Como a Alemanha lida com “Minha Luta”

Como a Alemanha lida com “Minha Luta”

Manifesto de Hitler ainda está proibido no país, mas cairá em domínio público em 2016. Depois de 70 anos, livro será novamente publicado, mas só em versão comentada – o que muitos consideram uma restrição exagerada.
O livro Minha Luta (Mein Kampf), no qual Adolf Hitler define as bases da ideologia nazista, é banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra. Mas recentemente, quase 90 anos após sua publicação, ele voltou a virar tema de debate no país.

de Heike Mund / Suzanne da DW

Manifesto de Hitler ainda está proibido no país, mas cairá em domínio público em 2016. Depois de 70 anos, livro será novamente publicado, mas só em versão comentada – o que muitos consideram uma restrição exagerada.

O livro Minha Luta (Mein Kampf), no qual Adolf Hitler define as bases da ideologia nazista, é banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra. Mas recentemente, quase 90 anos após sua publicação, ele voltou a virar tema de debate no país.

Por causa da proibição, são poucos os alemães que de fato leram ao menos uma linha do manifesto hitlerista. As opiniões, contudo, divergem quanto à capacidade de o conteúdo de ódio do livro se tornar uma ameaça real.

Na Alemanha, os direitos autorais expiram 70 anos após a morte do autor, e, no caso de Minha Luta, isso acontecerá ao fim de 2015. O livro vai, então, se tornar de “domínio público”, ou seja, em teoria, poderia voltar a ser publicado e distribuído por qualquer pessoa.

No ano passado, porém, em meio ao debate sobre a publicação do livro, o Ministério da Justiça determinou que a distribuição de qualquer versão não comentada de Minha Luta continuaria proibida na Alemanha, mesmo após expirarem os direitos autorais.

Por causa do conteúdo racista e antissemita, a leitura da obra integral se mantém, a partir de 2016, permitida apenas em bibliotecas. Ler e portar a versão não comentada da obra de Hitler em público será proibido mesmo após os direitos autorais expirarem. Segundo o código penal alemão, o ato configura incitação ao racismo.

O Instituto de História Contemporânea (IfZ), baseado em Munique, já anunciou a intenção de lançar a polêmica edição comentada do livro em janeiro de 2016. Ela terá dois volumes e mais de duas mil páginas. Delas, 780 serão do livro original de Hitler, e as demais conterão introdução, índice e mais de cinco mil comentários de estudiosos.

Debate público

Em muitos outros países, não existem preocupações desse tipo. Cópias traduzidas do manifesto hitlerista podem ser obtida em quase todos os idiomas – à revelia da propriedade do estado da Baviera. É possível encontrar Minha Luta até mesmo em livrarias de Israel, tanto em alemão quanto em hebraico.

Hitler Buch Mein Kampf

Apesar dos direitos pertencerem ao estado da Baviera, o livro foi lançado em vários países, como na Albânia

Na Turquia, por exemplo, o livro, classificado como “um clássico da literatura mundial antimarxista”, alcançou o quarto lugar da lista dos mais vendidos no país em 2005.

No Brasil, a última versão foi lançada em 2005 pela editora Centauro, de São Paulo. Com uma tiragem de 2 mil exemplares, ela gerou processos judiciais contra a empresa. Contudo, traduções em português de Minha Luta podem ser encontrados em sebos e sites de revenda na internet.

Na Alemanha, porém, 70 anos após o fim do regime nazista, debates acirrados têm acontecido enquanto o país busca uma maneira aceitável de lidar com o manifesto antissemita de Hitler.

O grupo de teatro Rimini Protokoll, de Berlim, está fazendo uma montagem do livro. A peça, chamada Minha luta – Volumes 1 e 2, estreia em Weimar, no festival Kunstfest, em 3 de setembro. O objetivo é explorar tanto a fascinação que gira em torno do livro proibido quanto o seu verdadeiro conteúdo. A releitura teatral presta uma contribuição ao debate atual sobre a possível volta de Minha Luta ao país.

