Coleção Mar de histórias – Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Paulo Rónai (Orgs.)

Coleção Mar de histórias – Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Paulo Rónai (Orgs.)

A Coleção Mar de Histórias: antologia do conto mundial é composta por 10 volumes independentes que contém, nada menos, que 239 contos, de 192 autores escolhidos entre os melhores de 41 países. A expressão Mar de Histórias foi tirada do título, em sânscrito, Kathâsaritsâgara, de uma antiga coletânea da Índia, do século XI. A sua tradução significa isso mesmo: “mar formado pelos rios de histórias”. A obra foi organizada há mais de quarenta anos por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, dois dos maiores tradutores e estudiosos da Literatura Mundial em todos os tempos e gêneros.

Esta antologia é simultaneamente uma obra didática, recreativa e informativa, e insere-se por isso em nível cultural de grande alcance. Com as narrativas selecionadas de forma criteriosa, pretendeu-se fixar, acima de tudo, os fios que misteriosamente estabelecem contatos entre remotas civilizações carregadas de uma rica herança de tradições, significações múltiplas e sentidos ocultos. E só por isso – se tantos outros pontos de interesse literário e de leitura não tivesse – Mar de histórias seria já obra ímpar do gênero.

Que é, efetivamente, o conto como arte literária? Qual sua origem histórica e cronológica? Quais foram os precursores do conto? A essas perguntas responde a presente antologia, através de cada uma das narrativas escolhidas e com os comentários que as acompanham.

Afinal, no Egito, no fundo de uma pirâmide, já se encerrava o primeiro conto policial – quem poderia saber? Das serenas regiões da Grécia clássica partem os antologistas para as praias da Índia, “talvez o maior berço das criações da imaginação”. Em Roma, o racionalismo não conseguiu apagar o brilho da mitologia. E, no Oriente, quantos contos estavam ocultos nas parábolas de Jesus? E nas lendas hindus e seus avatares? E na China, na Pérsia, na Arábia? E na Europa, com suas duas fontes – o legendário sagrado da Igreja e o anedotário profano da Renascença?

A Coleção Mar de Histórias: antologia do conto mundial é composta por 10 volumes independentes que contém, nada menos, que 239 contos, de 192 autores escolhidos entre os melhores de 41 países. A expressão Mar de Histórias foi tirada do título, em sânscrito, Kathâsaritsâgara, de uma antiga coletânea da Índia, do século XI. A sua tradução significa isso mesmo: “mar formado pelos rios de histórias”. A obra foi organizada há mais de quarenta anos por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, dois dos maiores tradutores e estudiosos da Literatura Mundial em todos os tempos e gêneros.

Esta antologia é simultaneamente uma obra didática, recreativa e informativa, e insere-se por isso em nível cultural de grande alcance. Com as narrativas selecionadas de forma criteriosa, pretendeu-se fixar, acima de tudo, os fios que misteriosamente estabelecem contatos entre remotas civilizações carregadas de uma rica herança de tradições, significações múltiplas e sentidos ocultos. E só por isso – se tantos outros pontos de interesse literário e de leitura não tivesse – Mar de histórias seria já obra ímpar do gênero.

Que é, efetivamente, o conto como arte literária? Qual sua origem histórica e cronológica? Quais foram os precursores do conto? A essas perguntas responde a presente antologia, através de cada uma das narrativas escolhidas e com os comentários que as acompanham.

Afinal, no Egito, no fundo de uma pirâmide, já se encerrava o primeiro conto policial – quem poderia saber? Das serenas regiões da Grécia clássica partem os antologistas para as praias da Índia, “talvez o maior berço das criações da imaginação”. Em Roma, o racionalismo não conseguiu apagar o brilho da mitologia. E, no Oriente, quantos contos estavam ocultos nas parábolas de Jesus? E nas lendas hindus e seus avatares? E na China, na Pérsia, na Arábia? E na Europa, com suas duas fontes – o legendário sagrado da Igreja e o anedotário profano da Renascença?

 

Das-origens-ao-fim-da-Idade-Média-Coleção-Mar-de-histórias-v.1-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEste primeiro volume termina no fim da idade média. É uma longa viagem pelo vasto mar de histórias que a imaginação, o gênio e a vivência foram criando e de onde viria a nascer o conto moderno, no fluxo interminável da criação literária do mundo.

