A primeira feminista nascida no Brasil

A primeira feminista nascida no Brasil

 A primeira feminista nascida no Brasil Feminismo Artigo
Fonte: Sérgio Barcellos Ximenes do extinto Blog do Romance

Segundo alguns historiadores, a mais remota demonstração de um comportamento feminista numa mulher nascida no Brasil deve-se a Clara Camarão (início do século XVII-1648), índia desposada em 4 de março de 1612 por Poti, também chamado Felipe Camarão (1600-1648). Clara chefiou um grupo de mulheres na Batalha das Trincheiras, em Tejucupapo (1646), derrotando os holandeses que, pouco antes, haviam dizimado um grupo de homens da mesma aldeia.

Depois de Clara Camarão, os historiadores apontam como feminista a também potiguar Nísia Floresta Brasileira Augusta, cujo verdadeiro nome era Dionísia Gonçalves Pinto (1810-1885).

Nísia nasceu no município de Papari (RN), hoje Nísia Floresta. Casou-se aos 13 anos (1823), separou-se em poucos meses e, no ano seguinte, viajou com os pais para Pernambuco, vindo a se fixar no Recife. Com a morte do pai, em 1828, passou a morar com o grande amor de sua vida, Manuel Augusto de Faria Rocha, tendo com ele uma filha (Lívia Augusta, em 1830) e um filho (Augusto Américo), este no ano da morte do marido (1833).

Nísia começou sua atuação de feminista em 1831, escrevendo artigos sobre a condição da mulher para o jornal pernambucano Espelho das Brasileiras. Portanto, foi também uma das pioneiras da nossa imprensa, já que os jornais começaram a ser publicados no Brasil em 1816, apenas quinze anos antes. Mas a obra que a tornou pioneira no feminismo nacional foi a tradução livre de A Vindication of the Rights of Woman, da inglesa Mary Wollstonecraft. Mary publicou o livro em 1792, como uma resposta à Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembléia Nacional da França em 26 de agosto de 1789. No texto inglês, a feminista considerava as mulheres como uma classe oprimida, via na força física masculina a origem dessa opressão e propunha a igualdade de direitos entre os sexos, enfatizando que caberia à mulher instruir-se para lutar por esses direitos.

A tradução de Nísia, intitulada Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, saiu em 1832 no Recife. Seguindo um procedimento que não era incomum na época, Nísia adaptou livremente o conteúdo do livro de Mary à realidade brasileira, tratando das causas e das manifestações do preconceito contra a mulher em nosso país. A autora partiu da premissa da existência de capacidades iguais em ambos os sexos, para então defender a presença feminina em todas as áreas de atuação profissional, até mesmo em cargos de chefia, como o ministério e o generalato.

Nísia tinha 22 anos ao realizar sua “tradução”  incontestavelmente, o primeiro livro feminista publicado no Brasil. Se você quiser saber mais sobre a obra da autora, que também inclui um romance histórico, Dedicação de uma Amiga, publicado em 1850 (apenas seis anos após o lançamento de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo), clique num dos links da parte de Referências, mais abaixo.

Esta entrada pretende provar que cabe a outra mulher, praticamente desconhecida pelo nosso povo e pela nossa intelectualidade, a honra de ter sido a primeira feminista nascida no Brasil.

Sem desmerecer a memória de Clara Camarão, é importante lembrar que fazia parte da tradição indígena a mulher lutar ao lado do marido nas guerras da tribo. O feito histórico de Clara encontra-se tanto na coragem de ter assumido o comando de um grupo de mulheres guerreiras, quanto na demonstração de habilidade ao conseguir vencer uma batalha importante contra os invasores holandeses. Mas atribuir-lhe a condição de “primeira feminista” brasileira vai um pouco além da realidade.

Nísia, então, teria sido a primeira, por mérito, porque além de agir de modo autônomo numa época em que a mulher deveria demonstrar submissão aos homens, ela lutou no campo das idéias e divulgou argumentos fortes a favor da causa feminista. Seria, não houvesse existido antes dela a romancista Teresa Margarida da Silva e Orta, que foi tema da entrada anterior. Teresa, por direito histórico, merece o título de “primeira feminista nascida no Brasil”, porque lançou sua obra, Aventuras de Diófanes, em 1752, oitenta anos antes da publicação de Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, de Nísia Floresta.

