Cinco biografias de mulheres fortes

Cinco biografias de mulheres fortes

A biografia é, provavelmente, meu gênero literário favorito. Já li algumas e tenho mais centenas na lista de livros que quero ler. Geralmente eu não falo sobre elas ou as resenho porque, por vezes, a impressão que dá é que a avaliação da qualidade de uma biografia é baseada nas virtudes morais e nas conquistas do biografado, e não tanto na qualidade do texto e no trabalho de pesquisa do autor.

Tento ao máximo fugir da armadilha de dizer “ei, esse cara é doido” para a biografia do Assis Chateaubriand ou então “Nossa, cara, que homem maravilhoso” para a biografia do Nelson Mandela. Também deixo as biografias de Carlos Marighella e de Getúlio Vargas – inimigos durante a vida – separadas pela biografia de Madiba, na tentativa de que ele pacifique o clima na minha estante.

Mas, quando li o tema do mês no grupo da Pólen, decidi fazer uma concessão. Através das biografias listadas abaixo, eu aprendi um bocado sobre variados assuntos, tudo começando a partir da história pessoal de mulheres maravilhosas que lutaram, viveram, deram sua vida à causas ou simplesmente estavam no lugar errado na hora errada.

Fonte: , Revista Pólen

A biografia é, provavelmente, meu gênero literário favorito. Já li algumas e tenho mais centenas na lista de livros que quero ler. Geralmente eu não falo sobre elas ou as resenho porque, por vezes, a impressão que dá é que a avaliação da qualidade de uma biografia é baseada nas virtudes morais e nas conquistas do biografado, e não tanto na qualidade do texto e no trabalho de pesquisa do autor.

Tento ao máximo fugir da armadilha de dizer “ei, esse cara é doido” para a biografia do Assis Chateaubriand ou então “Nossa, cara, que homem maravilhoso” para a biografia do Nelson Mandela. Também deixo as biografias de Carlos Marighella e de Getúlio Vargas – inimigos durante a vida – separadas pela biografia de Madiba, na tentativa de que ele pacifique o clima na minha estante.

Mas, quando li o tema do mês no grupo da Pólen, decidi fazer uma concessão. Através das biografias listadas abaixo, eu aprendi um bocado sobre variados assuntos, tudo começando a partir da história pessoal de mulheres maravilhosas que lutaram, viveram, deram sua vida à causas ou simplesmente estavam no lugar errado na hora errada.

 

1. Henrietta Lacks

Henrietta Lacks é imortal.

Em 1951, Henrietta era negra e pobre, tinha 5 filhos e trabalhava lavrando tabaco. Certo dia, ela começou a sentir dores muito fortes e encontrou um cisto no abdômen. Ela tenta esconder a dor da família, mas a doença avança de tal maneira que Henrietta tem que recorrer ao único hospital da região que realizava o tratamento de negros.12974_gg

Lá, eles descobrem um tipo de câncer muito raro e agressivo. Os médicos iniciam os procedimentos para tentar curá-la, mas, se hoje o câncer é uma doença complicada, na época era muito mais.

Depois de uma biópsia no tumor que Henrietta tinha, um pesquisador do hospital da Universidade Johns Hopkins percebe que, mesmo depois de retiradas do corpo, as células de Henrietta não param de se reproduzir. Ao retirar uma amostra dessas células e colocá-la em uma placa que tinha um suco nutritivo, ele percebe que aquele material continua se reproduzindo em uma escala geométrica.

Sem o consentimento e o conhecimento de sua família, sem qualquer tipo de pagamento aos herdeiros de Henrietta, as pequenas células, conhecidas no ramo da ciência como HeLa, passam a ser comercializadas e enviadas para pesquisadores de todo mundo.

Eu, você e sua família já tivemos, de certa forma, contato com Henrietta. Seu corpo foi enterrado em Baltimore, nos Estados Unidos, em 1951, mas suas células continuam nos laboratórios de todo o mundo, servindo de base para pesquisas científicas e vacinas, como a da poliomielite.

