Boa notícia: A editora Autêntica cresce apesar da crise

Boa notícia: A editora Autêntica cresce apesar da crise

Capa dura, acabamento de luxo e traduções impecáveis de autores da chamada alta literatura, como Herman Melville (1819-1891), Georges Perec (1936-1982) e Virginia Woolf (1882-1941). Edições como essas, que costumavam ser associadas à Cosac Naify, casa editorial paulista que fechou as portas no ano passado, continuam a chegar às livrarias e estão sendo produzidas por uma editora de fora dos grandes centros cada vez mais saudável financeiramente – a Autêntica.

Joselia Aguiar, no Valor Econômico

Capa dura, acabamento de luxo e traduções impecáveis de autores da chamada alta literatura, como Herman Melville (1819-1891), Georges Perec (1936-1982) e Virginia Woolf (1882-1941). Edições como essas, que costumavam ser associadas à Cosac Naify, casa editorial paulista que fechou as portas no ano passado, continuam a chegar às livrarias e estão sendo produzidas por uma editora de fora dos grandes centros cada vez mais saudável financeiramente – a Autêntica.

A fundadora, Rejane Dias, evita a palavra “crise”. Neste ano, não aceita menos de 40% de crescimento, como diz, bem-humorada, aos 57 integrantes de sua equipe. Fundada em Belo Horizonte (MG) em 1997 para publicar ciências humanas, a pequena editora desdobrou-se em quatro e hoje é um grupo que atua em múltiplos segmentos.

Parece uma história que começou há pouco tempo, uma vez que apenas nos últimos cinco anos o seu desempenho se tornou visível para o mercado de livros. Num catálogo que soma cerca de 600 títulos, a produção alcançou 150 no último ano, volume que a aproxima das grandes casas, com as quais se instalou pela primeira vez no mesmo pavilhão na última Bienal do Rio, em setembro passado. “Escutei de um distribuidor: ‘Onde vocês estavam que não havíamos percebido?’.”

A fundadora tenta relativizar e diz que “40% não é difícil” porque estão partindo de um patamar ainda baixo. Para ela, “o aprendizado é recente” e só depois, quando a editora estiver em certo patamar, ficará mais difícil superar os superar os dois dígitos de crescimento. O percentual não é pouco, no entanto, num cenário de retração como o atual, quando editoras registram perdas e até fecham portas. As que vão bem têm comemorado o fato de encerrar o ano sem variação.

Filha de operários que nasceu há 49 anos em Itabira (cidade a 99 km de Belo Horizonte), Rejane Dias recorda que, numa população católica de funcionários públicos, havia certo constrangimento quando se tratava de ganhar dinheiro. “Quem sabia fazer comércio estava em Santa Maria, cidade vizinha.” Não encontrou livros em casa, mas os procurou na escola, onde, ao se formar, recebeu um diploma por ter sido a mais assídua na biblioteca. Na capital mineira, estudou ao mesmo tempo jornalismo e letras, foi sócia em uma pequena empresa de editoração eletrônica e montou uma agência de comunicação que chegou a ter 40 clientes.

A certa altura, percebeu ser necessário diversificar o negócio, que se tornava incerto com o surgimento da internet. 1609288“Achava bacana fazer parte de uma indústria e não apenas oferecer serviço. Como tinha uma equipe cujas habilidades nos permitia também fazer livro, pesquisei e escutei muita gente dizendo que estava louca. Entrei assim mesmo no mercado editorial.” No primeiro ano, pensava em lançar quatro livros. Foram 18. Apostou em títulos de educação com design caprichado, num modelo que à época passava a ser introduzido no país pela Cosac Naify.

Rejane ficou tão fascinada com a nova atividade que foi deixando o ramo editorial ocupar todo o tempo da agência de comunicação. “Uma editora demora muito tempo para ser autossustentável”, afirma. Quando completou cinco anos de funcionamento, colecionava erros que não quis mais repetir. Com tiragem de 2 mil exemplares para obras que vendiam 200 por ano, tinha dinheiro imobilizado por uma década, estoque difícil de administrar. “De início, a editora não se realizou.”

Para resolver o que define como “falta de compreensão do negócio”, contratou consultores e profissionais com raciocínio de gestão vindos de fora do mercado editorial. “Há muitos clichês e mitos no setor editorial que são percebidos justamente quando o comparamos a outros setores.” No início, teve a orientação de um especialista em gestão administrativa. Aprendeu a estabelecer metas, medir resultado de cada livro e segmento. Compreendeu que, concentrada em livros de humanidades, descuidara dos títulos do chamado “trade”, mais comerciais.