 A primeira feminista nascida no Brasil Feminismo Artigo
       No romance Aventuras de Diófanes ¾ historicamente, o primeiro de todo e qualquer escritor nascido no Brasil ¾, Teresa Margarida divulgou suas idéias sobre a condição feminina e, em especial, sobre a situação das mulheres que viviam em Portugal, país onde morou desde os 6 anos de idade. Nesse texto, ela também expôs a sua visão de qual seria o lugar do sexo feminino num país bem governado.A forma encontrada para inserir essas idéias na trama respeitou a boa técnica. Durante a celebração do casamento de dois camponeses, os convidados dos noivos, depois de várias atividades recreativas, passaram a exibir suas habilidades pessoais, um de cada vez. Na vez de Delmetra (na verdade, Climinéia, mãe de Hemirena, que estava disfarçada como homem, de nome Belino), os convidados decidiram submetê-la a um jogo de perguntas, muito semelhante ao desafio de adivinhas que várias sociedades praticaram em casamentos e festas coletivas, desde o mais remoto passado.

Ao responder às perguntas, a personagem Delmetra, expressando as idéias da autora, encanta a todos com sua cultura e sensatez. Um dos temas em que mais se estende, e aquele em que expõe idéias mais ousadas para a época, é o da condição social feminina. Mais adiante, em outra cena da narrativa, Delmetra conversa sobre o mesmo tema com Antionor (na verdade, Diófanes, seu marido). Desses dois trechos foram retirados os pensamentos apresentados abaixo.

Teresa sugere que se deve considerar a situação da mulher a partir da realidade, sem falsas ilusões. Primeiro, portanto, é necessário reconhecer o motivo pelo qual as mulheres são oprimidas pelos homens (todas as citações que se seguem tiveram sua pontuação modernizada):

“A natureza dotou aos homens de mais forças, e as mulheres de mais sutileza de espírito.” (pp. 90-91)
“Eles vieram primeiro ao Mundo, fizeram as leis e tomaram para si as regalias; e já que são mais velhos, não há mais remédio que fazer gala da sujeição, viver com eles e ter paciência.” (p. 95)
“Não há entre eles e as mulheres mais diferença que terem eles mais forças para o trabalho e as campanhas, sendo tão dissolutos em suas ações que já se lhes dispensou o reparo público, e elas naturalmente dóceis, compassivas, mais sujeitas a encargos, e mais fortes e constantes na modéstia.” (p. 131)
“Os maiores trabalhos e desgraças que acontecem às mulheres são originados pelos enganos dos homens, que os cegos de amor ou de seus desordenados costumes lhes prendem a liberdade e as encaminham aos precipícios.” (p. 145)

Estes são os componentes da premissa inquestionável para a época: a superior força física dos homens, a dominação social imposta há muito às mulheres, e os privilégios masculinos garantidos por meio de leis. Resta às mulheres analisarem com objetividade os vários aspectos de sua situação e adotarem as estratégias individuais que lhes sejam mais úteis nesse contexto desfavorável.

E, nesse contexto, destacam-se os preconceitos sociais contra a mulher, que serão criticados pela autora:

“Assim como não há coisa mais amável que a bondade, não a há tão segura como uma inocente e dócil sinceridade, aplicando-se esta em repreender os Poetas, desmentir as fábulas e vencer a ignorância e a maldade que nos têm por inimigas do sossego público.” (p. 91)

Devolvendo a classificação pejorativa, Teresa denomina de “nossos inimigos”, isto é, inimigos das mulheres, os homens que se caracterizam por uma destas três atitudes:

1. A ignorância, simbolizada pelos autores de peças satíricas em que as mulheres são depreciadas no enredo. “As frases dos satíricos sempre são aplaudidas” (p. 91), e os “néscios” “fazem a vileza contagiosa” (p. 91). É mais grave essa atitude masculina “se os que tomam essa empresa têm tintura de Filósofos ou Poetas” (p. 91).

