Caçando mitos

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O LIVRO ALÉM DA MíDIA # 10 | POR EDNEI PROCÓPIO

Mesmo depois de mais de uma década após o livro eletrônico ter iniciado sua trajetória rumo a conquista de leitores, e depois de algum tempo ter finalmente não se popularizado, mas entrado finalmente na pauta das editoras, ainda paira sobre o mercado editorial como um todo dúvidas bastante cruciais à respeito do assunto. É até de certo modo natural haver um nível de equívocos frequentes em torno dos eBooks, mas mesmo esta frequência depois de algum tempo vem se tornando um tanto corrosiva.

Uma vez que a Revolução dos eBooks avança a passos largos, muitas vezes não temos o tempo hábil de maturar as informações que nos chegam diariamente sobre o tema. Selecionamos aqui algumas e verificamos também alguns pontos afim de tentar ajudar a elucidar ou a esclarecer, antes que as distorções criem raízes e se tornem como mitos.

O livro eletrônico vende mais que o livro impresso

Se, neste estágio inda inicial de digitalização das mídias, o livro eletrônico vendesse realmente mais que os livros impressos, eu, por exemplo, talvez já teria me tornado um milionário.

Para desmistificar a informação de que o livro eletrônico já venderia mais que títulos impressos, o primeiro exercício que precisamos praticar é ou isolar a Amazon de um contexto global do mercado editorial, ou inseri-la de vez em um contexto ainda mais amplo, sem perder de vista o fato de que a gigante ponto.com não comercializa apenas livros, impressos ou eletrônicos, mas um número crescente de outros produtos e serviços dispersos em diversas áreas.

AmazonÉ fato que neste período atual a Amazon, isoladamente, vende mais unidades digitais que impressas, mas a empresa não divulga a diferença que haveria no lucro existente entre os dois formatos. Mesmo vendendo mais unidades digitais que exemplares impressos, precisamos pensar em quanto o montante dos eletrônicos representa no faturamento total dos livros para a empresa de Jeff Bezos; e o quanto este montante representa dentro das editoras que abastecem aquele acervo. No máximo 30% de faturamento as vendas dos eBooks trazem para as editoras americanas que já estão de certo modo há algum tempo mais acostumadas a explorar comercialmente este nicho.

Sim, comparado ao mercado de apps, músicas e vídeos, o eBook ainda encontra-se em um nível considerado nicho.

No geral, olhando para o mercado interno, no entanto, o livro eletrônico ainda não vende mais que os livros impressos por uma simples razão: aqui no Brasil nós temos cerca de 300 mil títulos impressos sendo simultaneamente comercializados. O número de títulos em versão eletrônica chega pela primeira vez à casa dos 20 mil títulos apenas no segundo semestre de 2013. Se chegar, pois há forte pressão para que as casas editoriais brasileiras o façam, mas elas ainda estão bastante reticentes, para não dizer assustadas, indecisas.

Só para se ter uma ideia, em uma determinada livraria online de São Paulo, por exemplo, com faturamento na venda dos livros impressos superior a uma de suas lojas físicas, o eBook representou em 2012 apenas cerca de 0,05% das vendas.

O faturamento do mercado editorial tradicional é da casa dos 4 bilhões. Com a venda dos títulos eletrônicos, o mercado em 2013 não alcançará 3% deste mercado interno.

O livro eletrônico é mais barato que o livro impresso

O livro eletrônico não é mais barato que o livro impresso. Nem com relação ao seu custo de produção, nem em relação ao preço de capa para o consumidor final [embora, neste último caso, até devesse ser].

A produção tanto dos títulos em versão impressa quanto dos títulos eletrônicos envolvem custos com processos como a seleção de originais; a preparação de texto, ou o copidesque; a revisão [onde o texto original às vezes passa por duas ou três revisões]; a pesquisa de imagens para o miolo e até para a capa do livro; o desenvolvimento de ilustrações, imagens, gráficos ou tabelas; ISBN; Ficha Catalográfica e fechamento dos arquivos.