 

 

 

 

 

 


Do-fim-da-Idade-Média-ao-Romantismo-Coleção-Mar-de-histórias-v.2-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEis o segundo volume de Mar de histórias, antologia monumental do conto apresentado em seus espécimes mais significativos traduzidos por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. Numa colaboração iniciada há mais de quarenta anos, eles criaram esta coletânea que reflete a evolução de um gênero literário universal, de uma vitalidade e variedade inesgotáveis.

O primeiro volume acompanhava esse gênero multifacetado desde sua origem até o fim da idade média; este segundo volume apresenta-o durante um período de três séculos, em que assume feições mais definidas, até chegar ao despontar do romantismo.

Vemo-lo florescer na Itália, sob a influência duradoura do Decameron, como passatempo das pequenas cortes principescas, jocosamente assinado por uma plêiade de respeitáveis fidalgos e clérigos, entre eles Firenzuola, Bandello e Straparola, e do famoso Niccolo Machiavelli, autor de O príncipe.

De lá, passa à França, perpetuando a mesma tradição folgazã nas mãos de Bonaventure des Periers, autor de Novas recreações ou colóquios alegres, e nas da rainha Marguerite de Navarra, no seu Heptameron, de glosar intimidades escandalosas da alta sociedade; depois, toma feição moralizadora nos escritos de Charles Sorel e – pasmem! – do marquês de Sade, contemporâneos do bonachão Charles Perrault, cujos contos, narrados aos meninos pela Mamãe Gansa, às vezes fariam empalidecer as manchetes mais sangrentas dos nossos jornais.

Na Espanha, o conto faz-se crítico da sociedade nas imortais novelas, pretensamente “exemplares”, de Cervantes, e nos Sonhos satírico-burlescos de Quevedo. Em Portugal, desce até o povo nas histórias de Trancoso e abastece de exemplos as homilias do padre Manuel Bernardes. Contribui para a sobrevivência do latim em coletâneas engraçadas de eruditos, como o ciceroniano Melander nos seus Joco-Seria. Ao mesmo tempo, põe ao serviço de sua expansão número cada vez maior de línguas vernaculares e infiltra-se em obras supostamente informativas, como a História política do Diabo, do foliculário Daniel Defoe. Chega à depuração máxima da ironia cortante dos “romances” de Voltaire e na sombria dramaticidade das novelas de Kleist. Como o alemão Hebel e o norte-americano Washington Irving, vai buscar seus assuntos nas tradições locais e no tesouro atemporal de contos populares. De volta à França, surpreende-nos com esse esplêndido produto da sensibilidade préromântica a história de “O leproso da cidade de Aosta”, de Xavier de Maistre.

O volume não se limita às letras ocidentais. Das orientais, o Livro do papagaio inspira aos tradutores a naturalização da macama, saborosa mistura de prosa e verso; e uma leitura das narrativas do chinês Pu-Sung-Ling permite-lhes trazer à tona duas belas páginas de misticismo amoroso.

Tantas obras-primas, até agora de difícil acesso, traduzidas para nossa língua com requinte de fidelidade, configuram o que há de melhor na literatura de diversos povos e da história do conto como gênero literário.


 

O-Romantismo-Coleção-Mar-de-histórias-v.3-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEnquanto o volume 1 abrange obras escalonadas por dois milênios e o volume 2 se estende por mais de dois séculos, o atual restringe-se aos produtos de menos de cinquenta anos.

É o mais grosso dos três tomos, pois as narrativas se enquadram mais no gênero da novela do que no do conto. A concisão não é virtude da época. Abre o volume E.T.A. Hoffmann, o primeiro mestre moderno do fantástico e do horrível. Em seus contos, diluem-se as fronteiras entre o mundo real e o imaginário, e reponta o apelo ao exótico. Essa última nota é reforçada em “A cabeça cozida”, do inglês James Morier, imerecidamente esquecido.

E lá vem Stendhal, o tão admirado romancista de O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma, que até nas obras menores se revela um veemente apologista da paixão amorosa. Puchkin, o primeiro dos grandes russos cuja invasão triunfal espanta o Ocidente, pinta um temperamento indômito, desses que o romantismo cultuava.

