Doubleday.
Uma tarde, eu estava conversando com meu pastor – eu sou anglicano – e aconteceu de eu falar com ele uma importante cena perto do final do livro em que o personagem Felix Buckman encontra um estranho em um posto de gasolina 24 horas e eles começam a conversar. Como eu descrevi a cena em detalhes , o pastor ficou cada vez mais agitado, até que, no final da minha história, ele disse: “Isso é uma cena do livro de Atos dos Apóstolos (Atos dos Apóstolos, cap 8, versículos 26-40), da Bíblia!” Em Atos, a pessoa que atende o negro na estrada se chama Felipe – o seu nome. Padre Rasch ficou tão chateado pela semelhança que não conseguiu localizar a cena em sua Bíblia. “Leia Atos dos Apóstolos,” ele me instruiu. “E você vai concordar. É a mesma coisa até em detalhes específicos.”

Fui para casa e li a cena descrita em Atos dos Apóstolos. Sim, Padre Rasch estava certo: a cena em meu romance foi um remake óbvio da cena bíblica… e eu nunca tinha lido Atos, devo admitir. Mas novamente o quebra-cabeça se tornou mais profundo.

Em Atos, o oficial romano que prende e interroga São Paulo se chama Felix – o mesmo nome do meu personagem. E meu personagem Felix Buckman é da polícia. Há uma conversa, em meu romance, que se assemelha muito a uma conversa entre Felix e São Paulo.

O personagem principal do meu romance se chama Jason. Olhei a Bíblia para ver se alguém chamado Jason aparece. Eu não conseguia lembrar de nenhum. Bem, um homem chamado Jason aparece apenas uma única vez na Bíblia. É no livro de Atos dos Apóstolos. E, como se a me atormentar ainda mais com as coincidências, no meu romance Jason está fugindo das autoridades e se refugia na casa de uma pessoa – e no livro de Atos dos Apóstolos um homem chamado Jason dá refugio a um fugitivo da lei em sua casa – uma inversão exata do situação em meu romance, como se o Espírito misterioso responsável por tudo isso estivesse rindo da coisa toda.

Felix, Jason, e a reunião na estrada com o homem negro que é um completo estranho.

No livro de Atos dos Apóstolos, o discípulo Felipe batiza o homem negro, que depois vai embora em regozijo. No meu romance, Felix Buckman recebe ajuda de um estranho. Sua irmã acaba de morrer e ele está desmoronando psicologicamente. O negro ajuda Buckman e ele, embora não vá embora em regozijo, pelo menos, parou de chorar. Buckman vai para casa, lamentando a morte de sua irmã, e teve de chegar a alguém, qualquer um, mesmo um desconhecido total. É um encontro entre dois estranhos na estrada  – e esse encontro muda a vida de um deles – tanto em meu romance e quanto em Atos dos Apóstolos. E um truque final do Espírito misterioso: o nome Felix é a palavra latina para “feliz”. Que eu não sabia quando eu escrevi o romance.

Um estudo cuidadoso do meu romance mostra que, por razões que não consigo nem começar a explicar, eu tinha conseguido recontar vários incidentes de base a partir de um determinado livro da Bíblia, e ainda dado os nomes certos. Como eu poderia explicar isso? Por quatro anos eu tentei encontrar uma teoria e não consegui. Duvido que consiga algum dia.

Mas o mistério não tinha terminado ali, como eu tinha imaginado. Dois meses atrás eu estava indo até a caixa de correio à para colocar uma carta, e também para apreciar a vista da Igreja de Saint Joseph, que fica em frente do meu prédio. Notei um homem suspeito perto de um carro estacionado. Parecia que ele estava tentando roubar o carro, ou talvez roubar algo de dentro dele; quando voltei o homem se escondeu atrás de uma árvore. Num impulso eu fui até ele e perguntei: “Aconteceu alguma coisa?”
“Eu estou sem gasolina”, disse o homem. “E eu não tenho dinheiro.”