O custo entre os dois formatos só se diferencia quando há a necessidade ou a decisão da impressão. E aqui haveria custos com tinta, papel, transporte, logística, etc. No caso dos títulos eletrônicos os custos logísticos envolvem a validação dos arquivos para determinadas plataformas, às vezes até uma nova conversão, e o cadastro dos títulos nos canais de vendas [e, como consequência, o manuseio dos metadados]. Ou seja, embora no caso dos eBooks não haja os custos de impressão, há custos envolvidos de trabalho/hora até que o título esteja disponível para o público consumidor.

Embora hoje o leitor esteja disposto a pagar por um preço mais acessível pelo livro eletrônico é fato que, neste estágio mais acelerado das digitalizações, alguns canais de venda e distribuição cobrem dos detentores do conteúdo o mesmo percentual dos livros impressos. Ou seja, o percentual sobre a venda está baseado em uma conta qualquer que alguém fez para o livro impresso. Como editor é preciso cautela na hora de negociar com estes canais.

Portanto, nesta fase, há uma diferença entre reconhecer a cultura do preço acessível imposto pela Internet, influenciada por sua vez pela chamada freeculture [sem falar na tal da pirataria], e os custos reais de produção, hospedagem segura e a comercialização dos livros eletrônicos. Embora a tecnologia tenha avançado a níveis sólidos na redução dos custos, depois aplicação da chamada Cloud Computing [computação em nuvem], ainda assim o livro eletrônico gera muitas vezes custos tão marginais que só podem se observados e reconhecidos quando há um volume de produção, conversão e comercialização muito bem registrado em planilhas financeiras.

Pense bem, porque a Amazon entraria no mercado de hospedagem? Pelo simples fato de que ela não estava conseguindo bancar seus próprios servidores. Foi assim que a companhia resolveu repassar os seus custos de hospedagem para o mercado. E o mercado, claro, está pagando como se não houvesse vantagens com hostings antigos como Locaweb, UOLHost, etc.

Amazon, Apple, Google e Kobo formam a Internet dos livros

Big players como Amazon, Apple, Google e Kobo formam em conjunto uma rica fonte de consumo de livros eletrônicos; ainda assim elas não são as únicas empresas que compõem o universo todo de opções de acervos, bibliotecas e repositórios de livros na Internet.

Na realidade, a própria Internet em si é a única, a maior e verdadeira biblioteca dos livros. Por maiores que sejam as empresas cujas plataformas somam hardware, software e conteúdo em um único sistema de convergência cultural e tecnológica, ainda assim elas não são maiores que a soma da própria Internet como provedora do maior acervo de livros da história da humanidade.

É necessário levar em conta que ferramentas digitais estão cada vez mais próximas do usuário comum, o que torna democráticos os processos de publicação, comercialização, distribuição de livros eletrônicos através da rede, independente das big datas. Com isso há inúmeros outros canais que disponibilizam conteúdo literário, que se quer aparecem na primeira página do resultado de busca.

Neste sentido, está mais do que na hora de a Yahoo! ou A Microsoft dar uma resposta e uma alternativa para não ficarmos escravos de uma única search engine. Nada contra, é apenas um modo de sempre me ver livre, já que vivemos em um mundo redondo preso a uma única órbita gravitacional.

Mas o universo é grande demais!

A Amazon, por exemplo, para alcançar o impressionante volume de títulos em seu acervo, teve que revelar um processo canibal de negociação junto às editoras que, por conta da atmosfera da urgência criada, algumas vezes não conseguiram enxergar o verdadeiro negócio por trás da plataforma Kindle.

