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A ditadura argentina aos olhos dos escritores

Uma lista de e sobre a literatura argentina sem as presenças de Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares é algo inusitado. Mas aqui tratamos justamente do Golpe Militar vivido pela Argentina há exatos 40 anos. E, assim, precisamos lembrar que Borges vivia em jantares com militares e Casares não largava sua pose encastelada.

Apesar das ausências ilustres, aqui temos oito obras que mostram a importância da literatura para tensionar e nos ajudar a entender nossos processos históricos:

Uma lista de e sobre a literatura argentina sem as presenças de Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares é algo inusitado. Mas aqui tratamos justamente do Golpe Militar vivido pela Argentina há exatos 40 anos. E, assim, precisamos lembrar que Borges vivia em jantares com militares e Casares não largava sua pose encastelada.

Apesar das ausências ilustres, aqui temos oito obras que mostram a importância da literatura para tensionar e nos ajudar a entender nossos processos históricos:


 

1 – Alvo noturno – Ricardo Piglia

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Respiração artificial é, sem dúvida alguma, não apenas o mais famoso livro de Piglia, também um dos mais importantes romances da literatura hispano-americana. Mas com Alvo noturno temos o autor fazendo o que sabe de melhor: um suspense cheio de pistas falsas e que, mesmo sem tocar diretamente em questões políticas, aponta o quanto a virada entre os anos 1970 e 1980 é chave para entendermos a crise moral do seu país.

 

2 – Voltar a Palermo – Luzilá Gonçalves Ferreira

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A escritora pernambucana usa o artifício de um romance conturbado, perdido no tempo, para traçar um dos capítulos mais sangrentos da história recente do continente. Ao retornar ao bairro portenho de Palermo, a narradora percebe que a memória é como o cheiro de algo ou alguém, ou seja: algo impossível de ser ignorado.

 

3 – Tempo passado – Cultura da memória e guinada subjetiva – Beatriz Sarlo

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Sarlo é uma notória crítica do kirchnerismo. Certa vez, foi convidada para um almoço “agregador” na Casa Rosada. Durante o encontro, a então presidenta Cristina Kirchner comentou que o país precisava de mais intelectuais e que, devido às milhares de mortes da ditadura, uma geração de “cérebros” havia se perdido. “Mortos, sim, mas não há como saber se entre os mortos havia uma geração de pensadores”, respondeu Sarlo. Nessa obra, a crítica fala do quanto o relato em primeira pessoa foi importante para traçar a narrativa do massacre promovido pelos regimes políticos da América Latina, mas alerta a tendência da memória em fabricar lendas.

 

4 – Purgatório – Tomás Eloy Martinez

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O primeiro parágrafo do romance de Martinez fala por si: “Simón Cardoso estava morto fazia trinta anos quando Emilia Dupuy, sua esposa, encontrou-o na hora do almoço no salão reservado do Trudy Tuesday. Dois desconhecidos conversavam com ele num dos boxes do fundo. Emilia pensou que tivesse entrado no lugar errado e seu primeiro impulso foi retroceder, afastar-se, voltar para a realidade de onde vinha. Perdeu a respiração, a garganta ficou seca, e teve de se apoiar no balcão do bar. Passara a vida toda a sua procura e imaginara a cena inúmeras vezes, mas, agora que ela acontecia, dava-se conta de que não estava preparada.”

 

5 – Alguém que anda por aí – Julio Cortázar

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O exílio é uma palavra fundamental para entendermos Cortázar. É o caso, por exemplo, do seu conto mais famoso, Casa tomada, em que os personagens se deparam com um processo de autoexílio dentro do próprio lar, atingido por uma estranha força opressora. Nesse livro dos anos 1970, encontramos seu conto mais contundente sobre os desaparecidos da ditadura argentina, Segunda vez, que deixa claro o quanto os autores hispano-americanos já lançaram mão do torpor kafkiano.

 

6 – Os Lemmings e outros – Fabián Casas

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Até agora essa é a obra solitária de Fábian Casas lançada no Brasil. São histórias nostálgicas, trágicas em sua ironia, como um episódio do seriado Anos incríveis. Vale destacar a definição matadora de um dos contos, que faz um paralelo entre a História e as pistas de dança: “A ditadura foi a disco music. Estava no lugar errado no momento errado”.

 

7 – A história do cabelo – Alan Pauls

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Segundo o escritor, os argentinos perderam três coisas durante a ditadura: cabelo, dinheiro e lágrimas. Esses três elementos foram o ponto de partida para uma trilogia sobre o período: História do cabelo, História do pranto e História do dinheiro. Pauls nega o caminho fácil de recontar a época pela voz de um guerrilheiro, por exemplo, e nos envolve com a saga pessoal de um homem em crise com os seus rituais capilares, deixando claro o quanto nossos dramas pessoais são espelhos do mundo ao redor.

 

8 – Ninguém Nada Nunca – Juan José Saer

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A obra do grande Juan José Saer carece de ser publicada no Brasil de forma mais pontual. Nesse romance, fora de catálogo, o escritor argentino criar uma trama inusitada para falar do mal-estar político do seu país: nos Pampas, cavalos são, misteriosamente, mutilados até a morte. Outra vez, temos a importância do gênero policial como relator da angústia de uma época.

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