Incrivelmente, porque eu nunca fiz isso antes, peguei a minha carteira, e lhe entreguei todo o dinheiro. Ele então apertou minha mão e perguntou onde eu morava, para que pudesse me pagar mais tarde. Voltei para meu apartamento, e então eu percebi que o dinheiro não lhe adiantaria nada, pois não havia nenhum posto de gasolina por perto. Então voltei, no meu carro. O homem tinha um recipiente no porta-malas do seu carro e fomos juntos, no meu carro a um posto de gasolina 24 horas. Logo estávamos lá, dois estranhos, como a bomba enchendo o recipiente de metal. De repente percebi que esta era a cena em meu romance – o romance escrito oito anos antes. O posto de gasolina 24 horas era exatamente como eu tinha imaginado na minha visão interior, quando eu escrevi a cena – a luz brilhando branco, a bomba- e agora eu percebi algo que eu não tinha notado antes: o estranho que eu estava ajudando era negro. Voltamos para o carro com a gasolina, apertamos as mãos, e depois voltei para o meu prédio. Eu nunca mais o vi. Ele não podia me pagar porque eu não lhe disse meu endereço . Eu estava muito abalado por esta experiência. Eu tinha literalmente vivido uma cena completamente como havia aparecido em meu romance. O que quer dizer, eu tinha vivido uma espécie de réplica da cena descrita em Atos, onde Felipe encontra o homem negro na estrada.

O que poderia explicar tudo isso?

A resposta a que cheguei pode não ser correta, mas é a única resposta que eu tenho.

Tem a ver com o tempo. Minha teoria é a seguinte: em certo sentido, o tempo não é real. Ou talvez seja real, mas não sentimos que seja ou imaginamos que seja. Eu tinha a certeza esmagadora (e ainda tenho) de que, apesar de todas as mudanças que vemos, existe um panorama específico e permanente subjacente ao mundo em mudança, e que este é o da Bíblia;  especificamente, é o período imediatamente após a morte e ressurreição de Cristo. Ou, em outras palavras, é o período do Livro de Atos dos Apóstolos.

Parmênides estaria orgulhoso de mim.

Ele olhava para um mundo em constante mudança e declarou que por baixo dele está o eterno, o imutável, o absolutamente real. Mas como foi que isso aconteceu? Se o tempo real é por volta de S0 DC, então porque vemos 1978 DC? E se estamos realmente vivendo no Império Romano, em algum lugar na Síria, por que vemos os Estados Unidos?

Durante a Idade Média, surgiu uma teoria curiosa. É a teoria de que o Mal Supremo – Satã – é o “macaco de Deus”. Que ele cria falsas imitações da criação, de criação autêntica de Deus, e, em seguida, interpolá-los com a criação autêntica. Será que esta estranha teoria ajuda a explicar a minha experiência? Será que devemos acreditar que estamos sendo enganados, que não é 1978 mas 50 DC e Satanás criou uma realidade falsa para definhar a nossa fé no retorno de Cristo?

Posso me imaginar sendo examinado por um psiquiatra. O psiquiatra diz: “Em que ano você está?” E eu respondo 50 DC. O psiquiatra pisca os olhos e em seguida, pergunta: “E onde você está?” Eu respondo, “na Judéia.” “Onde diabos é isso?” pergunta o psiquiatra. “É parte do Império Romano”, eu teria de responder. “Você sabe quem é o presidente?” o psiquiatra poderia perguntar, e eu respondia: “Felix”. “Você está certo disso?” o psiquiatra poderia perguntar, entretanto, daria um sinal secreto para dois assistentes grandalhões. “Sim”, eu respondo. “A menos que Felix tenha sido substituído por Festus. Você sabe, São Paulo foi preso por Felix… – “Quem lhe disse isso?” “o psiquiatra iria me interromper irritado, e eu responderia: “O Espírito Santo” . E depois eu estaria na sala branca, olhando para fora e sabendo exatamente como fui parar ali.

Tudo na conversa seria verdade, em certo sentido, embora não seja palpável ou verdadeiro em outro.