Um consultor em gestão de vendas e marketing ajudou Rejane a investir de modo apropriado conforme o nicho. Agora, terá um consultor em gestão financeira e organizacional. Foram tantas as mudanças em tão pouco tempo que os cargos e funções precisam ser reacomodados. Nos dois reacomodados. Nos dois primeiros anos, o crescimento superou os 20%. No terceiro e no quarto, os 30%. No quinto, os 40%.

O caso que mais ilustra a virada para o segmento “trade” é o da autora mineira Paula Pimenta, com a série “Fazendo Meu Filme”, voltada para o público feminino adolescente. Entre março e abril deste ano, deve completar 1 milhão de exemplares vendidos, com 14 títulos no total. Alcançando mesmo público, a blogueira e escritora Bruna Vieira soma cerca de 300 mil exemplares vendidos em seis títulos.

“Estamos publicando mais daquilo que está dando certo”, diz. As redes de livrarias têm prestado mais atenção ao grupo, o que permite maior exposição e circulação dos livros. Há, além disso, “mais equilíbrio” nos investimentos em alta literatura e humanidades, não necessariamente títulos deficitários. Melville, Perec e Woolf, por exemplo, saem com tiragens entre 2,5 mil e 3 mil. “Percebemos que aqueles em acabamento de luxo, com capa dura, permanecem mais tempo em destaque nas lojas e, portanto, acabam tendo um giro maior.” Entre os bem-sucedidos em vendas nesse segmento, “Ética”, de Spinoza (1632-1677), superou os 20 mil vendidos.

Conciliar catálogos diferentes foi fundamental para a sobrevivência. “É muito difícil hoje ter editora só de alta literatura ou humanidades para público que está dentro da universidade. Tem-se um público reduzido e há muitas editoras fazendo coisas bárbaras, concorrendo”, diz. Ela não descarta lançar títulos sem garantia de lucro. “É uma prerrogativa de quem faz livro: publicar o que julga importante mesmo que, do ponto de vista do negócio, seja deficitário. Mas não pode ser o catálogo inteiro assim”. Rejane diz que não se trata de “fazer concessão”, mas compreender que se deve “pensar o catálogo a partir do leitor, não apenas no gosto pessoal”. Ela aponta limites, no entanto. “Não quero fazer o livro do [Adolf] Hitler [‘Minha Luta’, de 1925], por exemplo.”

O catálogo adulto tem à frente a própria Rejane Dias e Cecília Martins. Na Autêntica Editora são publicados livros de literatura adulta e infantil e humanidades. Nas decisões editoriais, há ainda Arnaud Vin, sócio na Editora Nemo e no selo Vestígio diretor-executivo em ambas. A Nemo volta-se para quadrinhos, “graphic novels” e universo “geek”. O Vestígio abarca o gênero policial. Na Editora Gutenberg, com títulos de interesse geral, o comando é de Silvia Tocci Masini. No catálogo infantil e juvenil, encontra-se Sonia Junqueira, também autora conhecida na área.

A linha literária passou a contar com o reforço de Maria Amélia Mello, vinda da José Olympio (grupo Record), nome de peso na área. Somaram-se nomes fortes da literatura brasileira, como Ferreira Gullar, Rubem Braga (1913-1990), Maura Lopes Cançado (1929-1993) e Campos de Carvalho (1916-1998), entre lançamentos de 2016 e outros previstos para este a e outros previstos para este ano.

Ao mesmo tempo em que se estabelecia como grupo, em 2011, a Autêntica montou seu escritório em São Paulo. O do Rio de Janeiro foi aberto três anos depois. “Estar em um território fora do eixo nos obrigou a trabalhar mais a divulgação, a participar de mais eventos, a fazer tudo cada vez mais com qualidade para que pudéssemos competir nos mesmos espaços, para que pudéssemos ganhar mais lugares de destaque nas lojas. Então essa limitação de estar fora do eixo acabou se transformando em um estímulo para depurarmos os nossos projetos.”

O investimento no “trade” ajudou a Autêntica a diminuir a dependência de compras públicas. Com esse cancelamento, muitas editoras se desequilibraram. “Todos se deram conta de que não se pode ter um só grande cliente. Isso é regra para qualquer negócio”, diz.

Até 2010, as vendas governamentais representavam entre 60% ou 65% dos resultados. A partir de 2011, caiu para 23,9%. Ano a ano foram perdendo representatividade. “Em 2015, seriam 18%, mas uma venda que ocorreria em dezembro acabou faturada em fevereiro deste ano. No final das contas, significaram apenas 2% do resultado. Ou seja, crescemos 44,11% ancorados quase totalmente no varejo.” Mesmo assim, Rejane diz que seu aprendizado ainda não se concluiu. “Ainda quero fazer cursos na Fundação Dom Cabral ou na Getulio Vargas, mas ainda não tive tempo”, diz.

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