A Cidade Sitiada – Clarice Lispector

A Cidade Sitiada – Clarice Lispector

Contemporâneo de O estado de sítio, de Albert Camus, e de As bocas inúteis, de Simone de Beauvoir, A cidade sitiada, de Clarice Lispector, alia a crônica da transformação de São Geraldo, cidade do interior ou subúrbio em crescimento numa nebulosa década de 20, ao processo de libertação de Lucrécia Neves, uma “mulher sitiada”. Este romance do olhar, construído num clima de exaltação sinestésica, descreve um pequeno mundo encantado: os bazares se entortavam a gotejar, (…) uma égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade (…) e a noite apodrecia em grilos e sapos (…) quando Lucrécia Neves inesperadamente abriu as grandes asas num bocejo de juventude. Em sua inquieta trajetória, Lucrécia tentou aproximar-se de uma associação de moças, namorou o agressivo Felipe e o belo Perseu, mas casou-se com um bem-sucedido comerciante, Mateus. Sua grande aventura, porém, era a de transformar-se naquilo que via – sua única vida interior – para a qual dispunha de um só instrumento: a dificuldade. Fogosa como um cavalo ou inatingível como uma estátua no parque, Lucrécia Neves, sobre os saltos de suas botinas, ora andava entre o equilíbrio e o desequilíbrio ora aprumava-se sem se mexer para não desmoronar. Mas São Geraldo a asfixiava. A inevitável modernização do subúrbio serve de metáfora à subterrânea e inexorável transformação da mulher.

Contemporâneo de O estado de sítio, de Albert Camus, e de As bocas inúteis, de Simone de Beauvoir, A cidade sitiada, de Clarice Lispector, alia a crônica da transformação de São Geraldo, cidade do interior ou subúrbio em crescimento numa nebulosa década de 20, ao processo de libertação de Lucrécia Neves, uma “mulher sitiada”. Este romance do olhar, construído num clima de exaltação sinestésica, descreve um pequeno mundo encantado: os bazares se entortavam a gotejar, (…) uma égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade (…) e a noite apodrecia em grilos e sapos (…) quando Lucrécia Neves inesperadamente abriu as grandes asas num bocejo de juventude. Em sua inquieta trajetória, Lucrécia tentou aproximar-se de uma associação de moças, namorou o agressivo Felipe e o belo Perseu, mas casou-se com um bem-sucedido comerciante, Mateus. Sua grande aventura, porém, era a de transformar-se naquilo que via – sua única vida interior – para a qual dispunha de um só instrumento: a dificuldade. Fogosa como um cavalo ou inatingível como uma estátua no parque, Lucrécia Neves, sobre os saltos de suas botinas, ora andava entre o equilíbrio e o desequilíbrio ora aprumava-se sem se mexer para não desmoronar. Mas São Geraldo a asfixiava. A inevitável modernização do subúrbio serve de metáfora à subterrânea e inexorável transformação da mulher.

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