A Ficção Científica em Lovecraft – Robert Silverberg

A Ficção Científica em Lovecraft – Robert Silverberg

Estive relendo recentemente “The shadow out of time”, uma história que encontrei pela primeira vez no distante ano de 1947, quando eu tinha 12 anos, na maravilhosa antologia de Donald A. Wollheim sobre os romances de Lovecraft.

Como já disse mais de uma vez, ler essa história mudou a minha vida e agora, com uma nova edição sendo publicada, quero falar sobre isso novamente.

Estive relendo recentemente “The shadow out of time”, uma história que encontrei pela primeira vez no distante ano de 1947, quando eu tinha 12 anos, na maravilhosa antologia de Donald A. Wollheim sobre os romances de Lovecraft.

Como já disse mais de uma vez, ler essa história mudou a minha vida e agora, com uma nova edição sendo publicada, quero falar sobre isso novamente.

O livro de Donald continha quatro histórias curtas de Ficção Científica: H. G. Wells – “The First Man in the Moon”, John Taine – “Before the Dawn”, Olaf Stapledon – “Odd John” e o romance de Lovecraft. Cada uma, do seu jeito, contribuiu para dar forma à imaginação do jovem que iria crescer e escrever centenas de histórias de ficção.

Stapledon falava diretamente para mim, que era, nas circunstâncias, um garoto peculiar, cercado por gente normal; Wells abria meus horizontes para as viagens através do espaço; Taine me propiciava uma viva recriação da era mezozóica, que como a maioria dos garotos da minha idade, era obcecado por dinossauros e desesperadamente queria experimentar tudo isso. Mas foi Lovecraft, eu penso, que teve o impacto mais significativo no desenvolvimento das minhas intenções como um criador de Ficção Científica (FC).

Havia uma qualidade visionária que me maravilhava e eu desejava escrever como ele, porém, sem habilidade para fazê-lo quando tinha 12 anos, tinha que me satisfazer escrevendo péssimas imitações dele.

Devotei muito esforço por muitas décadas até poder criar histórias que se aproximassem da grandeza de Lovecraft.

Note que eu me refiro a “The shadow out of Time” como FC, e que Donald incluiu em sua coletânea, explicitamente chamada “Romances da Ciência”, apesar de Lovecraft ser convencionalmente considerado como um escritor de histórias de terror. E ele era. A maioria de suas melhores histórias são de terror, de fato, geravam o mesmo estranhamento especulativo utilizado em FC nos trabalhos de Robert A. Heinlein, Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.

A grande diferença é que para Robert, Isaac e Arthur, a ciência é excitante e maravilhosa, enquanto que para Lovecraft, a ciência é fonte para o terror.

Porém, uma história que é dirigida pelo temor à ciência ao invés da admiração não é menos FC.

E era o que a ficção de Lovecraft também fazia. “Elder Gods of the Cthulhu” não são nada mais do que alienígenas de outra dimensão que vêm invadir a Terra e este é um tema clássico de FC.
Outras histórias de Lovecraft como “The Rats in the Walls” e “The Colour out of Space” podem, também, ser consideradas FC.

Ele não estava particularmente interessado nos impactos da tecnologia na vida dos seres humanos, em escrever sátiras sócio-políticas do tipo de George Orwell ou em inventar engenhocas. Para ele, a ciência era fonte de visões aterrorizantes. Que terríveis segredos jaziam enterrados no distante passado? Que terríveis transformações o futuro nos traria? Desta forma, ele via os segredos como abominações, assim como as transformações, o que garantia que fazia parte do gênero de horror e o afastava do espectro da FC, como a de Arthur, Isaac e Robert.

É interessante perceber que a maioria das primeiras ficções de Lovecraft apareceram pela primeira vez na revista pioneira de horror e fantasia chamada Weird Tales, “The Shadow out of Time” já havia sido, apropriadamente, publicada primeiro em junho de 1936, na revista Astounding Stories, que era a revista dominante em FC na época e que lançara escritores importantes como John W. Campell, Jack Williamsom e E. E. Smith.

Devo ressaltar que o editor da Astounding Stories, F. Orlin Tremaine, não estava satisfeito de expor seus leitores, acostumados a uma prosa de ficção bastante básica ao estilo mais elegante de Lovecraft. Tremaine submeteu “The shadow out of Times” a diversos cortes e edições na tentativa de homogenizá-la, tornando-a mais familiar aos seus leitores. Desta forma, cortando rudemente os parágrafos cuidadosamente escritos pelo estilo de Lovecraft. Assim também alterou pontuações e removeu deliciosos arcaísmos do vocabulário. Esta versão foi reimpressa muitas e muitas vezes durante anos, mas agora, uma nova edição está para ser lançada, baseada nos manuscritos originais de Lovecraft que, inesperadamente, apareceram em 1995.
A nova edição, pelos editores S.T. Joshi e David E. Shultz, publicada com elegante acabamento pela Hipocampus Press, traz uma deliciosa ilustração de um ‘monstro olhudo’, conforme apareceu no original de 1936.