Sei perfeitamente que a data é 1978, e que Jimmy Carter é o presidente e que eu vivo em Santa Ana, Califórnia, nos Estados Unidos. Eu até sei como ir do meu apartamento para a Disneylândia, um fato que eu não consigo esquecer. E certamente não existia Disneylândia no tempo de São Paulo.

Então, se eu me obrigar a ser muito racional e razoável, e todas as outras coisas boas, devo admitir que a existência de Disneylândia (que eu sei que é real) prova que não estamos vivendo na Judéia em 50 DC. A idéia de São Paulo girando nas xícaras gigantes enquanto escrevia a Primeira Carta aos Coríntios, como um documentário para a TV Paris sob uma lente teleobjetiva – simplesmente não pode existir.

São Paulo nunca chegaria perto da Disneylândia. Apenas as crianças, turistas e visitantes e altos funcionários soviéticos vão para a Disneylândia.
Santos não.

Mas de alguma forma o material bíblico infiltrou-se no meu inconsciente e penetrou em meu romance, e igualmente verdadeiro, por algum motivo, em 1978, reviveu uma cena que descrevi nos idos de 1970.

O que estou dizendo é o seguinte: Não há provas internas em pelo menos um dos meus romances que uma outra realidade imutável, exatamente como Parmênides e Platão suspeitavam, subjaz ao mundo dos fenômenos, visível das mudanças, e de alguma forma, de alguma maneira, talvez para nossa surpresa, nós podemos atravessá-la. Ou melhor, um espírito misterioso pode colocar-nos em contato com ela, se quiser.

O tempo passa, milhares de anos passam, mas no mesmo instante em que vemos este mundo contemporâneo, o mundo antigo, o mundo da Bíblia, se esconde sob ele, está lá e ainda é real.

Eternamente assim.

Devo continuar o resto desta história peculiar?

Vou fazê-lo, depois de já ter ido tão longe.

Meu livro ‘Flow My Tears’ foi publicado em fevereiro de 1974. Uma semana depois que foi lançado, eu tive dois dentes do siso removido sob sódio pentotal. Mais tarde, naquele mesmo dia, eu tive uma dor intensa. Minha esposa ligou para o cirurgião e ele ligou para uma farmácia. Meia hora depois, bateram na minha porta: o entregador da farmácia com a medicação para dor. Embora eu estivesse sangrando, doente e fraco, eu senti a necessidade de atender a porta.

Quando eu abri a porta, me vi diante de uma jovem que usava um colar de ouro brilhando no centro da qual havia um peixe de ouro reluzente. Por alguma razão fui hipnotizado pelo brilhante peixe dourado; eu esqueci a minha dor, esqueci a medicação, esqueci o motivo da garota estar ali.
Eu só mantive o olhar no peixe.

“O que significa isso?” Perguntei a ela.

A menina tocou o peixe dourado brilhando com a mão e disse: “Este é um sinal usado pelos primeiros cristãos.” Ela então me deu o pacote de medicação.

Naquele instante, enquanto eu olhava para o sinal de peixes brilhantes e ouvi suas palavras, de repente experimentei o que eu aprendi mais tarde que é chamado de anamnese – uma palavra grega que significa, literalmente, “perda do esquecimento.” Lembrei-me quem eu era e onde estava. Num instante, num piscar de olhos, tudo voltou para mim. E não só eu podia lembrar, mas eu podia vê-lo. A menina era um cristão secreto e eu também. Nós vivemos com medo de sermos descobertos pelos romanos. Comunicávamos-nos com sinais enigmáticos.

Por um curto período de tempo, tão difícil de acreditar ou explicar, eu tive, aparecendo e desaparecendo, uma visão de uma prisão de negros e os contornos da odiosa Roma. Mas, muito mais importante, me lembrei de Jesus, que tinha acabado de estar com a gente, e tinha, temporariamente, ido embora, e que muito em breve retornaria. Minha emoção foi de alegria. Nós estávamos secretamente nos preparando para recebê-lo de volta. Não demoraria; e os romanos não sabiam. Eles pensavam que ele estava morto, morto para sempre. Esse era o nosso grande segredo, o motivo de nossa alegria.
Apesar de todas as aparências, Cristo iria voltar, e o nosso prazer e antecipação eram ilimitados.

