A coisa dos direitos autorais por Cory Doctorow

A coisa dos direitos autorais por Cory Doctorow

A licença da Creative Commons que utilizo no meu livro ‘Pequeno Irmão’, provavelmente serve como dica de que eu tenho uma visão um pouco não-ortodoxa sobre direitos autorais.
Aqui vai o que eu penso a respeito disso, em poucas palavras: Com apenas um pouco se chega longe, mais do que isso é exagero.

Gosto do fato de que os direitos autorais me permitem vender os direitos para meus editores e para a indústria de cinema e por ai vai. É algo bom, pois eles não podem simplesmente pegar minhas coisas sem permissão e ficarem ricos com isso sem me dar uma parte disso. Tenho plenas condições, quando me sento para negociar com estas companhias. Possuo um bom agente e uma década de experiência com leis de direito autorais e licenciamento (inclusive no cargo de delegado da WIPO, uma agência da UN que trata sobre ameaça aos direitos autorais mundiais).
Além do mais, mesmo se eu vender cinqüenta ou cem edições diferentes de ‘Pequeno Irmão’ (o que seria estar no topo, um milionésimo de toda ficção vendida) ainda assim teria uma centena de negociações que eu precisaria gerenciar.

A licença da Creative Commons que utilizo no meu livro ‘Pequeno Irmão’, provavelmente serve como dica de que eu tenho uma visão um pouco não-ortodoxa sobre direitos autorais.
Aqui vai o que eu penso a respeito disso, em poucas palavras: Com apenas um pouco se chega longe, mais do que isso é exagero.

Gosto do fato de que os direitos autorais me permitem vender os direitos para meus editores e para a indústria de cinema e por ai vai. É algo bom, pois eles não podem simplesmente pegar minhas coisas sem permissão e ficarem ricos com isso sem me dar uma parte disso. Tenho plenas condições, quando me sento para negociar com estas companhias. Possuo um bom agente e uma década de experiência com leis de direito autorais e licenciamento (inclusive no cargo de delegado da WIPO, uma agência da UN que trata sobre ameaça aos direitos autorais mundiais).
Além do mais, mesmo se eu vender cinqüenta ou cem edições diferentes de ‘Pequeno Irmão‘ (o que seria estar no topo, um milionésimo de toda ficção vendida) ainda assim teria uma centena de negociações que eu precisaria gerenciar.

Odeio o fato de que os fãs que querem fazer aquilo que os leitores sempre fizeram, tenham que jogar pelas mesmas leis que todos aqueles poderosos agentes e advogados.

É uma coisa estúpida dizer que uma classe escolar tenha que falar com um advogado de uma empresa global gigantesca, para encenar uma peça sobre um livro meu. É ridículo dizer que pessoas que querem emprestar uma copia eletrônica do meu livro para um amigo, precisem de uma licença para isso.

Emprestar livros é algo mais antigo do que qualquer editor no planeta, e é uma coisa bacana!

Recentemente vi Neil Gaiman responder em uma palestra, de como ele se sentia a respeito da pirataria de seus livros. Ele disse: ‘Levante a mão se você descobriu seu escritor favorito de graça, por que alguém te emprestou uma cópia ou ganhou de alguém? Agora levante a mão se você descobriu seu escritor predileto numa prateleira de livraria e teve que pagar por isso’.
A audiência preponderante disse ter descoberto seus autores prediletos de graça, por ter ganho um livro ou recebido emprestado. Quando se trata dos meus escritores preferidos não há limite. Comprarei sempre cada livro que eles publicarem, apenas para tê-los. (As vezes compro mais do que um, apenas para poder presentear amigos que eu penso que precisam ler aquele livro!) Pago para vê-los vivos. Compro camisetas com a capa dos livros impressas.