Apesar da revisão de Tremaine, alguns leitores da Astounding ainda achavam Lovecraft ótimo, mesmo para a sensibilidade de 1936. Reações a essa história foram, geralmente favoráveis, conforme podemos ver nas cartas dos leitores publicadas em agosto de 1936.

É claro que eu não tinha idéia que Tremaine havia mexido no estilo de Lovecraft quando li a história pela primeira vez, onze anos depois de sua primeira publicação. Apesar disso, posso ver agora, na nova versão, o poder notável que foi retirado daquele texto pelos cortes de Tremaine. Talvez o uso de parágrafos menores tivesse tornado mais fácil o entendimento para alguém na pré-adolescência. Em todo caso, em 1947, eu achei que “The shadow Out of the Time” era a melhor coisa que eu havia lido.

A passagem-chave para mim está no quarto capítulo, em que Lovecraft conjura uma visão inesquecível de um ser gigantesco movendo-se em uma estranha biblioteca cheia de horríveis anais de outros mundos e de outros universos junto a seres sem forma que viviam em outros universos. Eram as descrições desses outros seres que haviam povoado o mundo em um passado esquecido, e as crônicas assustadoras de grotescas inteligências que viveram milhares de anos depois da morte do último ser humano.

Eu queria, apaixonadamente, explorar aquela biblioteca, e sabia que não podia. Eu queria saber mais a respeito dos pré-humanos hiperboreanos, dos construtores de Tsathoggua e sobre todos os abomináveis Tcho-Tcho que Lovecraft escolhera me contar, sem falar que eu me depararia com a mente de Yiang-Li, o filósofo do cruel império Tsan-Chan que vivera no ano cinco mil depois de Cristo ou conhecer o rei de Lomar, que governara a terrível terra polar por cem mil anos antes que os ynutos amarelos viessem do oeste e os invadissem.

Devo ter lido esta página do conto de Lovecraft dez mil vezes, é a página 429 da antologia de Donald e é a página 56 da nova edição. E, mesmo agora, relendo-a esta manhã, senti-me quixotesco procurando absorver cada palavra dela, sentindo o mesmo encantamento que comecei a conhecer sobre os mistérios de reinos imaginários perdidos do passado e do futuro.

O que é extraordinário em Lovecraft, em “The shadow out of time” é a sensação de uma história alternativa da terra, diferente do que estudamos, dos trilobites se tornando anfíbios e répteis até os primitivos mamíferos que me recordam a quarta série, mas o selvagem zigue-zague de espécies pré-humanas e raças alienígenas vivendo em nosso planeta bilhões de anos antes do nosso tempo, seres que não deixaram o menor traço ou fóssil mas em quem eu desejava de todo coração acreditar.

É a última palavra em fantasia arqueológica, pois o protagonista de Lovecraft nos leva direto às ruínas de uma cidade que, na sua história, ao menos, permanece conservada na remota Austrália. É aqui que o caminho escolhido por Lovecraft faz o horror emergir da ciência.

Para o narrador, assim como qualquer arqueólogo que eu já conheci, é bastante assustador aproximar-se deste estranho mundo. Ele é visitado nos sonhos por visões que agora ele passa a viver no mundo real, “idéias e imagens de um terror absoluto surgem para mim, e obscurecem meus sentidos”; ele parece achar que conhece aquela cidade em ruínas, pois a viu em seus sonhos. Sua sanidade se esvai. Ele luta contra ondas de pavor que o cercam de forma inimaginável, de uma maneira que se pode esperar apenas de um conto escrito por Lovecraft.

Eu também ficaria por demais assustado se eu me encontrasse raptado telepaticamente e atirado em uma civilização de 150 mil anos atrás, como o protagonista. Porém, uma vez de volta, perceberia que eu consegui sobreviver a tudo. Eu me lembraria de tudo pelo encantamento, não por causa do monstruoso, apavorante, terror lovecraftiano; se eu tropeçasse nos arquivos dessa civilização perdida.

Mas se “The shadow Out of Time” é exagerada, ela é gloriosamente exagerada, até quando tenta nos assustar. Ela cria uma sensação, pelo menos enquanto se lê, que a História não começou nas cavernas conforme a nossa ciência conta, mas que o mundo já existia num passado incalculável quando o homem evoluiu e a povoou diversas vezes, junto a outras raças inteligentes, muito antes do primeiro mamífero sequer ter aparecido.

Isto é que é maravilhoso na Ficção Científica.

Eu convoco você a procurá-la para ler. Nela, Lovecraft nos faz testemunhas de uma escavação do nosso passado há cento e cinqüenta milhões de anos atrás, a maior de todas as descobertas arqueológicas, talvez a maior de todos os tempos. A tumba de Tutancâmon foi feita apenas há uma fração de segundos atrás, se comparada.

Eu me sinto de volta a quando tinha 12 anos, novamente relendo hoje esta estonteante história, e penso que poderia ter sido verdade.

Fonte: aqui

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