2. A maldade, que faz as mulheres serem vítimas de homens frustrados em suas iniciativas sociais ou profissionais. “Estes são como os cães que, mordidos por aqueles com quem foram entender, correm mordendo todos os que encontram.” (p. 91).

3. A loucura, motivo pelo qual “melancólicos furiosos” “declaram guerra a uma pessoa do nosso sexo”, “vendem a vingança como doutrina” e “procuram persuadir a todos que o menor espírito de todos os homens que há no Mundo tem melhores qualidades que os das mulheres mais capazes de todo o Universo.” (p. 91).

A depreciação das capacidades da mulher também foi identificada pela autora. “Potências”, na frase abaixo, está no sentido de “capacidades”.

“… o dizerem que as nossas potências são o refugo das suas, porque não sabemos entender, ajuizar, aprender, e queremos sempre o pior …” (p. 92)

Outro aspecto da situação é o tratamento reservado à mulher na intimidade do lar:

“Ouço a algumas que os maridos são tão arrebatados que nem os vizinhos podem sofrê-los [agüentá-los]; porque de coléricos passam a furiosos, que quando vêm para casa dão nos filhos, gritam com as mulheres, descompondo-as de feias e mal procedidas; outros, que desprezam o amor e o cuidado com que os tratam, e que só as vizinhas buscam alegres, servem cuidadosos e festejam com gosto, e se aproveitam das mulheres próprias para lhes fazerem o comer, criar os filhos e guardar a casa.” (p. 94)

Outra forma da opressão consiste no costume familiar de se impor um marido à mulher jovem. Teresa critica …

“… os pais que, cegos pela avareza e encantados pela suavidade de seus interesses, casam as filhas dotadas de vivacidade e mais graças do Céu com maridos cheios de vícios e achaques. Estas merecem que o aplauso universal lhes laureie o sofrimento, pois desde sua tenra idade se reservaram para amar um monstro, quando a lei da natureza permite desejarem bons maridos, e as do matrimônio exortam a sofrê-los.” (p. 95)

Nesse ponto, a autora faz questão de ressaltar um de seus temas preferidos, a dignidade feminina em meio ao sofrimento imposto pelas outras pessoas:

“Têm-se visto donzelas inconsideravelmente entregues pelos seus maiores a maridos tão asquerosos, que fora melhor conduzi-los ao leito [de morte] que encaminhá-los ao tálamo … mas nem assim deixam as prudentes consortes de lhes assistir, amá-los e curá-los, sendo este um dos milagres do nosso sexo.” (pp. 95-96)

Sempre demonstrando coragem intelectual, Teresa vai ao extremo de desqualificar uma determinada classe de homens:

“Alguns há tão faltos de espírito e capacidade que, se lhes tirassem um só grau, não lhes faltaria nada para brutos.” (p. 92)

E a romancista mostra de que lado se encontra nessa questão ao louvar o comportamento feminino, que sai vencedor ao ser comparado ao masculino ¾ exceto quando reproduz os ditames impostos pelos homens:

“Há sempre neles [homens] mais que repreender e nas mulheres muito que louvar, menos naquelas que muito os atendem, porque eles as arruínam.” (p. 92)

A necessidade imposta às mulheres de manter uma reputação social impecável merece vários comentários de Teresa:

“A murmuração pública não considera que haja quem possa dispensar os preceitos da modéstia a nenhuma casta de mulheres.” (p. 105)
“São infelizes as mulheres, que [pois] bastando que os homens sejam bons, elas não bastam que o sejam, porque é preciso que também o pareçam.” (p. 106)
“São contínuos os combates a que ordinariamente é sujeita a formosura e a discrição.” (p. 133)
“É tão melindrosa a estimação de uma discreta dama, que de muitos anos de cuidado perde o merecimento em um dia de descuido.” (p. 145)

A autora também ressalta a solidão em que vivem as mulheres, devido a essas exigências:

“É tão delicada a boa reputação das mulheres, que, para se conservar o culto que merece a sua estimável modéstia, não só devem ocultar bem nascidos pensamentos, mas nem confiá-los aos mesmos que muito estimam.” (p. 97)

“Aos mesmos que muito estimam” está por “pessoas amadas”, como, por exemplo, o marido.