Balzac, a quem muitos conhecem apenas como romancista, inseriu na sua imensa A comédia humana muitos contos de alto valor; o que figura aqui focaliza sua maior descoberta, a mulher, com uma finura psicológica bem típica do autor de A mulher de trinta anos. Com “Diário de um louco”, de Gogol, entramos noutro território indevassado: o da loucura.

Romancista excepcional, Dickens pôde escrever suas epopeias em prosa graças à popularidade que lhe conquistaram seus contos de estreia, como “Horácio Sparkins”, um bom exemplo do saboroso humor inglês. Dostoiévski também se revelou contista, embora suas primeiras narrativas atestem qualidades bem outras, entre elas a sensibilidade às manifestações da perversão. “A Vênus de Ille”, de Mérimée, de tão perfeito equilíbrio, valerá, talvez, como o protótipo da novela. Nela a descrição exata de costumes locais e o divertido retrato de um tipo cômico são completados por um toque de mistério muito habilmente dosado.

O conto filosófico é representado pelos escritos dos norte-americanos Nathaniel Hawthorne (“Davi Swan”) e Edgar Allan Poe (“O homem da multidão”), nos quais somos impressionados menos pela ação propriamente dita que pela multiplicidade de possíveis desfechos que deixam entrever. Outra novela de Poe, “A carta furtada”, é um dos primeiros espécimes do conto policial, de expansão tão imprevisível, enquanto o francês Gérard de Nerval opera fusão curiosa da literatura de mistério com a história no caso de “A mão encantada”.

Um dos méritos do romantismo consiste em haver despertado o interesse pelos fairy tales do folclore, cujo tom ingênuo foi, com êxito, imitado pelo dinamarquês Andersen, ídolo das crianças até hoje.

À calorosa solidariedade para com os pobres, manifestada num longo relato de pormenores, deve-se a beleza de “Mumu”, de Turguêniev, à qual a observação direta confere valor especial.

Por fim, assinala-se que os romancistas exaltaram alguns tipos. Nenhum deles haverá encontrado tamanho interesse como o bandido, esse mesmo que aparece em “A buena-dicha”, de Alarcón.


 

Do-Romantismo-ao-Realismo-Coleção-Mar-de-histórias-v.4-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEsta viagem pelo mar imenso das histórias mostra a transição entre romantismo e realismo. Ela abre com um leque das variantes românticas mais diversas. Na famosa história de “Mimi Pinson”, eterniza Musset a graciosa figura da grisete parisiense.

Em “Solfieri”, do nosso Álvares de Azevedo, contempla-se um reflexo de byronismo patológico. O romantismo à suíça de Gottfried Keller, em “Espelho, o gatinho”, é, ao mesmo tempo, brincalhão e amaneirado. “Uma cama terrivelmente esquisita”, do inglês Wilkie Collins, dá início, na Europa, à novela policial de tão largo desenvolvimento futuro. “O ninho das águias”, do norueguês Bjørnstjerne Bjørnson, é exemplo de simbolismo moralizador. Contemporâneo deste, o holandês Multatuli verte, em breves alegorias, seu pessimismo e sua revolta contra o destino.

A “Morte heroica”, de Baudelaire, é espécime de “poema em prosa”, gênero de que foi ele um dos criadores. A ficção histórica, tão grata ao romantismo, é exemplificada pela “Última corrida de touros em Salvaterra”, de Rebelo da Silva. Com Bret Harte, apresenta-se o iniciador da literatura do Velho Oeste norte-americano, de que “A sorte do Acampamento Uivante” pode considerar-se o modelo. O espanhol Bécquer oferece amostra, no fantástico “O miserere”, da utilização de um tema popular.

O realismo aponta em “Gitje”, do holandês Busken-Huet, que lembra um quadro do gênero à flamenga; assume aspecto anedótico-familiar em duas narrativas de Daudet; está a serviço de um erotismo algo escandaloso para a época em “O mais belo amor de d. João”, de Barbey d’Aurevilly. “Um tiro no nevoeiro”, obra-prima inesquecível do dinamarquês Jacobsen, analisa com fria objetividade um extremado amor transfeito em ódio. Noutra obra-prima, “Uma alma simples”, de Flaubert, a observação mais minudente alia-se ao estilo artístico mais elaborado.