Google vs. AmazonA Google, por sua vez, possui um diferencial à partir de seu próprio buscador que a mantém quase que onipresente mesmo quando concorre com seus rivais mais próximos. E somente este mecanismo já a torna um gigante imã de audiência. Mas, se recuássemos no tempo, teríamos a Google com o seu projeto de digitalização e indexação de obra que, lá atrás, prometia nunca vender os livros, mas que hoje se comporta [com o perdão da expressão] como um cão correndo atrás do próprio rabo.

Já a Apple trouxe para um mercado acostumado com tudo de graça na Internet, a opção de rentabilizar toda uma cadeia de valor, e que atrai para si própria um conteúdo de relevância e popularidade. E faz disto um de seus pontos mais fortes.

Em geral, a audiência [de leitores em busca de livros] se concentra onde o produto, o preço e a praça se convergem para o consumidor final. Portanto, é preciso cautela em conclusões baseadas apenas no recorte de um cenário que se alterna a todo o instante. Por exemplo, a audiência de alguns destes citados players poderiam se afugentar caso alguma startup criasse um modo seguro e barato de circular eBooks dentro da rede social Facebook. E este é apenas um exemplo de como a própria Internet se molda conforme a audiência e a relevância com que milhares de conectados percebem e consomem bens digitais através da grande rede, não fora dela.

O ePub é o formato padrão dos livros eletrônicos

ePub Infelizmente, o formato ePub ainda não se tornou o padrão de mercado para os livros eletrônicos. E muitos são os motivos. Historicamente, o mercado editorial aprendeu a formatar e a diagramar o bom e velho PDF. Talvez, no futuro, o mercado finalmente aprenda a conviver com a ideia de um padrão baseado em um consórcio livre. Por enquanto, nesta fase de aceleração das conversões, o que temos é uma lista de problemas que envolvem desde o custo que não baixa por mais que o mercado tente; passando pelas questões de adaptação de cada livro, até chegar na questão da validação.

A Amazon, quando chegou ao Brasil, teve problemas inúmeros com a qualidade dos ePubs oferecidos por uma certa distribuidora. Na maioria dos arquivos havia erros básicos que dependiam tecnicamente do manifesto obrigatório que reconhece o formato como um padrão. Havia problemas com hifenização, problemas com links, imagens, tabelas, etc. E havia mais um problema dentro da própria Amazon que tentou reutilizar os arquivos ePub numa conversão interna para arquivos .mobi lido pela maioria das versões de hardware e aplicativos da plataforma Kindle.

A ideia de se criar um formato padrão para o livro eletrônico nasceu em meados do início da década de 2.000, quando a maioria das empresas que estavam trabalhando com os livros eletrônicos resolveu criar e utilizar extensões proprietárias em seus projetos. A Microsoft, por exemplo, utilizava o formato LIT, lido com o aplicativo MS Reader. A Adobe avançava com a extensão PDF, que era lido no aplicativo Adobe eBook Reader. A Palm utiliza a extensão PRC [e até PDB] em seu Palm Reader. A empresa francesa Mobipocket utilizava a extensão MOBI em seu projeto multiplataforma Mobipocket Reader, o primeiro a rodar em diversos ambientes e que, ironicamente, mais tarde, depois de ser comprado pela Amazon, passou a ser lido apenas através da plataforma Kindle. E a extensão .mobi tornou-se um dos maiores erros da Amazon quando o assunto é extensão de arquivos de livros. A Amazon sabe, ela teria economizado tempo e dinheiro se houvesse simplesmente adotado as extensões ePub, PDF e HTML.

HTML5E, por falar em HTML, existem ainda outras questões a serem discutidas com relação a este outro padrão [também baseado em um consórcio livre], que poderia eventualmente num futuro próximo subverter formatos que atualmente o incorporam fisicamente em um empacotamento, como é o caso das extensões .ePub e .mobi. Isto poderia ocorrer por estes arquivos em particular esconderem em suas espinhas dorsais conteúdos hipertextuais. A questão que se discute é, porque ao invés de empacotar conteúdo criado e desenvolvido com linguagem de marcação, já não se utiliza o próprio HTML dentro dos aplicativos e softwares voltados aos livros eletrônicos?