Dentro desse contexto opressor, Teresa expõe a sua perspectiva da real condição feminina e a estratégia mais apropriada ao bem-estar das mulheres. Primeiro, ela afirma que não reconhece nenhuma diferença fundamental entre os membros dos dois sexos:

“As almas … foram igualmente criadas.” (p. 92)
“A disposição dos órgãos (de que dizem provém a bondade do espírito) é tão vantajosa nas mulheres como nos homens.” (p. 92)

Teresa vai além: também entre os membros das classes sociais não há diferença qualitativa. Eis o que ela afirma sobre os Príncipes:

“A natureza os organiza e anima iguais aos outros homens.” (p. 105)

Ou seja, todos os seres humanos são iguais, independentemente de classe social e sexo. Partindo dessa base, a romancista começa a afirmar o valor feminino em áreas de atuação masculina:

“São inumeráveis as heroínas que se têm visto tão inteligentes, que umas têm parecido milagre nas artes e outras têm dado a entender que eles julgam ignorância o que são efeitos da modéstia.” (p. 92)

Também aqui, Teresa demonstra ousadia ao escrever que, se forem dadas condições iguais a mulheres e homens, é possível que elas se mostrem mais capazes do que eles:

“Não resplandece em todas a luz brilhante das ciências porque eles ocupam as aulas, em que não teriam lugar se elas as freqüentassem, pois temos igualdade de almas e o mesmo direito aos conhecimentos necessários.” (p. 92)

E, se a mulher tem o mesmo valor que o homem, a atribuição de responsabilidades não deve se nortear pelo sexo, nem mesmo nos mais altos cargos:

“Para os encargos dos soberanos não há distinção de sexo.” (p. 143)

Parte importante das idéias sociais de Teresa consiste no que se poderia chamar de “conscientização” da mulher de sua época. Essa conscientização tem duas vertentes: primeiro, as mulheres devem reconhecer em seu comportamento as marcas da opressão masculina, recusando-se a se sujeitarem aos valores do outro sexo. Segundo, elas devem empreender ações de adaptação inteligente e de promoção de seus interesses, na medida do possível.

Teresa contextualiza suas críticas ao afirmar:

“Tem sido o meu empenho advertir-lhes os defeitos, que em muito poucas se acham.” (p. 91-92)

Nessas, critica o apelo à beleza física para se destacarem aos olhos dos homens, usando, entre outros recursos, …

“… a eleição das cores [maquiagem], com que pintam a formosura, pois gastam a maior parte do dia em contínuas transformações, sem chegarem a conhecer que o natural lhes está melhor; e assim passam de desejo a desejo, querem e não querem, mancham-se e desmancham-se …” (p. 89)

Lembra a autora:

“A formosura do rosto apenas nasce, tem mil contrários que a arruínam.” (p. 89)

Também a vaidade centrada no vestuário recebe críticas da romancista:

“Há mulheres na Corte que, em oitenta anos que viveram, nunca tiveram mais aplicação que a dos seus enfeites.” (p. 90)

A necessidade de serem apreciadas e amadas reflete-se também no comportamento feminino exibido nos encontros sociais:

“Este mal inveterado se acha nas mulheres que tomam lições no seminário da vaidade … ” (p. 89)

Entre outras “lições” estão os “bailes, recreios e conversações” (p. 89). Neles, as mulheres …

“… falam muitas ao mesmo tempo, umas em dilatados cumprimentos, outras repetindo histórias mal aplicadas, com as quais pretendem os créditos de entendidas; outras se fingem de sábias, falando nos Escritores, e dando a arte aos Poetas.” (p. 89)

A ânsia de impressionar leva às vezes ao efeito oposto porque, segundo Teresa, …

“… o muito falar, ou descobre toda a capacidade ou publica a indiscrição que estava oculta.” (p. 106)

Quando se obtém o efeito desejado, a vaidade fica satisfeita:

“Recebem uma glória esquisita em terem escravos que mais estimam as prisões que desejam a liberdade.” (p. 90)

Mas quem as aprecia por esses motivos pode ter outras intenções em relação a elas, e talvez as apreciem justamente por isso:

“O amor em algumas procede mais da vaidade do espírito que da fragilidade, porque se pagam do aplauso dos que só as estimam por seus interesses.” (p. 89)

Assim, quanto a essas, Teresa alerta-as contra o excesso de conversas com o sexo oposto:

“Mais quisera que elas se divertissem na conversação do mesmo sexo que admitirem os homens, porque são grandes os danos da ocasião.” (p. 89)

Só desse jeito elas ficarão livres dos interesseiros, porque …

” … as mais das vezes, não se louvam aquelas formosuras com prodigalidade tão nobre, que não esperem o prêmio de tais louvores.” (p. 89)

Os elogios e a admiração geralmente amolecem o coração feminino …

“A vaidade e o amor-próprio … concorrem para serem com muita leveza crédulas.” (p. 89)

… a um ponto de não haver como evitar a entrega.

“As discretas submissões, as súplicas repetidas, e bem ornadas poesias costumam abalar os montes.” (p. 90)

Quando casadas, muitas percebem que a felicidade estava apenas na imaginação. Chovem queixas masculinas, …

“… dizendo de algumas que são preguiçosas, desgovernadas, pouco limpas, desconfiadas, faladoras e bravas.” (p. 94)

Três tipos de homens, em especial, causam sofrimento às esposas:

“É tão grande a infelicidade das mulheres, que se por sorte o [marido] que lhes cabe é néscio, colérico ou zeloso, não só lhes é preciso todo o sofrimento para os ouvir, mas também muito para os ver.” (p. 94)

Segundo Teresa, aos néscios, “não os convencem ajustadas razões”; os coléricos “nunca se emendam do que se lhes diz”; e os zelosos, “pelo caminho de as guardar, as levam a desesperar.” (p. 94)

Ainda quanto aos últimos, os ciumentos, eles não conseguem perceber que …

“… o melhor modo de as ensinar a serem honestas é fazendo delas inteira confiança.” (p. 94)

Aconselha Teresa, nesse caso:

“Se os vossos maridos caírem nessa perigosa doença, por compaixão lhes tirai toda a ocasião que possa alterar as suas imaginações. O recato é o remédio que só pode moderar tanto mal, porque os indícios costumam perturbar a razão, ainda aos mais nobres sujeitos.” (p. 93)

E se a própria mulher sentir-se enciumada do marido, …

“… quando para tão grande mal tenhais causa conhecida, não vos queixeis com indiscretos excessos … ” … porque … “… o desafogo das palavras não é mais que fartar de água na força da sezão, que não só não a cura, mas a aumenta”. “O silêncio, a prudência e o sofrimento costumam repreender severamente os culpados, e a indústria e discrição vos devem revestir de agrado; com o quê vereis ou animar-se o amor ou infundirdes respeito.” (p. 93)

Outra estratégia sugerida pela autora, agora para as mulheres que estão vivendo com um homem “asqueroso”:

“Para evitar o trabalho de desunião, que entre estes é mais ordinária, não há remédio melhor que o de abraçarem os gênios dos maridos, que em lhes ganhando uma vez os corações, não se verá que resistam às vontades das mulheres; e com esta indústria haverá entre eles aquela obediência que é como a liga admirável, que enlaça tão estreitamente que há trabalho em discernir o que obedece ou o que manda.” (p. 96)

Ainda no capítulo da estratégia possível à mulher, dentro do contexto de opressão, Teresa sugere:

“A mulher discreta não deve querer mais que o que permitirem as posses do marido, ensiná-lo a ser moderado, sofrendo com galantaria as suas incivilidades, calar o que suspeitar e dissimular o que souber.” (p. 95)

Em todos os conselhos e durante toda a trama de Aventuras de Diófanes este tema se destaca: a dignidade em meio ao sofrimento causado pelo destino e à opressão imposta pelos seres humanos. Jamais Teresa aceita, em sua filosofia ou nas reações de seus protagonistas, que a indignidade alheia seja motivo para que a vítima também adote comportamentos indignos ou baixos. O livro bem poderia ter como subtítulo: “O Elogio da Dignidade”.