A alta procura pela obra nazista, porém, não é relacionada com a qualidade de seu conteúdo. Repleta de sentimentalismo, Minha Luta foi descrito pelo diário britânico The Daily Telegraph como uma “verdadeira luta para ler”, “cheio de passagens incoerentes e sem sentido”.

Em entrevista à emissora de rádio alemã Deutschlandradio, o historiador Sven Felix Kellerhof afirmou que a obra tem um “texto péssimo, cheio de erros de gramática e frases ruins.” Mesmo assim, Kellerhof critica a proibição, pois acredita que o livro deveria ser lido para que as pessoas saibam do que se trata.

Até 1939, “Minha Luta” foi o livro mais vendido no país

“Valer-se de direitos autorais para impossibilitar que o livro seja lido por alemães é um absurdo”, diz o analista de mídia Horst Pöttker. “É a mesma coisa que dizer que os leitores na Alemanha são mais influenciáveis que em outros países.”

Pöttker foi diretamente afetado pelas restrições legais. Zeitungszeugen (testemunhas de jornal, em tradução livre), um projeto coeditado por ele, foi banido na Baviera após ter publicado uma seleção de trechos comentados da obra de Hitler.

Pensamento nazista

Mesmo que a publicação do livro continue ilegal, é impossível eliminar sua existência. Aqueles que querem ler o livro de qualquer maneira podem encontrá-lo em feiras de rua, lojas de antiguidades ou na internet. Nas escolas alemãs, alguns trechos são lidos e discutidos em aulas de história e religião.

“Não vejo porque os alemães devem ser privados de acessar esse conhecimento”, critica o sociólogo Horst Pöttker. “O ex-presidente Theodor Heuss já havia dito, em 1950, que o livro deveria ser publicado para que os alemães soubessem como os nazistas pensavam.”

O ensaio antissemita, publicado entre 1925 e 1926, se tornou um best-seller durante a ditadura de Hitler. Minha Luta foi escrito por ele durante o tempo em que passou preso em Munique, o que ocorreu após uma tentativa fracassada de golpe de Estado em novembro de 1923.

O historiador Christian Hartmann, do Instituto de História Contemporânea de Munique, acha difícil que o livro seja capaz de influenciar os leitores atuais. “Tenho muita vergonha que os alemães tenham sido guiados por um livro tão medíocre”, afirma.

O comediante Serdar Somuncu usa o livro para piadas

Hartmann estuda a obra há vários anos. De acordo com o historiador, o livro é importante para compreender a visão de mundo de Adolf Hitler e os fundamentos da ditadura nazista que ele mais tarde instituiria.

Porém, o livro é tão mal escrito que “nenhuma pessoa que lê-lo hoje se tornará nazista apenas por causa disso”, disse Hartmann ao diário alemão Süddeutsche Zeitung.

Comédia hitlerista

O comediante de origem turca Serdar Somuncu, que vive e trabalha na Alemanha, usa o Minha Luta há vários anos em performances em escolas e em clubes de humor. Na Alemanha, recitar o livro publicamente é liberado para fins educacionais.

Assim, Somuncu já fez leituras da obra em mais de mil escolas – sempre vestindo um colete a prova de balas. Com o esquete, o comediante recebeu ameaças de morte de neonazistas, que não gostaram da interpretação feita por um “estrangeiro”: um manifesto antissemita repleto de ódio, com frases confusas escritas por um maluco.

Recentemente, as ameaças se tornaram um problema para Somuncu, que resolveu interromper as leituras em público. O comediante, porém, acabou lançando uma versão em audiolivro.

“Qualquer adolescente pode baixar Minha Luta na internet”, diz Somuncu. “Ele pode ser comprado em todos os outros idiomas. Por que a Alemanha não pode tratar o problema de forma mais confiante? Eu acredito na capacidade dos jovens de fazerem isso”, conclui.

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