O tcheco Jan Neruda, em dois contos totalmente diversos, revela-se atraído ora pelo romantismo mais lúgubre, ora pelo realismo mais terra a terra. Uma graciosa anedota, “Os três corvos”, do equatoriano José Antonio Campos, marca o aparecimento da América do Sul neste panorama geral do conto. E, para terminar, um dos grandes moldadores do conto moderno, que lhe deu forma definitiva, Maupassant – de quem figuram aqui três narrativas das mais vigorosas: um episódio da guerra franco-prussiana, um caso de amor de efeito fatal e a história de uma dessas brincadeiras cruéis em que o destino se compraz em envolver e destruir uma vida.


 

O-Realismo-Coleção-Mar-de-histórias-v.5-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiO leitor que fielmente vem acompanhando esta longa viagem através dos mares de histórias já foi avisado de que os rótulos em cada um dos volumes indicam apenas tendências gerais, e de modo algum representam uma classificação rigorosa. É o que se dá com o subtítulo deste volume, o realismo.

O advento dessa corrente nas literaturas menores ocorre algum tempo depois de seu triunfo nas principais; daí o elemento romântico apresentar-se no conto, por exemplo, de Mór Jókai (com quem, aliás, desponta a literatura húngara, de forte veio narrativo). Por outro lado, o realismo ramifica-se em correntes: nada mais diverso de um conto de Flaubert do que um de Tchekov. Afinal, o temperamento do escritor também conta: há os que são românticos de nascimento, conquanto não o sejam de escola e de época; é o caso de um Villiers de l’Isle-Adam.

Caracteriza-se o presente volume pela inclusão de gigantes do conto, os quais, por sua importância, comparecem com várias peças. Assim ocorre com Machado de Assis, grande mesmo entre os maiores. A escolha de suas quatro histórias, longamente discutida pelos organizadores da coletânea, revela a extrema variedade da sua produção novelística. O russo Anton Tchekov, criador do conto aparentemente leve e apenas esboçado, oposto ao máximo ao modelo maupassantiano, tão elaborado, tem conteúdo humano e trágico não menos forte. O inglês Oscar Wilde, que trouxe para o gênero o seu inimitável talento de causeur, figura também com três contos. Das duas faces da arte insuperável do russo Tolstói, a popular e a social, suas duas histórias dão imagem fiel.

Outra característica do livro é a presença de escritores injustamente esquecidos, ou malconhecidos, no Brasil: o russo Vladimir Korolenko, com o memorável “O sonho de Makar”; o alemão Paul Heyse, que exemplifica a novela histórica de sabor germânico tão pronunciado; o dinamarquês Hermann Bang e o flamengo Cyriel Buysse, com seus quadros íntimos de tons baixos; o italiano Antonio Fogazzaro, com o seu estranho conto filosófico, espécime de uma variante modernamente muito explorada. Dois patrícios seus, D’Annunzio e Verga, dão-nos ideia do verismo, esse avatar do realismo italiano.

O leque de países representados amplia-se ainda com o Peru, através duma deliciosa “tradição” de Ricardo Palma, e a Pérsia, com um conto anônimo de inesperada profundeza.

Lembremos, afinal, o conto português, ausente da grande maioria das antologias internacionais. Aqui continua ele a ter o seu justo lugar: com um sugestivo retrato psicológico de Eça de Queirós e uma vigorosa história maupassantiana do Conde de Ficalho.


 

Caminhos-cruzados-Coleção-Mar-de-histórias-v.6-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEsta viagem pelo mar imenso das histórias mostra a transição entre romantismo e realismo. Ela abre com um leque das variantes românticas mais diversas. Na famosa história de “Mimi Pinson”, eterniza Musset a graciosa figura da grisete parisiense.

Em “Solfieri”, do nosso Álvares de Azevedo, contempla-se um reflexo de byronismo patológico. O romantismo à suíça de Gottfried Keller, em “Espelho, o gatinho”, é, ao mesmo tempo, brincalhão e amaneirado. “Uma cama terrivelmente esquisita”, do inglês Wilkie Collins, dá início, na Europa, à novela policial de tão largo desenvolvimento futuro. “O ninho das águias”, do norueguês Bjørnstjerne Bjørnson, é exemplo de simbolismo moralizador. Contemporâneo deste, o holandês Multatuli verte, em breves alegorias, seu pessimismo e sua revolta contra o destino.

