A premiada autora infantil Ruth Rocha diz: “Harry Potter não é literatura”

A premiada autora infantil Ruth Rocha diz: “Harry Potter não é literatura”

Antes de começar a escrever, Ruth Rocha, autora de mais de 120 livros infantis, gostava mesmo era de contar histórias para sua filha. Foi ao ouvir um dos contos que inventava na hora para a sua criança — “minha filha falava: ‘agora conta uma história sobre aquele pote’” — que uma amiga, editora da revista “Recreio” nos anos 1960, teve a ideia de pedir um texto para Rocha. “Eu falava que não sabia escrever ficção, mas um dia fui na casa dela, ela me trancou e só me deixou ir embora depois que eu entregasse o texto”, conta rindo em entrevista ao parceiro iG.

Publicado no Tribuna da Bahia [ via IG]

Antes de começar a escrever, Ruth Rocha, autora de mais de 120 livros infantis, gostava mesmo era de contar histórias para sua filha. Foi ao ouvir um dos contos que inventava na hora para a sua criança — “minha filha falava: ‘agora conta uma história sobre aquele pote’” — que uma amiga, editora da revista “Recreio” nos anos 1960, teve a ideia de pedir um texto para Rocha. “Eu falava que não sabia escrever ficção, mas um dia fui na casa dela, ela me trancou e só me deixou ir embora depois que eu entregasse o texto”, conta rindo em entrevista ao parceiro iG.

Ruth Rocha comemora, a partir do ano que vem, os 50 anos de seu casamento com a literatura. A festa de bodas de ouros terá as adaptações teatrais das histórias “O Reizinho Mandão”, “Dois Idiotas Sentados Cada Qual em seu Barril” e “Romeu e Julieta”. A estreia do documentário e exposição “Ruth Rocha 50 anos: A Aventura de Ler” completam a celebração.

A comemoração não poderia ser pequena, uma vez que tramas suas como “Marcelo, Marmelo, Martelo” e “A Primavera da Largatinha” formaram o gosto pela leitura e alegraram a infância de pelo menos duas gerações. “Ouço sempre histórias de gente que aprendeu a ler com os meus livros e agora leem para seus próprios netos”, ela comenta.

Aos 84 anos e com o livro mais recente, “Solta o Sabiá”, lançado em 2012, Ruth está longe de se aposentar, mas também não está planejando novas histórias para um futuro próximo. Ela tem se dedicado a sua coleção de livros para educação infantil “As Pessoinhas” e para o relançamento de seus livros, principalmente a série “O que é O que é?”.

A autora, porém, também não se mantém longe do universo infantil e não tem papas na língua na hora de massacrar os atuais best-sellers infanto-juvenis. “Não é literatura, é tudo besteiras”, a paulista diz. “Não acho errado ‘Harry Potter’ fazer sucesso, mas não acho que seja literatura”, categoriza. Ela também ataca a falta de incentivo dos pais na hora de levar os filhos a uma livraria: “vejo pais gastando R$ 1 mil em um celular, mas não R$ 1 mil em livros”.

iG: Foi difícil começar a escrever para crianças?
Ruth Rocha: Foi uma coisa fácil e natural para mim. Sei que é difícil, porque sei o quanto que a gente erra. Para mim foi uma coisa mais ou menos natural. Aconteceu, porque eu tinha uma amiga que fazia a revista “Recreio” e ela começou a insistir para eu escrever história. E eu dizia para ela que eu não sabia escrever e ela pediu que eu colocasse no papel as histórias que eu contava para a minha filha. Um dia fui na casa dela e ela me sentou lá, me trancou e fez eu escrever.

iG: Então você criava histórias para a sua filha?
Ruth Rocha: Minha filha pedia para eu inventar história. Ela dizia assim: “Eu quero a história daquele pote”. Um dia, ela me perguntou porque o preto é pobre, tive uma conversa com ela e escrevi “Romeu e Julieta” para ela. Na verdade, a minha formação é sociologia, eu tenho esta coisa com preconceito me incomoda muito. Neste dia eu fiz essa história por causa da minha filha.

iG: Você disse que os escritores infantis erram bastante. Que tipo de erro é mais comum?
Ruth Rocha: Há vários. Um deles é achar que a criança é muito pequena e não sabe nada. O outro é achar que ela é grande e sabe tudo [risos].

iG: Você está completando 50 anos de carreira. Acha que a criança mudou muito desde quando você começou a trabalhar, nos anos 1960?
Ruth Rocha: Olha, o que eu sei é que o meu livro que mais vende é o “Marcelo, Marmelo, Martelo”, um dos primeiros que eu lancei, em 1969. E até hoje, quando saiu em livro, começou a vender muito. A criança não muda tanto assim. O que mudou muito são os adolescentes. Porque o adolescente é quando se abre o leque da personalidade. E quando são crianças eles são muito parecidos.

iG: Mesmo com a tecnologia?
Ruth Rocha: São instrumentos, o iPad, o iPhone são instrumentos para as pessoas agirem. Precisam de mudanças muito profundas. A tecnologia é boa e é ruim. Tecnologia é bom, mas o uso dela precisa ser mediado por uma educação boa. E a educação está meio frouxa. A família não está educando muito, a escola não tem condição. A gente precisa de uma revolução da educação.

iG: O que acha destes novos best-sellers, que misturam fantasia, com a presença de vampiros e bruxas?
Ruth Rocha: Isto não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar. Criança deve ler tudo, o que tem vontade, o que gosta, mas eu sei que não é bom. O que eu acho que é literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova. Esta literatura com bruxas é artificial, para seguir o modismo. Acho que o Harry Potter fez sucesso e está todo mundo indo atrás.

iG: Então você não gosta de “Harry Potter”?
Ruth Rocha: Não acho errado os livros fazerem sucesso. Eu gosto porque acho que as crianças leem, mas eu não gosto de ler “Harry Potter”, não acho que é literatura.

iG: Qual você acha que é um livro infantil de qualidade?
Ruth Rocha: Eu, na verdade, leio muito mais livros para adulta. Todo mundo acha que eu ainda tenho criança dentro de mim [risos], mas na verdade sou adulta, até velha. Mas o ganhador do Jabuti de 2014 [“Breve História de um Pequeno Amor”, de Marina Colasanti] é uma obra muito bonita.

iG: Como você acha que é a melhor forma de incentivar uma criança a ler?
Ruth Rocha: A criança tem que ser estimulada. Você tem que conversar com a criança, cantar muito com ela, ensinar versinhos, contar histórias desde que nasce. Porque a leitura é um complexo que compreende de ler, escrever, entender. É importante criar a criança para ler bem. Ter vários livro no alcance da criança. Vejo muita gente comprar um celular para a criança, que custa cerca de R$ 1 mil, mas nunca vi um pai gastar R$ 1 mil em livros. Outra coisa muito importante a ler é o evento. A criança passa muito tempo brincando de ser grande. De ser bombeiro, médico… Elas imitam os adultos, então é importante que em uma casa as pessoas leem, que cultivem a cultura. Agora se ela vai ler mesmo, eu não posso garantir [risos]

iG: Os seus livros fizeram a infância de muitas pessoas. Você já ouviu algum tipo de história que te emocionou?
Ruth Rocha: Uma vez uma família de negros que disse que sou a autora que mostra negros em suas histórias e isso foi emocionante para mim. Mas já ouvi muita gente que aprendeu a ler com os meus livros, que agora eles mesmos leem para seus netos… Há 50 anos ouço isso e cada vez eu fico mais emocionada.

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