É preciso mais do que coragem para admitir que a extensão padrão ePub perde, se o caminho for o livro-aplicativo que utiliza, além da semântica da linguagem de marcação HTML, usa também outras linguagens de programação que enriquecem o livro e que vão bem além na utilização de hardwares quando se transformam em aplicativos ricos, dinâmicos mas presos em soluções muitas vezes proprietárias.

É preciso haver uma melhor dinâmica tanto na aceitação da extensão ePub pelo mercado, quanto no desenvolvimento do formato para que esse cresça em utilização e torne-se realmente um padrão para todo o mercado. Caso contrário, o HTML5 se tornará a grande pedra no caminho dos livros eletrônicos.

O futuro do livro é ser um aplicativo

Eis outro mito que precisamos exterminar. O livro do futuro não será um aplicativo. O livro eletrônico do futuro, se observadas às prerrogativas básicas da utilização do prefixo ISBN, que diz qual material textual é efetivamente um livro, pode ser desde um arquivo simples, sem marcação, em formato TXT [que pode ser interpretado por um aplicativo]; mas pode também ser uma rica enciclopédia online com textos, sons e imagens. Ou seja, pode haver qualquer aplicação para o liro no futuro, desde que este utilize o prefixo ISBN para identificá-lo frente a infinidade de conteúdos existentes e disponíveis.

Atualização do aplicativo iBooks pretende deixar leitura de livros digitais ''mais interativa''

Agora, quem determina se um livro será ou não um aplicativo é a sua utilização em si, o seu propósito, não a fetiche hoje existente pela tecnologia. Por exemplo, há textos mais simples como contos, poesias, crônicas, novelas, que não precisam estar fisicamente acoplados a aplicativos com recursos hipermídias e que podem ser acessados, lidos, em sistemas mais simples. O fato de alguns livros necessitarem de recursos hipermídia, como será em breve provavelmente o caso da maioria dos livros didáticos que, por sua natureza intrínseca, necessitam de recursos de ilustrações diversas, isto não quer dizer que todos os livros devam transformar-se em algo multimídia ou em um game.

Se faz necessária uma avaliação não só de conteúdo que, na maioria dos projetos, não está a mão quando se precisa, mas também uma avaliação técnica que torna muitos projetos de livros-aplicativos um engodo se o objetivo é fazer o produto rodar em diversas plataformas.

Pois os livros-aplicativos não poderão rodar simultaneamente em diversas plataformas, pela própria natureza tecnológica; somente rodarão naquelas plataformas sob a qual foram desenvolvidas. Enfim, cada texto da obra, cada livro pede um tipo de aplicação diferenciada para que possam ser finalmente acessados pelos leitores.

Tablets, smartphones e e-readers não as únicas opções para a leitura dos eBooks

Segundo pesquisa divulgada no início do segundo trimestre de 2013, realizada pelo Centro de Tecnologia de Informação Aplicada, pertencente à Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas [FGV], o Brasil tem três dispositivos computacionais para cada cinco habitantes. Segundo o estudo, a quantidade de computadores existentes e utilizados no país alcançou a base instalada de 118 milhões [somados os equipamentos domésticos e corporativos]. Ainda segundo mesmo o estudo, a projeção para 2016 é que haja uma base instalada de 200 milhões de unidades de dispositivos computacionais, cujo crescimento é impulsionado pelas vendas de 22,6 milhões somente no ano de 2013.

Com a miniaturização dos microchips, com o advento da computação pessoal, coma democratização geral e irrestrita da tecnologia da informação, o número de artefatos, gadgets e produtos voltados para o consumo de conteúdo digital vem crescendo e se expandindo. Outras opções vão desde aparelhos de DVDs portáteis, monitores de LCD ou plasma, televisores com conversores digitais embutidos; passam pelos games portáteis como a linha PlayStation Portable, da fabricante Sony, ou pelas edições portáteis da Nintendo, entre outras opções; e chegam até as linhas de laptops, notebooks, netbooks, ultrabooks e por aí vai.