A “Morte heroica”, de Baudelaire, é espécime de “poema em prosa”, gênero de que foi ele um dos criadores. A ficção histórica, tão grata ao romantismo, é exemplificada pela “Última corrida de touros em Salvaterra”, de Rebelo da Silva. Com Bret Harte, apresenta-se o iniciador da literatura do Velho Oeste norte-americano, de que “A sorte do Acampamento Uivante” pode considerar-se o modelo. O espanhol Bécquer oferece amostra, no fantástico “O miserere”, da utilização de um tema popular.

O realismo aponta em “Gitje”, do holandês Busken-Huet, que lembra um quadro do gênero à flamenga; assume aspecto anedótico-familiar em duas narrativas de Daudet; está a serviço de um erotismo algo escandaloso para a época em “O mais belo amor de d. João”, de Barbey d’Aurevilly. “Um tiro no nevoeiro”, obra-prima inesquecível do dinamarquês Jacobsen, analisa com fria objetividade um extremado amor transfeito em ódio. Noutra obra-prima, “Uma alma simples”, de Flaubert, a observação mais minudente alia-se ao estilo artístico mais elaborado.

O tcheco Jan Neruda, em dois contos totalmente diversos, revela-se atraído ora pelo romantismo mais lúgubre, ora pelo realismo mais terra a terra. Uma graciosa anedota, “Os três corvos”, do equatoriano José Antonio Campos, marca o aparecimento da América do Sul neste panorama geral do conto. E, para terminar, um dos grandes moldadores do conto moderno, que lhe deu forma definitiva, Maupassant – de quem figuram aqui três narrativas das mais vigorosas: um episódio da guerra franco-prussiana, um caso de amor de efeito fatal e a história de uma dessas brincadeiras cruéis em que o destino se compraz em envolver e destruir uma vida.


 

Fim-de-século-Coleção-Mar-de-histórias-v.7-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEste sétimo volume de Mar de histórias vem ampliar consideravelmente o panorama rasgado pelos seis primeiros. Os volumes anteriores abrangiam contos subordinados às seguintes classificações: das origens ao fim da Idade Média; do fim da Idade Média ao romantismo; o romantismo; o realismo; caminhos cruzados. Este reúne um florilégio do fim do século XIX.

Aqui encontramos a narrativa mais extensa da coleção, “O homem que corrompeu Hadleyburg”, de Mark Twain, em que, para surpresa de muitos, feroz crítico da velha Europa se mostra censor não menos severo da jovem América. Ladeiam-no grandes narradores de literaturas pouco conhecidas entre nós: o húngaro Mikszáth, com “A mosca verde e o esquilo amarelo”, anedota de sabor folclórico, cintilante de humor; o letão Blaumanis, com um episódio trágico-marítimo, “Na sombra da morte”, de tema recorrente ao longo da história literária universal; o polonês Prus, com “O realejo”, idílio urbano contado com serena simplicidade; o judeu polonês Perez, que, em “Neilo no Inferno”, mistura religião e humor numa dosagem toda sua; e Ephtaliotes, que, com uma história de fantasma, abre as portas da literatura neogrega. Há também espécimes do conto poético, como “O mendigo e a donzela orgulhosa”, de Rilke. A Espanha traz dois contistas tão diferentes como Juan Valera, reelaborador de motivos populares (“Quem não te conhecer que te compre” e “O cozinheiro do arcebispo”), e Emilia Pardo Bazán (“Oito nozes”), escritora de um realismo vigoroso. A América Latina é representada pelo nicaraguense Rubén Darío (“As perdas de João Bom” e “O pesadelo de Honório”) e pelo mexicano Vicente Riva Palacio (“As mulas de Sua Excelência”) ao lado de um mestre brasileiro do gênero, Afonso Arinos (“Assombramento”). Três autores até agora desconhecidos no Brasil, o dinamarquês Holger Drachmann (“A história de um lava-praias”) e os suecos Per Hallström (“Amor”) e Hjalmar Söderberg (“A capa de peles”), aproximam-nos da Escandinávia. A França, grande produtora de contistas, desta vez exibe Marcel Schwob (“Lucrécio, poeta”), autor para escritores. Quanto nome novo, quanta paisagem pouco familiar e, sobretudo, quanta história palpitante de vida, capaz de satisfazer o mais exigente amante da leitura!