Não é estranho que este evento absurdo, esta recuperação da memória perdida, ocorreu apenas uma semana depois de Flow My Tears ser lançado? E é Flow My Tears que contém a reprodução de pessoas e eventos do livro de Atos, o que é definido no momento preciso no tempo – logo após a morte e ressurreição de Jesus – que eu me lembrava, por meio do peixe dourado, como se tivesse acabado de acontecer?

Se você fosse eu, e isso acontecesse com você, tenho certeza de que não deixaria passar em vão. Você iria buscar uma teoria que explicasse. Por mais de quatro anos, eu tenho tentado uma teoria após a outra: o tempo circular, o tempo congelado, o tempo eterno, o que é chamado de “sagrado” em contraste com o “tempo” mundano… Eu não conseguiria enumerar as teorias que eu testei. Uma constante prevalecia, em toda as teorias. O misterioso Espírito Santo, que tem uma relação íntima com Cristo, e que pode residir na mente humana, orientar e informar-lhes, e até mesmo expressar-se através dos seres humanos, mesmo sem o seu conhecimento.

Ao escrever ‘Flow my tears’ em 1970, houve um evento incomum, que não era uma parte do processo de escrita normal. Eu tive um sonho especialmente vívido. E quando eu acordei eu me encontrei sob a compulsão – a necessidade absoluta – de começar o texto do livro exatamente como eu tinha sonhado.
Para isso precisei fazer onze esboços da parte final do manuscrito, até me dar por satisfeito.

Agora vou citar a o texto, como ele apareceu na forma que foi publicada. Veja se esse sonho não te lembra de nada.

O campo, marrom e seco, no verão, onde a personagem viveu quando criança. Ele montou um cavalo, e à sua esquerda vinha um pelotão de cavalos se aproximando lentamente. Sobre os cavalos andavam homens em trajes brilhantes, e cada um usava um capacete que reluziam ao sol. Os solenes cavaleiros passaram por ele e ele viu o rosto de um deles: uma face em mármore antigo, um homem terrivelmente velho com ondulação de cascatas na barba branca. E que nariz forte que ele tinha. Que características nobres. Tão cansado, tão sério, tão além dos homens comuns.

Evidentemente, ele era um rei. Felix Buckman deixou-os passar, ele não falou para eles e eles não disseram nada a ele. Juntos, todos eles iam para a casa de onde tinha vindo. Um homem tinha selado a si mesmo dentro de casa, um homem sozinho, Jason Taverner, no silêncio e no escuro, sem janelas, sozinho a partir de agora por toda a eternidade. Sentado, apenas existindo, inerte. Felix Buckman continuou, em direção ao campo aberto. E então ele ouviu um grito atrás de si. Eles haviam matado Taverner, e, ao vê-los entrar, sentindo-os nas sombras em torno dele, saber o que pretendiam fazer com ele, Taverner tinha gritado.

Dentro de si Felix Buckman sentia tristeza absoluta e total desolação. Mas no sonho ele não voltava, nem olhava para trás. Não havia nada que pudesse ser feito. Ninguém poderia ter impedido a posse de homens com roupas multicoloridas, não poderia ter sido dito que não. De qualquer forma, tudo acabou. Taverner estava morto.

Esta passagem provavelmente não sugere qualquer coisa especial para você, exceto uma legião e um julgamento sobre alguém culpado ou considerado culpado. Não está claro se Taverner de fato cometeu algum crime ou se era apenas suspeito de ter cometido algum crime. Eu tinha a impressão de que ele era culpado, mas era uma tragédia que ele tivesse que ser morto, uma tragédia muito triste.
No romance, esse sonho faz com que Felix Buckman começasse a chorar, e por isso ele procura o homem negro no posto de gasolina 24 horas.

Meses depois o romance foi publicado, eu encontrei na Bíblia a parte de que este sonho se refere.