Uma vez que a cultura digital contribui com a desmaterialização dos filmes, que hoje não necessitam obrigatoriamente de mídias em CD, DVD ou BlueRay; e das músicas que não necessitam obrigatoriamente das fitas K7, do vinil ou da mídia CD para serem consumidas; os livros igualmente também passam pela desmaterialização da mídia papel para serem consumidos.

E-readers perdem espaço para os tablets e smartphones

Embora os aplicativos desenvolvidos para a leitura dos livros eletrônicos ganhem maior legibilidade e portabilidade em e-readers, tablets e smartphones, o livro eletrônico está livre para ser acessado e consumido em inúmeras possibilidades de telas que antigamente passou por suporte como  paredes das cavernas, tablets de argila, folhas de papiro, peles de animais e até pedaços de bambu; e hoje avançam para serem lidos em telas que se adaptam ao horário e local onde o leitor esteja apto e disponível para a experiência. Estes novos suportes poderão oferecer a experiência da leitura em telas de um relógio digital de pulso, passando por um óculos e podem chegar a uma lousa digital em uma sala de aula do futuro.

O futuro do mercado editorial é o Self Publishing

Os mitos se avolumam quando um mercado antes dominado pelos barões da mídia, hoje está nas mãos de um exército de reserva de empreendedores que assumiram o controle do futuro dos livros. Dentre os novos empreendimentos estão àqueles ligados às chamadas edições de parceria, cujos custos das produções são pagos por parceiros de fora deste empreendimentos editoriais.

Um desses parceiros financeiros pode, lógico, ser o autor. Mas o chamado autor independente não é aquele que paga pelas publicações. Autor independente é aquele profissional da escrita que não mantém uma exclusividade com um único selo editorial. Podendo ou não custear a publicação de seu trabalho sem estar obrigatoriamente preso a um grupo ou selo editorial.

A independência desses novos autores não se restringe a questões financeiras. Dois pontos são cruciais a serem desmistificado quando o assunto é o Self Publishing. Primeiro: não importa quem custeia a publicação de um livro, se é a editora, o autor, o Governo, patrocinador externo ao mercado ou um mecenas. O que realmente importa é que o livro tenha qualidade editorial.

Praticamente metade das publicações das editoras brasileiras é custeada pelo Governo e nem por isso estas edições são chamadas governamentais. As vendas é que são governamentais e não as edições em si.

Muitas edições são custeadas por prêmios, incentivos culturais, etc. Parte das edições das próprias editoras não é por elas pago, mas é sim pago com o resultado das vendas de outros títulos do catálogo. Portanto, é correto afirmar que quem paga as edições das obras dentro das editoras convencionais não são os editores, mas os leitores e os próprios livros que dão o lucro. Se não houvesse o lucro, não haveria o custeio das publicações por parte das próprias editoras.

Apenas uma parcela menor das edições é custeada pelos próprios autores, o que não constitui em si falta de qualidade do material publicado. É necessário separar o processo de seleção, avaliação de originais e de curadoria, do processo financeiro que permite o custeio da publicação das obras. Muitos livros custeados pelo próprio editor podem ser considerados ruins. Assim como alguns livros custeados pelos autores podem ser considerados bons.

E a segunda questão tem exatamente a ver com a equipe editorial necessária para que uma obra tenha qualidade. Independente de quem custeia a publicação de uma determinada obra, a existência de um corpo editorial mínimo para a viabilização qualitativa da edição põe por terra a tese de que haveria uma desintermedição do editor quando o assunto é edição independente.

Por mais que uma edição seja independente, no sentido de que o custo financeiro é levantado fora da casa editorial, ela será sempre dependente de um corpo editorial que faça o trabalho de avaliação, leitura crítica, seleção, preparação de texto, revisão, formatação, paginação, diagramação, etc. Sem isto, uma obra não terá qualidade, independente de quem custeie a publicação.