Neil (Gaiman) continuou dizendo que é parte de uma tribo de leitores, uma pequena minoria de pessoas pelo mundo que tem prazer em ler, comprando livros porque amam livros. Uma coisa que ele sabe sobre as pessoas que baixam seus livros na Internet sem permissão, é que são leitores, pessoas que amam os livros.

Aqueles que estudam os hábitos de pessoas que compram música, descobriram algo curioso. Os maiores piratas são também aqueles que mais gastam. Se você pirateia música a noite toda, existe a chance de que você também seja uma dessas poucas pessoas que vão a uma loja de discos (lembra-se delas?) durante o dia. Você provavelmente vai a shows no fim de semana, e provavelmente acompanha música. Se você é membro de uma tribo de viciados em música, você faz coisas que tem a ver com a música, desde cantar no chuveiro, à pagar por uma cópia em vinil de um raro disco pirata vindo do leste europeu, de uma das suas bandas favoritas de death-metal.

A mesma coisa acontece com os livros. Trabalhei em livrarias, sebos e bibliotecas. Já acessei sites piratas de ebooks (‘bookwarez’?) on-line. Sou um viciado em livros, e vou em feiras de livros por diversão. E sabe o que mais? São as mesmas pessoas em todos estes lugares: Pessoas que amam os livros e que fazem tudo que se pode fazer com um livro. Eu compro edições malucas, edições horríveis chinesas dos meus livros prediletos, por que são malucas e horríveis e ficam muitos bem entre as outras oito ou nove edições que eu paguei, destes mesmos livros. Procuro por livros na biblioteca, no Google, quando preciso de uma citação, carrego uma dezena deles no meu celular e centenas no meu laptop e tenho (hoje) mais de 10.000 livros guardados em um armazém em Londres, Los Angeles e Toronto.

Se eu pudesse emprestar todos os meus livros físicos, sem abrir mão da posse deles, eu o faria.
O fato de eu poder fazer isso com uma cópia digital não é um erro. É uma característica e uma das melhores.

Fico embaraçado ao ver todos estes escritores e músicos e artistas expressando pesar pelo fato de que a arte possui esta incômoda característica, esta capacidade de ser compartilhada. É como assistir donos de restaurante chorando por causa da nova máquina de comida grátis e que irá alimentar um mundo de gente faminta, e por que ela os forçará a reconsiderar seus modelos de negócios. Sim, irá requerer muito deles, mas não vamos perder de vista o que mais interessa: Comida grátis !!

Acesso universal ao conhecimento da humanidade está em nossas mãos pela primeira vez na história do mundo. Isso não é algo ruim.
No caso de não ser o bastante para você, aqui está o que considero a minha grande jogada, o porquê dar ebooks faz sentido hoje.
Dar ebooks me proporciona uma satisfação artística, moral e comercial.
A questão comercial é aquela que mais freqüentemente vem à tona: como dar seus livros de graça e ainda assim ganhar dinheiro?

Para mim, e para a maioria dos escritores, o grande problema não é a pirataria, mas o anonimato. (Agradeço a Tim O’Reilly por este precioso aforismo).

Todas as pessoas que deixam de comprar um livro hoje, na maioria, não o compraram por nunca terem ouvido falar que ele existe, não por que ganharam uma cópia de graça. Os mega-hiper-mais-vendidos livros de Ficção Científica(FC) vendem meio milhão de cópias – em um mundo em que um evento como a San Diego Comic Con sozinho recebe 175 mil pessoas, dá para imaginar que a maioria das pessoas que gostam de FC (e junto a isso coisas como quadrinhos, games, Linux e por ai vai) na verdade não compram livros.

Meu interesse maior é trazer maiores audiências para dentro deste círculo, mais do que garantir que cada um compre um ingresso para entrar.

Ebooks são verbos, não substantivos. Você os copia, é da natureza deles. E muitas das cópias tem um destino, uma pessoa para a qual ele foi planejado, uma transferência manual de uma pessoa para outra, guardando uma recomendação íntima entre duas pessoas que confiam uma na outra o suficiente para trocar bits. Este é o tipo de coisa com que os autores (deveriam) sonham.