 

No-limiar-do-século-XX-Coleção-Mar-de-histórias-v.8-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiApós o leitor haver encontrado, nos sete volumes precedentes, diversos espécimes da pré–história do conto moderno, aqui finalmente entra em contato com a safra dos primeiros anos do século XX. Era impossível que muitos deles não refletissem a ansiedade que, após as ilusões otimistas do século XIX, começava a apoderar-se de muitos espíritos e seria plenamente justificada por duas guerras mundiais. Sob esse ponto de vista, convém assinalar “O tenente Gustl”, do vienense Arthur Schnitzler, que, relatando um incidente corriqueiro, desmascara o militarismo e a hipocrisia do Império Austro-Húngaro. Nos dois breves relatos do misterioso Rafael Barrett perpassa um vento do anarquismo. Nos amigos que jogam sua partida diária de cartas em “O grande slam”, do russo Leonid Andreiev, é difícil não ver as vítimas predestinadas da próxima catástrofe. Em “Na paz do Natal”, do dinamarquês Johannes Vilhelm Jensen, é mostrado o desencadeamento de instintos malsopitados.

Dois contos de temática histórica intensificam a impressão de insegurança: o sueco August Strindberg, ao evocar, em “O império milenar”, a atmosfera de terror do primeiro milênio, parece aludir às ameaças do segundo, e Ricarda Huch, em “O cantor”, protótipo da grande novela alemã, conta um episódio macabro da corte de Inocêncio X, exemplo convincente da fragilidade da justiça humana.

As demais histórias do volume não deixam transparecer a inquietação da época, mas merecem atenção por outros motivos. A grande tradição do conto francês revive no irônico “Putois”, de Anatole France, na página lírica de Francis Jammes e na crônica arcaizante de Jules Lemaître. Um assunto migrante da literatura internacional é retomado em “O assassinato do mandarim”, do inglês Arnold Bennett.

Três literaturas europeias pouco divulgadas são representadas pelas obras do polonês Zygmunt Niedzwiecki, do esloveno Ivan Cankar e do húngaro Ferenc Molnár, cujo “Conto de ninar”, adaptado ao teatro, daria origem à peça Líliom, mundialmente famosa.

A América não ficou esquecida. O uruguaio Javier de Viana e o mexicano Ernesto Montenegro aparecem cada um com uma narrativa. A seu lado estão reproduzidos o famoso “Os pombos”, de Coelho Neto, e “Trezentas onças”, amostra característica da arte de contar do gaúcho Simões Lopes Neto. Figuram também o norte-americano O. Henry, mestre do conto de tipo maupassantiano, com “O quarto mobiliado”, peça recorrente em todas as antologias, e o humorista canadense Stephen Leacock, com dois escritos engraçados.

O Oriente aponta em duas narrativas do estranho Lafcadio Hearn, meio norte-americano, meio europeu, que se fez completamente japonês, e em “A morte da mulher do atirador de facas”, de Naoya Shiga, que representa o espírito analítico na literatura do Japão.

Como se vê, é grande a variedade dos contos enfeixados neste volume, o que não os impede de terem em comum o interesse literário.


 

Tempo-de-crise-Coleção-Mar-de-histórias-v.9-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiNesta ampla antologia iniciada há mais de quarenta anos e provavelmente única em seu gênero no mundo, dois escritores brasileiros, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, buscaram dar um panorama tão completo quanto possível do conto universal, apresentado em amostras cuidadosamente selecionadas, traduzidas com esmero e acompanhadas de introduções críticas e de notas. Este volume, o nono, acrescenta ao acervo anterior 23 contos de vinte autores de mais de dez nacionalidades.

Alguns desses escritores alcançaram renome mundial não como contistas, mas no cultivo de outros gêneros.

“Compensações”, de James Joyce, autor do torrencial romance Ulisses; “A tragédia de uma personagem” e “No hotel morreu um fulano”, de Luigi Pirandello, reformador do teatro moderno; “O homem de Cabul”, de Rabindranath Tagore, conhecido entre nós como poeta lírico; “Num bosque”, de Ryonosuke Akutagawa, admirado como roteirista do filme Rashomon; “A criança do pesadelo”, de John Galsworthy, criador da Saga dos Forsytes; e “A dama de verde”, de Duhamel, das Aventuras de Salavin, mostram-se não menos à vontade no gênero do conto.