É Daniel, 7:9
“Tronos foram instalados no local e um antigo tomou o seu lugar. Sua veste era branca como a neve e os cabelos da sua cabeça como lã limpa. Chamas de fogo foram o seu trono, e as rodas em chamas de fogo, um rio que flui de fogo transmitido para fora antes dele. Milhares e milhares o serviam e miríades de miríades a sua presença. O juiz sentou-se, e o livro foi aberto.”

O homem de cabelos brancos, velho aparece novamente em Apocalipse 1:13:
“Eu vi … um semelhante ao Filho do Homem, vestido até aos pés, com um cinto de ouro no peito. Os cabelos de sua cabeça eram brancos como a lã, brancos como a neve, e seus olhos como fogo inflamado; seus pés brilhavam como metal polido refinado numa fornalha, e a sua voz era como o som de muitas águas. ”

E 1:17 então:
“Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele colocou a mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenhais medo. Eu sou o primeiro e o último, e eu sou o único vivo, porque eu estive morto e agora estou vivo para todo o sempre, e tenho as chaves da Morte e do domínio da morte. Anote, portanto, que você já viu, o que é agora, e o que será daqui por diante.’”

E, como João de Patmos, escrevi fielmente o que vi e coloquei no meu romance.
E era verdade, embora na época eu não sabia o que se entende por essa descrição:

… Ele viu o rosto de um: uma face em mármore antigo, um homem terrivelmente velho, com ondulação de cascatas de barba branca. E que nariz forte que ele tinha. Que características nobres. Tão cansado, tão sério, tão além dos homens comuns. Evidentemente, ele era um rei.

Com certeza um rei. Ele é o próprio Cristo retornando para julgar. E foi assim que Ele fez em meu romance: Ele julga o homem nas trevas. O homem selado nas trevas deve ser o príncipe do mal, a força da escuridão. Dê-lhe o nome que quiser, a sua hora tinha chegado. Foi julgado e condenado. Felix Buckman poderia chorar a tristeza dele, mas ele sabia que o veredicto não poderia ser contestado. E assim ele cavalgou, sem virar-se, nem olhar para trás, ouvindo apenas o grito de medo e de derrota: o grito do mal destruído.

Então o meu romance continha material de outras partes da Bíblia, bem como as partes de Atos dos Apóstolos. Decifrado, meu romance conta uma história completamente diferente da história na superfície (que não precisamos falar aqui). A história real é simplesmente isto: o retorno de Cristo, agora rei, em vez de servo sofredor. O juiz, em vez de vítima de julgamento injusto. Tudo é invertido. A mensagem central do meu romance, sem eu saber, era um aviso para os poderosos: Você vai em breve ser julgado e condenado.

A quem, especificamente, ele se refere?

Bem, eu não posso realmente dizer, ou melhor, prefiro não dizer. Eu não tenho este conhecimento, apenas uma intuição. E isso não é suficiente para continuar, por isso vou manter meus pensamentos para mim.

Mas você pode se perguntar o que os acontecimentos políticos tiveram lugar neste país entre fevereiro e agosto de 1974. Pergunte a si mesmo quem foi julgado e condenado e caiu como uma estrela flamejante na ruína e na vergonha. O homem mais poderoso do mundo. E eu me sinto tão triste por ele agora como quando eu tive o sonho. “Esse pobre homem”, eu disse uma vez à minha esposa, com lágrimas nos meus olhos. “Calado na escuridão, tocando piano no meio da noite para si mesmo, sozinho e com medo, sabendo o que está por vir.” Pelo amor de Deus, vamos perdoá-lo, finalmente. Mas o que foi feito para ele e todos os seus homens – “todos os homens do presidente” – tinha de ser feito. Mas ainda há mais, e ele deve sair para o sol novamente: nenhuma criatura, nenhuma pessoa, deve ser fechada para sempre na escuridão, com medo.
Não é humano.