“Nunca a pobreza deve fazer tão violento efeito no sofrimento das mulheres, que hajam de obrar ação indigna.” (p. 95)

Teresa procura deslocar o centro de avaliação do comportamento feminino, do meio social para a própria consciência da mulher:

“Digam o que quiserem, e fazeis vós o que deveis.” (p. 92)

A recompensa pode demorar, mas decerto virá:

“As que souberdes encher as vossas obrigações, não achareis entre os bons algum, por mais insensato que seja, que vos negue a veneração.” (p. 92)

A romancista adverte contra determinadas amizades femininas:

“Entre as mulheres se devem escolher as que forem graves e comedidas, porque àquelas que não têm estas circunstâncias sucede algumas vezes serem mais prejudiciais que os homens.” (p. 89)

Isso porque …

“Há mulheres que, em acabando os primeiros cumprimentos, já não querem mais que dizer mal e falar em enfeites e outras semelhantes ninheiras.” (p. 90)

No relacionamento social, Teresa aconselha às mulheres …

“… um espírito aprazível e modesto que, com suavidade, as faz amáveis e tão poderosas”. (p. 89)

Para lidar com a opressiva exigência de boa reputação, num mundo em que é preciso “temer o veneroso afeto dos homens” (p. 145) …

“… o recato é o melhor dote das mulheres, com que as formosas adquirem adorações, as bem parecidas amor, e as feias estimação.” (p. 145)

Quando não houver o que falar, é mais útil …

“… recomendarem-se ao silêncio, que costuma alegar a seu favor.” (p. 89)

A moderação é outra virtude louvada, tanto nos desejos e intenções …

“As que desejam mais que o que lhes permite a sua esfera, estado e possibilidade, têm mais um inimigo para vencer o seu coração.” (p. 89)

… quanto no comportamento …

“É só bela e admirável a que se adorna de prudente moderação em todas as suas ações e palavras.” (p. 91)

… assim como no relacionamento com pessoas que as prejudicam …

“A mais rude está em mais alto grau que todos eles [os homens que prejudicam as mulheres], só em conservar a sua moderação e constância em desprezá-los.” (p. 92)

… ou mesmo na avaliação do comportamento alheio, quando desprezível …

“É em todas [as casadas e as donzelas] conveniente uma discreta elevação, com que não estimem as liberalidades nem queiram mais grandezas que o desprezá-las.” (p. 89)

Além de estratégias de adaptação possível ao meio social onde vivem, Teresa apresenta às mulheres um conjunto de recomendações para a sua promoção na sociedade. Assim como “moderação” e “dignidade” são conceitos-chave no âmbito social, “instrução” e “trabalho” são conceitos-chave no esforço de aprimoramento pessoal. Nesse aspecto, os livros têm uma função única:

“É cousa lastimosa que deixemos de enriquecer-nos dos conhecimentos necessários com a leitura de bons livros, que são companheiros sábios de honesta conversação.” (p. 90)

Teresa louva a “celestial ambrosia que nos livros se acha” (p. 90), mas recomenda seletividade no trato com eles:

“Nem digo que seja útil o lerem toda a casta de livros, pois são perniciosos os que tratam das paixões que insensivelmente costumam introduzir-se nos ânimos” (p. 90), já que “… [as] paixões ardentes … arruínam o entendimento.” (p. 91)

Revelando os dois conceitos-chave (instrução e trabalho) que norteiam seus conselhos nessa área, Teresa recomenda, quanto aos livros:

“… basta que nos apliquemos aos que nos enchem de documentos admiráveis e fazem temer os efeitos do ócio.” (p. 90)

A autora escreve sobre os beneficios que a leitura trará às mulheres:

“Na gostosa fadiga dos estudos tem a maior glória o entendimento, vendo pela memória desterradas as trevas da ociosidade e ignorância, tirando os melhores exemplos da perfeição.” (p. 90)

“Ociosidade e ignorância”: situações opostas ao trabalho e à instrução.