Em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, de Rebecca Skloot, publicada no Brasil pela Companhia das Letras, a vida de Henrietta antes do tumor é contada para o público que não fazia ideia de que essas células, que originaram quase toda a pesquisa médica do século passado, surgiram de um único lugar.

O livro conta os procedimentos médicos que eles realizaram em Henrietta com detalhes e explica como e o porquê das células dela nunca terem parado de se reproduzir e, portanto, serem imortais. Um diferencial é que a autora mostra o que aconteceu com os descendentes de Henrietta depois que eles descobriram que havia pedacinhos minúsculos de sua mãe circulando pelo mundo.

Rebecca Skloot também fala abertamente sobre como ela lidou com o distanciamento científico do pesquisador, sobre como ela teve que remover a ideia de “células HeLa” e substituir isso por “Henrietta Lacks”, uma mulher com uma vida marcante e que se tornou essencial para o desenvolvimento da ciência de nossa era.


2. Olga Benário

Olga, de Fernando Morais foi leitura obrigatória no meu terceiro ano do ensino médio. A escola toda teve que parar para ler a biografia e depois assistir ao filme estrelado por Caco Ciocler e Camila Morgado, que me marcou muito.

Olga era judia e se filiou ao Partido Comunista aos 15 anos de idade. Por causa disso, brigava muito com os pais e depois de certo tempo mudou-se para outra cidade para morar com o namorado, Otto Braun. Em certo momento,10393_gg Braun é preso e Olga arquiteta toda uma fuga para ele, que acontece bem no meio de um tribunal, na frente do juiz, durante o julgamento da pena de Braun. É com essa cena que o filme começa, te deixando logo sem ar e louco para entender quem era essa mulher que tinha tanta coragem.

Olga termina com Braun, passa por uma série de treinamentos militares no Partido Comunista da Rússia e recebe a missão de fazer a segurança de Luís Carlos Prestes, durante uma viagem ao Brasil, para onde Prestes retorna depois de ir à Rússia comemorar o sucesso da Coluna Prestes.

Durante a viagem de barco até as terras tupiniquins, e fingindo para as outras pessoas no navio serem um casal, Olga e Prestes se apaixonam e ficam juntos. O casal permanece em fuga o tempo todo e a narrativa é muito rica na hora de retomar alguns dos acontecimentos mais dramáticos de uma das vidas mais fascinantes que já pude ler.

Olga é uma mulher forte que não perdeu as esperanças nem quando foi deportada de volta a sua terra natal, a Alemanha nazista, enquanto ela estava grávida de seu marido. Como se ela fosse um “presente”, enviado por Getúlio Vargas a Hitler. Presa em um campo de concentração, Olga teve sua filha e morreu depois de certo tempo em uma câmara de gás.

A obra é essencial para entendermos um pouco da história do mundo e da formação de nosso próprio país. Se eu não me engano, Anita Leocádia, a filha de Olga e Prestes, vai publicar em breve alguma biografia de sua mãe.


3. Anne Frank

Quem não conhece Anne Frank e seu famoso diário? A história da família que se escondeu em um sotão para fugir da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial já é bem conhecida e possuí inúmeras versões em teatro, livros e até no cinema.

Miep Gies, que trabalhava como secretária na Opekta, a fábrica de geleias do pai de Anne Frank, e era quem levava comida e mantimentos para as famílias durante o período em que elas se escondiam, escreveu o livro Anne Frank: O Outro Lado do Diário.

Por ter um contato direto e uma certa vivência do regime da época, o livro de Miep dá mais detalhes sobre Anne e sua família, além de falar sobre a Holanda durante a ocupação nazista e sobre a história pessoal de Miep, incluindo seu casamento, que também é bem interessante.