Ainda sobre a época da decisão do Supremo Tribunal sobre as fitas de Nixon, que tiveram de ser entregues ao procurador especial: eu estava comendo num restaurante chinês em Yorba Linda, cidade na Califórnia, onde Nixon foi para a escola – onde ele cresceu, trabalhou em uma mercearia, onde há um parque com o seu nome e, claro, a casa Nixon, de madeira simples e tudo o mais.

No meu biscoito da sorte, eu tirei a sorte que se segue:
“Deeds done in secret have a way of becoming found of” (Coisas feitas em segredo têm seu jeito para se revelar)

Eu enviei o pedaço de papel para a Casa Branca, mencionando que o restaurante chinês estava localizado dentro de uma milha da casa original de Nixon, e eu disse: “Eu acho que um erro foi cometido, por acidente encontrei a sorte (fortune) de Mr. Nixon. Será que ele tem a minha?”

A Casa Branca não respondeu.

Bem, como eu disse anteriormente, um autor de uma obra de ficção supostamente poderia escrever a verdade e não saber disso.

Para citar Xenófanes, outro pré-socrático: Mesmo que um homem fale a mais completa verdade, ainda que ele próprio não o saiba, todas as coisas estão envoltas em aparências (Fragmento 34).

E Heráclito acrescentou a este: É da natureza das coisas o hábito de esconder-se (fragmento 54).

W. S. Gilbert, de Gilbert e Sullivan: As coisas raramente são o que parecem; leite desnatado se disfarça como creme.

O ponto principal de tudo o que é que não podemos confiar em nossos sentidos e, provavelmente, nem mesmo nos nossos raciocínios a priori. Quanto aos nossos sentidos, eu compreendo que as pessoas que tenham sido cegas de nascença e de repente passem a enxergar fiquem espantadas ao descobrir que os objetos pareçam ficar menores à medida que se afastam. Logicamente não há razão para isso. Nós, naturalmente aceitamos isso, porque estamos acostumados. Vemos os objetos se tornam menores, mas sabemos que na realidade, eles continuam do mesmo tamanho. Assim, mesmo a pessoa pragmática e comum dá um certo desconto ao que seus olhos vêem e lhe dizem as orelhas.

Pouco do que Heráclito escreveu sobreviveu, e o que temos é obscuro, mas o fragmento 54 é lúcido e importante: a estrutura latente é mestre da estrutura óbvia. Isto significa que Heráclito acreditava que havia um véu sobre a paisagem verdadeira. Ele também pode ter suspeitado que o tempo de certa forma, não é o que parece, pois no fragmento 52 ele disse: O tempo é uma criança brincando, de uma criança é o reino. Este é realmente enigmático. Mas ele também disse no fragmento 18: Se não se espera, não vai descobrir o inesperado, não é para ser seguido e nenhum caminho leva-nos a ele.

Eduardo Hussey em seu livro erudito ‘Os pré-socráticos’, diz: “Se Heráclito é tão insistente sobre a falta de compreensão demonstrada pela maioria dos homens, parece razoável que ele deveria oferecer mais instruções para penetrar a verdade. A fala sobre o enigma de adivinhação sugere que algum tipo de revelação, além do controle humano, é necessário… A verdadeira sabedoria, como já foi visto, está intimamente associada a Deus, o que sugere ainda que o avanço da sabedoria de um homem o torna uma parte de Deus.”

Esta citação não é de um livro religioso ou de um livro sobre a teologia, é uma análise dos primeiros filósofos por um antigo professor de Filosofia na Universidade de Oxford. Hussey deixa claro que para esses filósofos não havia distinção entre a filosofia e a religião. O primeiro grande salto na teologia grega foi feita por Xenófanes de Cólofon, nascido em meados do século VI A.C.
Xenófanes diz: “Um deus não existe como as criaturas mortais, quer em forma corpórea ou no pensamento de sua mente. O conjunto de tudo que ele vê, tudo ele pensa, tudo que ele ouve fica sempre parado no mesmo lugar, sem pensar que ele deveria se mover agora desta forma, agora dessa outra.”