Fazendo meus livros disponíveis para serem passados a frente, torno mais fácil para as pessoas que gostam deles, ajudar a outras pessoas a também gostarem deles.

E tem mais, eu não vejo ebooks substituindo os livros de papel para a maioria das pessoas. E não por que a tela do monitor não seja boa o bastante; se você for como eu, você já deve passar horas em frente a uma, lendo textos. Mas por mais que você goste desta ‘literatura de computador’, menos provavelmente você irá ler longos textos na tela, por que as pessoas que gostam de ficar na frente da tela, fazem muitas outras coisas. Nós estamos no Messenger, escrevendo e-mail, e usamos os navegadores de um milhão de maneiras diferentes. Temos os games rodando e infinitas possibilidades de músicas para ouvir. Quanto mais coisas você faz com seu computador, menos você se dedica a elas, pois a cada seis ou sete minutos começa algo diferente.
Isso faz com que o computador seja um meio extremamente ineficaz para longas leituras, a não ser que você possua a auto-disciplina de um monge.

A boa notícia (para os escritores) é que isso significa que os ebooks acabam sendo um incentivo a comprar o livro impresso (que é, afinal de contas, mais barato, fácil de ter e de usar) do que o seu substituto.
Você provavelmente vai ler o bastante do livro na tela para perceber que precisa o ler no papel.

Então ebooks vendem livros. Todo escritor que eu ouvi que distribuiu ebooks para promover seus livros, voltou a fazê-lo de novo. Este é o lado comercial de dar ebooks de graça.

Agora o lado artístico. Estamos no século vinte e um. Copiar coisas nunca mais será mais difícil do que já é hoje (se isso acontecer será por que a civilização chegou ao seu fim e neste ponto, este será o menor dos problemas) Discos rígidos não serão mais enormes, caros ou com pequena capacidade. As redes não serão mais lentas e difíceis de acessar. Se você estiver fazendo arte sem levar em consideração de que ela será copiada, então realmente você não estará fazendo arte para o século vinte e um. Existe algo sedutor sobre fazer um trabalho que você não quer que seja copiado, da mesma maneira que é legal ir até uma vila dos pioneiros e ver como o ferreiro colocava ferraduras em um cavalo, em sua forja tradicional. Mas dificilmente, vai achar que isso possa ser contemporâneo. Sou um escritor de ficção cientifica. É o meu trabalho escrever sobre o futuro ou ao menos sobre o presente. Arte que não se supõe ser copiada é coisa do passado.

Finalmente, vamos ver pelo lado moral. Copiar é natural. É como nós aprendemos (copiando nossos pais e as pessoas ao nosso redor). A primeira história que escrevi, quando tinha seis anos, era uma versão excitante de Guerra nas Estrelas (Star Wars), que eu acabara de ver no cinema. Agora que a Internet (a mais eficiente máquina copiadora do mundo) se tornou presente em toda parte, nosso instinto de copiar só aparecerá mais e mais. Não há como impedir meus leitores de copiar meus livros e se eu o fizesse, seria um hipócrita. Quando eu tinha 17 eu gravava fitas, xerocava livros, tudo que eu podia. Se a Internet existisse na época, eu estaria usando-a para copiar o tanto quanto eu pudesse.

Não há como parar com isso, e as pessoas que tentarem terminar com isso estarão fazendo um mal maior do que a pirataria jamais o fará. A ridícula guerra sagrada da indústria contra aqueles que compartilham arquivos (mais de 20 mil fãs de música processados e contando) exemplifica o absurdo da coisa toda.

Se a escolha está entre permitir a cópia ou partir bufando contra tudo e contra todos, eu escolho a primeira.

Trecho retirado do livro ‘Pequeno Irmão’.

doctorow (714 x 620)

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