Autopublicação rende ’50 tons’ de lucros

Autopublicação rende ’50 tons’ de lucros

Assim como os jornais e as gravadoras, o mercado de livros enfrenta mudanças ao se deparar com a concorrência – e as possibilidades – oferecidas pelos produtos digitais. Para além da discutida disputa entre o papel e o computador, a internet também transforma a indústria literária ao eliminar os intermediários e permitir que qualquer um possa comercializar sua obra de forma rápida e quase sem custos. Para escritores frustrados com a estrutura das editoras, ou em busca de democratizar seu conhecimento, a ascensão das plataformas de autopublicação cria um novo mercado. Cabe exclusivamente ao público,
então, decidir quem terá sucesso.

Por Júlia Matravolgyi | Para o Valor, de São Paulo

Natalia Montuori da Amazon: “Há palestrantes, por exemplo, que já possuem o conteúdo organizado, mas não têm meios de chegar às pessoas. A autopublicação facilita esse processo”

Assim como os jornais e as gravadoras, o mercado de livros enfrenta mudanças ao se deparar com a concorrência – e as possibilidades – oferecidas pelos produtos digitais. Para além da discutida disputa entre o papel e o computador, a internet também transforma a indústria literária ao eliminar os intermediários e permitir que qualquer um possa comercializar sua obra de forma rápida e quase sem custos. Para escritores frustrados com a estrutura das editoras, ou em busca de democratizar seu conhecimento, a ascensão das plataformas de autopublicação cria um novo mercado. Cabe exclusivamente ao público,
então, decidir quem terá sucesso.

A professora de história Janaína Bragança Bittencourt mudou de nome e profissão depois dos bons resultados obtidos na plataforma Kindle Direct Publishing, ou KDP, da gigante Amazon, sem depender da aprovação de um editor para que suas histórias chegassem ao público. Conhecida pelo pseudônimo Nana Pauvolih, ela agora se dedica exclusivamente à escrita de romances: só no ano passado, foram oito, que venderam mais de 20 mil cópias e, por isso, passaram a ser cobiçados por editoras de livros impressos.

O KDP, bem como seus concorrentes, permite que qualquer um publique seus textos sem custos e oferece ferramentas para deixar o produto com “cara” de livro – é possível produzir uma capa, pré-visualizar o resultado
final e formatar o arquivo, entre outras opções. A plataforma aceita documentos de qualquer editor de texto ou salvos em formato HTML, transformando o arquivo em e-book. O autor é o responsável por decidir o preço pelo qual o produto será comercializado (em geral, algo entre R$ 1,99 e R$ 10) e fatura 70% de royalties sobre o valor da venda, no caso de obras exclusivas, e 35% no caso de escritos publicados anteriormente.
No mercado de exemplares físicos, quando as editoras cuidam do design, revisão e divulgação do produto final, os autores recebem até 10% sobre o valor de capa.

“Há livros de todas as categorias, de ficção até aqueles para estudar para concurso público”, conta Natalia Montuori, gerente de KDP da Amazon no Brasil. Segundo ela, a plataforma funciona por que as pessoas têm histórias guardadas para contar, além de conhecimento que pode ser monetizado. “Há palestrantes, por exemplo, que já possuem o conteúdo organizado, mas não têm meios de chegar às pessoas. A autopublicação facilita esse processo”, diz.

Isso não quer dizer, claro, que todos os autores que publicam nessas formas obtenham sucesso ou publiquem obras de qualidade. “Nesse mercado, trata-se de uma questão mais comercial que editorial”, explica Carlo
Carrenho, consultor editorial e diretor do PublishNews. “As editoras não têm condição de dar vazão a todos os autores bons que aparecem”, explica. “Nesse caso, a autopublicação aparece como uma solução, pois diminui os custos com produção e elimina os gastos com impressão e distribuição”, diz.

Nana Pauvolih: “Recebo entre cinco e seis vezes mais que ganhava dando aulas. Às vezes, vendo 300 exemplares em um mesmo dia”

Foi esse o caso de Nana Pauvolih. “Escrevi minha primeira história aos 11 anos, mas nunca achei que pudesse viver disso, era um passatempo”, conta. Em 2012, já com 37 anos, a autora começou a publicar sua prosa por capítulos na internet e, percebendo a receptividade do público, procurou maneiras de lucrar com a divulgação do conteúdo. O pseudônimo foi escolhido para proteger sua identidade, uma vez que todos seus os textos são romances eróticos.

Em 2013, conheceu a Amazon e colocou alguns livros na plataforma.
“Quando comecei a ganhar mais com a venda dos romances que como professora das redes particular e pública, percebi que escrever poderia se tornar minha fonte de renda”, relata.

Os autores que optam pelas plataformas de autopublicação ficam encarregados também de fazer a divulgação de suas obras, bem como de cuidar de sua qualidade, investindo em revisão gramatical, por exemplo.
As redes sociais são aliadas bastante utilizadas para o contato com os leitores. Para Pauvolih, vale a pena: “Recebo entre cinco e seis vezes mais que ganhava dando aulas. Às vezes, vendo 300 exemplares em um mesmo dia”, diz. Ela interage diariamente com suas leitoras, que sugerem mudanças nas histórias e colaboram com a divulgação de seus lançamentos.

A fronteira entre os produtos físicos, digitais e autopublicados ainda é tênue, e muitos autores migram entre as plataformas dependendo do retorno do público. É o caso de Tatiana Amaral, administradora, que também trocou seu emprego pela escrita e hoje fatura cerca de dez vezes mais que seu salário anterior, além de coordenar uma pequena equipe que a ajuda na divulgação de seu trabalho. Dos sete livros que a autora já publicou pela Amazon, quatro saíram também impressos, devido aos bons resultados. “Muitas vezes, a renda da autopublicação permite mais investimento no próprio trabalho, o que resulta no aumento das vendas”, afirma Natália, da Amazon.

“A autopublicação é a melhor opção para quem está começando”, defende Tatiana. Entre os títulos mais vendidos por ela, está a trilogia “Função CEO”, cujo segundo volume da série, “A Descoberta do Amor”, ficou mais
de uma semana em primeiro lugar no ranking de vendas da loja Kindle brasileira. O terceiro capítulo manteve-se por semanas entre os mais vendidos do site, ainda durante a pré-venda. Tatiana não é exceção.
“Toda semana em média de 30 dos 100 mais vendidos da Amazon no Brasil são do KDP”, afirma Natália.

Os romances da professora Mila Wander também transitam entre plataformas: ela já tinha publicado “Meu conselheiro de luz” pela editora Novo Século antes de conhecer a Amazon. Já seus livros seguintes, “Despedida de Solteira”, “Dominados” e “O Safado do 105” foram publicados na forma física apenas depois da boa repercussão no digital. “O retorno financeiro dá ânimo ao autor que deseja sobreviver de literatura”, conta.

Além do sucesso, Nana, Tatiana e Mila e têm em comum o gênero literário: todas escrevem romances eróticos. “A plataforma acaba refletindo uma realidade. Como esse gênero está em alta, é a tendência do momento”, explica Natália, da Amazon. E.L James, autora do best seller “Cinquenta Tons de Cinza” (Editora Intrínseca), também começou sua carreira como uma autora autopublicada e já vendeu 6 milhões de cópias somente no Brasil.

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