Este é um conceito sutil e avançado de Deus, evidentemente sem precedentes entre os pensadores gregos. Os argumentos de Parmênides pareciam mostrar que toda a realidade deve realmente ser uma mente. Hussey escreve, com um objeto de pensamento em mente, quando Heráclito diz especificamente que é difícil dizer o quão longe os projetos na mente de Deus distinguem-se da execução em todo o mundo, ou mesmo o quanto a mente de Deus é distinta do mundo.

Anaxágoras sempre me fascinou. Anaxágoras foi conduzido a uma teoria da microestrutura da matéria que se tornou, de forma misteriosa, na razão humana. Anaxágoras acreditava que tudo foi determinado pela mente. Estes não eram pensadores infantis nem primitivos. Eles debateram questões sérias e estudavam os pontos de vista uns dos outros com uma visão hábil. Foi só no tempo de Aristóteles que seus pontos de vista foram reduzidos àquilo que podemos perfeitamente – mas erroneamente – classificar como bruto.

O somatório da teologia pré-socrática e filosofia pode ser declarado assim: O cosmos não é o que parece ser, e que provavelmente é, em seu nível mais profundo, é exatamente isso que o ser humano é em seu nível mais profundo – chame de mente ou alma, é algo unitário, que vive e pensa, e só parece ser plural e material.

Muito dessa visão nos alcança através da doutrina Logos sobre Cristo. O pensador e o pensamento em conjunto. O universo então é pensador e pensamento, e uma vez que somos parte dele, nós, como seres humanos, somos em última análise, pensamentos e pensadores dos pensamentos.

Assim, se Deus pensa em Roma por volta de 50 DC, em seguida Roma por volta de 50 DC existe. O universo não é um relógio de corda e Deus a mão que dá corda. O universo não é um relógio alimentado por bateria, sendo Deus a bateria. Spinoza acreditava que o universo é o corpo de Deus no espaço. Mas muito antes de Spinoza – dois mil anos antes dele – disse Xenófanes: “Ele exerce todas as coisas com o pensamento de sua mente” (Fragmento 25).

Se algum de vocês já leu meu romance Ubik, você sabe que a misteriosa entidade, mente ou força chamado Ubik começa como uma série de comerciais baratos e vulgares e acaba dizendo:

Eu sou Ubik. Antes o universo era eu. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que habitam, eu posso movê-los daqu, para lá. Eles vão para onde eu digo, eles fazem o que eu lhes digo. Eu sou a palavra e meu nome nunca é falado, o nome que ninguém sabe. Eu sou chamado Ubik, mas esse não é o meu nome. Eu sou. Serei sempre.

É óbvio que este e que é Ubik, que diz especificamente que é a palavra que quer dizer, o Logos. Na tradução alemã, há uma das falhas mais maravilhosas do entendimento que eu já vi. Que Deus nos ajude se o homem que traduziu o meu romance Ubik em alemão estava a fazer uma tradução do grego para o alemão do Novo Testamento. Ele fez tudo certo até que ele começou a frase “Eu sou a palavra.”
Aquilo o intrigou. O que pode o autor querer dizer com isso? ele deve ter perguntado a si mesmo, obviamente sem nunca ter vindo através da doutrina do Logos. Então ele fez um bom trabalho de tradução tanto quanto possível. Na edição alemã, a Entidade absoluto que fez o sol, fez o mundo, criou a vida e os lugares que habitamos, diz “Eu sou a marca.”

Tivesse ele traduzido o Evangelho segundo São João, acho que teria escrito: “Quando tudo começou, a marca já existia. A marca habitou com Deus, e o que Deus era, a marca era.”

Parece que eu não só trago cumprimentos da Disneylândia, mas de Mortimer Snerd (famoso boneco de ventrílogo). Esse é o destino de um autor que pretende incluir temas teológicos na sua escrita.
“A marca foi, então, com Deus no início, e por meio dele todas as coisas vieram a ser, nada foi criado sem ele.”

Vamos esperar que Deus tenha senso de humor.
Ou devo dizer, vamos esperar que a marca tenha um senso de humor.