Edição do autor é uma coisa, edição independente é outra. Na edição do autor, o próprio profissional cuida do livro; na edição independente o processo de produção é cuidado por uma equipe. Ambas as opções sempre existiram. Aliás, até a parceria financeira editora/autor também sempre existiu. O que não ocorreria, antes da era da transparência, também ocorrida com o advento da Internet, era o acesso a informação de que isto era mais comum do que se imaginava.

O que estamos vivenciando talvez seja a desintermediação do processo financeiro do custeio da obra, mas não a desintermediação dos processos de produção editorial tão imprescindíveis para a qualidade das edições. E sem as quais em breve o próprio leitor perceberá a falta de qualidade e deixará de compras os livros por conta disso. Ou seja, independente de quem paga as edições, se estas não mantiver a qualidade editorial o livro não venderá e aí a cadeia de valor do livro não fecha o seu ciclo.

Enfim, autor independente não é aquele agente presente na cadeia produtiva do livro que paga pela publicação de seu próprio trabalho. Pagar pela publicação de seu próprio trabalho é apenas uma das possibilidades econômicas de se viabilizar a edição de um livro. Não é a única e não é prerrogativa para nenhum tipo de avaliação editorial. Autor independente é aquele agente da cadeia produtiva do livro que é, antes de qualquer editor ou editora, o real dono de sua própria carreira literária. E por ser livre, independente, pode simplesmente optar por bancar o seu próprio trabalho.

É fácil controlar uma mentira, basta mistificar um fato. Se um determinado editor discordar disto, basta então ficar à vontade para bancar com recursos próprio todo e qualquer publicação que achar pertinente; já que, neste caso, para ele, nenhum autor deve se declarar realmente independente.

É difícil desconstruir os mitos

Depois de uma década após o livro eletrônico ter iniciado sua trajetória rumo a conquista da totalidade dos leitores, ainda hoje se vê o uso de informações redundantes; desinformações que são usadas para desacelerar o ritmo frenético imposto pela Revolução dos eBooks.

Informações desencontradas, sem sentido, sem nexo, são usadas por diferentes canais que tentam controlar o fluxo dos negócios através de uma influência na comunicação com o mercado. Aqueles que tentam inutilmente controlar o rumo do emergente mercado de eBooks usam de subterfúgios outrora usado no mercado dos livros impressos, mas não percebem que o mundo mudou, girou, saiu de sua antiga órbita, e que hoje existe um canal, o único de real independência, chamado Internet, que absorve qualquer manipulação, e a torna vapor barato, quase que em tempo real, tal o fluxo de conversas verdadeiras que trafegam pelas rede sociais.

Deixando de lado, no entanto, um pouco da subjetividade, na prática o que resta é o que chamo de sincronicidades, ou seja, informações reveladas verdadeiras sem que seja necessária a confirmação da fonte.

Por exemplo, não é verdade que não existe jurisprudência para o livro eletrônico no Brasil. E como resolver todas as questões jurídicas relacionadas ao livro eletrônico na região? Muito simples: utilizando-se de todas as prerrogativas da Lei de Direito Autoral já amplamente aceita e utilizada em nosso país. Dizer que a lei existente não serve é apenas uma das inúmeras desculpas que ouvimos diariamente para deixarmos de resolver questões mais práticas com relação ao tema. Neste sentido, é claro que o livro eletrônico nos trás questões jurídicas novas, mas são básicas como a questão do formato, idioma, territorialidade e prazo em um determinado contrato; e são tão óbvias as suas aplicações quanto a sua utilização nas versões das obras impressas.

Enfim, afirmam por aí que a maioria dos usuários da Internet são superficiais, que não leem os textos longos e que por isso não consumiriam os livros em versão eletrônica. Se isto fosse realmente uma verdade, e não um mito, você não teria lido este post até o fim.

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