O livro mostra mais do que aquilo que aparece no diário, além de reconstruir a mesma história, por um ponto de vista fascinante. Miep faleceu em 2010, mas ainda seguiu dando entrevistas sobre a família Frank por vários anos. É uma dobradinha, porque nós temos Anne e Miep como duas mulheres fortes representadas nessa obra.


4. Zélia Gattai

Zélia Gattai é escritora e a única obra que li dela foi sua autobiografia, Anarquistas, Graças a Deus, um livro que sempre que eu falo/escrevo sobre, fico sorrindo. 5285608993_2009fc15df_z

Nele, ela reconta a história de sua família, de seu pai italiano anarquista, que trabalhava consertando carros quando ter carro em São Paulo ainda era um grande luxo (nos anos 30, gente). Por essa profissão, a vida de Zélia era relativamente confortável e a maneira como ela pinta sua infância deixa todo mundo sentindo certa nostalgia.

Ir a matinês no cinema, morar do lado dos casarões da Avenida Paulista e visitar os primos no interior da cidade (nos bairros da não-é-tão-longe-assim- Zona Leste) eram atividades que ela fazia com frequência e que são narradas com delicadeza e doçura em sua biografia.

O livro enche os olhos de quem gosta de história e de quem vive em São Paulo e não consegue imaginar ela em tempos mais pacatos, com menos gente, pressa e dinheiro circulando.

Certa vez, eu até passei na frente do endereço antigo de Zélia. Hoje, é um prédio residencial de gente que tem muito dinheiro, bem perto da Avenida Paulista, onde moravam os barões do café que eram donos dos carros consertados pelo pai dela.

A autora foi casada por vários anos com o também escritor Jorge Amado e acho que o gosto pela obra dele influenciou meu amor por Anarquistas, Graças a Deus. Não vejo a hora de explorar mais a fundo os outros livros de Zélia (talvez quando eu terminar os livros que tenho que ler pro TCC, oh Deus!).


5. Olga, Tatiana, Maria e Anastasia Romanov

Você provavelmente conhece Anastasia daquele desenho dos anos 2000, que vira e mexe passa na sessão da tarde. A história do último tsar da Rússia que foi destronado e assassinado com toda sua família, mas que uma de suas filhas sobreviveu e apareceu depois e um grupo tenta dar um golpe dizendo que uma moça aleatória era Anastasia e acaba que era mesmo e tinha aquele cara malvado o Rasputin e ele andava com um ratinho, algo do tipo. Na verdade não é nada disso.

As Quatro Irmãs Romanov, da autora Helen Rappaport, conta a história real (e isso excluí qualquer narrativa sobre uma possível sobrevivência da Anastasia) do tsar e da tsarina, Alice de Hesse e Reno, e de suas filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastasia.

Traçando desde a história da avó das meninas pelo lado materno, passando pela Rainha Vitória, que influenciava muito a tsarina, até as histórias de um Império Russo bem fragmentado, cujo povo queria muito um filho varão e acabou com quatro meninas seguidas.

Ainda estou lendo o livro, que é bem extenso e sei que o final é trágico e que todo mundo morreu em 1917, com a Revolução Russa. Mas até agora, o quadro pintado pela autora está bem colorido e me envolvendo bastante, a experiência toda parece bem fascinante.

É interessante observar como tudo está bem documentado em cartas, diários e livros, como a percepção do povo russo em relação a tsarina Alice parece ser bem errônea e como isso a deixou tão desesperada por um filho homem que ela acabou partindo para misticismos e para uma religiosidade excessiva e talvez até prejudicial, e é aí que eu não sei mais onde a história vai dar porque Rasputin entra em cena e eu fiquei com sono.

Realmente fascinante para qualquer um que gosta de escândalos e mistérios da realeza, com um quê de teorias da conspiração e dramas.

Espero que, com Olga Benário, Zélia Gattai, Anne Frank, Henrietta Lacks e Olga, Tatiana, Maria e Anastacia Romanov, você possa viajar por eras e épocas e aprender com mulheres que foram maravilhosas, de maneira única.

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