Como eu lhe disse antes, minhas duas preocupações na minha escrita são “o que é realidade” e “o que é o autêntico humano”. Tenho certeza que você pode ver agora, que não tenho sido capaz de responder à primeira pergunta. Tenho uma intuição de que alguma forma o mundo da Bíblia é literalmente uma paisagem real, mas velada, que nunca muda. Está escondido da nossa vista, mas disponível para nós através da revelação. Isso é tudo que eu posso dizer – uma mistura de experiência mística, raciocínio e fé.

Gostaria de dizer algo sobre as características do ser humano autêntico, e nessa busca tive respostas mais plausíveis.

O ser humano autêntico é um de nós que instintivamente sabe o que deveria fazer, e além disso, vai se recusar a fazê-lo. Ele vai se recusar a fazê-lo, mesmo que isso traga conseqüências ruins para ele e para aqueles a quem ele ama. Isso para mim, é o traço finalmente heróico das pessoas comuns, que dizem não ao tirano e calmamente arcam com as conseqüências dessa resistência. Suas ações podem ser pequenas, e quase sempre despercebidas, não são parte da História. Seus nomes não são lembrados, nem estes seres humanos autênticos esperam que seus nomes sejam lembrados. Eu vejo a sua autenticidade de uma forma estranha: não está em sua vontade de realizar grandes feitos heróicos, mas na sua recusa em silêncio.
Em essência, eles não podem ser obrigados a ser o que eles não são.

O poder das realidades espúrias de hoje nos espanca – estes produtos fabricados nunca penetram o coração dos verdadeiros seres humanos. Eu vejo as crianças assistindo TV e no começo eu tenho medo do que está sendo ensinado, e então eu percebo, eles não podem ser afetados ou prejudicados. Eles vêem, escutam, compreendem e, em seguida, onde e quando for necessário, eles rejeitam. Há algo muito poderoso na capacidade de uma criança para enfrentar os fraudulentos. A criança tem o olho mais claro, a mão mais firme. Os vendedores ambulantes estão apelando para a submissão dos pequenos em vão. É verdade que as empresas de cereais podem ser capazes de fazê-los ingerir grandes quantidades de lixo no café da manhã, as cadeias de hambúrguer e cachorro-quente podem vender um número infinito de fast-food para crianças, mas o coração bate profundo com firmeza, inalcançável. Uma criança de hoje pode detectar uma mentira mais rápido que o mais sábio de adultos de duas décadas atrás.

Quando eu quero saber o que é verdadeiro, eu peço opinião aos meus filhos.

Eles não me perguntam, eu os procuro.

Um dia meu filho Christopher, de quatro anos, estava brincando na minha frente e da sua mãe. Nós, os adultos, começamos a discutir a figura de Jesus nos Evangelhos sinópticos. Christopher virou-se para nós por um instante e disse:

“Eu sou um pescador. Eu pesco pelo peixe”.

Ele estava brincando com uma lanterna de metal que alguém tinha me dado, que eu nunca tinha usado… e de repente eu percebi que a lanterna tinha a forma de um peixe. Eu me perguntei que os pensamentos estavam sendo colocados na alma do menino naquele momento – e não foram colocados lá por comerciantes de cereais ou vendedores de doces.

“Eu sou um pescador. Eu pesco pelo peixe”.
Christopher de quatro anos, havia encontrado o sinal que não achei até que tivesse quarenta e cinco anos de idade.

O tempo está se acelerando. E para quê? Talvez tenham nos dito dois mil anos atrás.

Ou talvez não tenha sido realmente há muito tempo, talvez seja uma ilusão que tanto tempo tenha passado.
Talvez tenha sido há uma semana, ou mesmo hoje pela manhã. Talvez o tempo esteja acelerando, talvez, além disso, ele vá se acabar.

E se isso acontecer, os passeios na Disneylândia nunca vão ser os mesmos.

Porque quando o tempo acabar, os pássaros e os hipopótamos e leões e veados na Disneylândia, não serão mais simulações e pela primeira vez, um pássaro de verdade vai cantar.

 Como construir um universo que não desmorone dois dias depois por Philip K. Dick Philip K. Dick Artigo

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