Ao lado deles, surgem outros autores considerados inventores de novas modalidades da narrativa breve: Colette (“A parada” e “A mão”); Chesterton (“O homem na galeria”); Saki (“A porta aberta” e “O contador de histórias”); Joseph Conrad (“Por causa dos dólares”); e Stefan Zweig (“Um episódio do lago de Genebra”), que figuram aqui com produções representativas. Um filósofo como Miguel de Unamuno (“O semelhante”) e um humorista como Massimo Bontempelli (“O colecionador”) fazem, ainda, parte do elenco.

Dirão os leitores se valeu a pena resgatar do esquecimento o catalão Eudald Duran-Reynalds (“Os adiantos”), os russos Avertchenko e Artsibachev (respectivamente autores de “O crime da atriz Mariskin” e “O toro de madeira”), ou ainda o espanhol Ramón Pérez de Ayala (“Pai e filho”). Um punhado de histórias inesquecíveis – pungentes, divertidas e/ou surpreendentes – em que cada um descobrirá com prazer a obra que melhor corresponde a seu gosto.


 

Após-guerra-Coleção-Mar-de-histórias-v.10-Aurélio-Buarque-de-Holanda-Ferreira-Paulo-RónaiEis o décimo e último volume de Mar de histórias, antologia mundial do conto das mais ambiciosas, empreendida há mais de quarenta anos por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, lexicógrafos, tradutores e ensaístas amplamente conhecidos, que, à margem de outras atividades extensas e variadas, levaram a cabo, em colaboração fraternal, esta empresa imponente.

A obra completa, encerrada em dez volumes independentes, contém nada menos que 239 contos escolhidos entre os melhores de 192 autores pertencentes a 41 literaturas.

O material está disposto por ordem cronológica da publicação dos contos. Cada um deles é precedido de uma introdução que o situa na obra do seu autor e na respectiva literatura. Notas abundantes facilitam a compreensão dos textos.

Este volume em particular contém trabalhos publicados de 1919 a 1925 e escritos na Áustria, Brasil, China, Costa Rica, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Nova Zelândia, Peru, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e Venezuela.

A peça mais extensa do livro é “O rato de biblioteca”, de Alfredo Panzini. Três grandes inovadores do gênero aqui representados são D.H. Lawrence, cujo pansexualismo exerceu tão forte influência na literatura moderna; Aldous Huxley, que tece a história com requintada sofisticação; e Katherine Mansfield, que substitui a predominância do enredo pela da atmosfera. Do sombrio Franz Kafka, foram transplantados três contos, sujeitos a interpretações divergentes.

A vida de aldeia, tão semelhante por toda parte apesar das diferenças regionais, forneceu temas ao chinês Lu-Hsin, ao finlandês F.E. Sillanpää, ao romeno I.A. Bratescu-Voinesti e à italiana Grazia Deledda, distinguida pelo prêmio Nobel de Literatura. A alma humana é vasculhada pelo norte-americano Sherwood Anderson e pelo polonês Stefan Zeromski. Dos irmãos Capek, da antiga Tchecoslováquia, inserem-se três histórias matizadas de ironia, no que se parecem com uma pseudorreconstrução hagiográfica de João Ribeiro. Ao lado deste figuram dois patrícios e contemporâneos seus, Lima Barreto e Monteiro Lobato.

Um conto-retrato é traçado pelo cubano Alfonso Hernández Catá; uma narrativa de caráter popular é assinada pelo costariquenho Carmen Lira; um apólogo, pelo venezuelano Pedro Emilio Coll, cujo patrício Rómulo Gallegos se distingue pelo colorido violento de uma peça ao mesmo tempo lírica e épica. Convém ainda assinalar duas narrativas dramáticas do peruano Ventura García Calderón e o surrealismo do holandês Louis Couperus. O húngaro Dezsö Kosztolányi excede pela finura de tons pastel. O humorismo norte-americano é bem-representado por Ring Lardner, registrador do delicioso do blá-blá-blá social.

A variedade deste volume permite, a quem não tivesse lido os precedentes, formar uma ideia da riqueza da obra completa.

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