Os livros são instrumentos essenciais na educação infantil, daí o conselho aos pais para fazerem com que as crianças …

“… amem os livros, dos quais se fazem os tesouros mais seguros.” (p. 100)

Ainda no capítulo “instrução”, lê-se uma frase difícil de imaginar na boca (ou na pena) de uma mulher setecentista:

“Nós não temos a profissão das ciências nem obrigação de sermos sábias, mas também não fizemos votos de sermos ignorantes.” (p. 90)

Mais uma vez, são recomendados a moderação e o avanço possível:

“Não digo que sejam sábias como as Musas e Sibilas, mas que, conforme a sua esfera e possibilidade, se apliquem às ciências e ao que sirva para a boa direção dos costumes.” (p. 90)

E se a instrução não pode ser o centro da vida feminina, que o seja o trabalho:

“Vós, serranas, que não podeis instruir as filhas nas ciências, basta que não as deixeis viver ociosas, pois é tão precioso o costumá-las com o trabalho cotidiano, como ao lavrador o arado e o militar as armas.” (p. 90)

Assim, Teresa faz sua personagem confessar:

“Eu só estou mal com as camponesas que não cuidam mais que em comer, dormir e falar.” (p. 92)

Outra frase muito além de seu tempo, quando aplicada às mulheres:

“Viver é trabalhar.” (p. 91)

Partindo desse pressuposto, Teresa critica as …

“… mulheres que só exercitam o inútil.” (p. 91)

… e adverte que …

“… são incuráveis os males que produzem pensamentos levianos e momentos ociosos.” (p. 92)

Os pensamentos e as idéias reproduzidas acima parecem qualificar Teresa Margarida da Silva e Orta como a primeira feminista nascida no Brasil.

Para a época em que viveu, sua visão das potencialidades da mulher, sua denúncia da brutalidade do comportamento masculino e sua proposta de promoção social da mulher por meio do trabalho e da instrução estavam muito além da mentalidade do tempo ¾ não importa que, no relacionamento social, Teresa só tenha vislumbrado como alternativa eficiente uma adaptação baseada na idéia conservadora de “dos males, o menor”. Cabe a pergunta: havia outra opção? Talvez sim, como Teresa provou com sua própria vida. Mas, certamente, seu caminho era para poucas.

Na vida real, Teresa demonstrou um comportamento muito mais agressivo do que o proposto às suas irmãs de condição em Aventuras de Diófanes, como vimos nesta entrada. E, a valer o relato do pai no testamento, o comportamento de Teresa não respeitou os limites da dignidade, uma das bases da pregação de autora. Mas só tivemos acesso, até agora, à versão de um lado desse conflito familiar.

Por tudo quanto foi mostrado nas três entradas anteriores e nesta página, não se justifica o ocultamento da importância desta escritora na história tanto do feminismo quanto da nossa literatura e, especialmente, na história do romance nacional. Gênero que, como se depreende com facilidade, começou muito mais ousado, criativo e desafiador da ordem constituída do que supõe quem aceita a cronologia tradicional, abonadora da condição de pioneiro a Joaquim Manuel de Macedo, autor do simpático mas ingênuo A Moreninha.

E, para quem gosta da história do romance nacional, Obra Reunida, de Teresa Margarida da Silva e Orta, é um item indispensável na estante de livros.

Referências
Dados Biográficos no site da Editora Mulheres
Humanismo e Feminismo no Brasil do Século XIX, de Constância Lima Duarte
Memória Viva de Nísia Floresta, no site “Memória Viva”
Nísia Floresta – Bibliografia, no site “Amamentação Online”
Nísia Floresta Brasileira Augusta, no site do “Jornal de Poesia”
Nísia, uma alma brasileira, no site da Fundação Memorial da América Latina
“Obra Reunida”, Teresa Margarida da Silva e Orta, Ceila Montez (pesquisa e organização), Graphia Editorial, 1993
Texto on-line de “Aventuras de Diófanes” no site da Biblioteca Nacional
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